O Jogo da Capoeira
Fornecendo elementos para a história do Brasil, a história do jogo da Capoeira se fez presente em todos os períodos, desde a colônia. Inúmeros memorialistas e cronistas de costumes fixaram a imagem de capoeiras célebres e suas peripécias. 
À época do Brasil colonial, a presença da Capoeira já se encontrava de tal forma sedimentada na sociedade que os capoeiras passaram a formar uma classe. Premidos pelas circunstâncias, faziam usos variados da habilidade que a arte lhes conferia. Com o emprego de diversos instrumentos de ataque e defesa, passaram a prestar serviços aos membros das classes dominantes, que deles se serviam para a execução de crimes que garantiam a continuidade no poder.
O cronista Luiz Edmundo fez interessante registro do capoeira dessa época, em 'O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis', retratando o Capoeira Carioca: "De volta, pelo caminho que vai à vala, penetramos a rua dos Ourives, das de maior concorrência na cidade.
'À porta do estanco de tabaco está um homem diante de um frade nédio e rubicundo. Mostra um vasto capote de mil dobras, onde a sua figura escanifrada mergulha e desaparece deixando ver apenas, de fora, além de dois canelos finos, de ave pernalta, uma vasta, uma hirsuta cabeleira, onde naufraga em ondas tumultuosas alto feltro espanhol.
Fala forte. Gargalha. Cheira a aguardente e discute. É o capoeira. Sem ter do negro a compleição atlética ou sequer o ar rijo e sadio do reino é, no entanto, um ser que toda a gente teme e o próprio quadrilheiro da justiça, por cautela, o respeita.
Encarna o espírito da aventura, da malandragem e da fraude; é sereno e arrojado e na hora da refrega ou da contenda, antes de pensar na chupa ou na navalha, sempre ao manto cosida, vale-se de sua esplêndida destreza, com ela confundindo e vencendo os mais armados e fortes contendores.
Nessa hora o homem franzino e leve transfigura-se. Atira longe o seu feltro chamorro, seu manto de saragoça e aos saltos, como um símio, como um gato, corre, recua, avança e rodopia ágil, astuto, cauto e decidido. Nesse manejo inopinado e célere, a criatura é um ser que não se toca, ou não se pega, um fluido, o imponderável, pensamento, relâmpago. Surge e desaparece.
Mostra-se de novo e logo se tresmalha. Toda sua força reside nessa destreza elástica que assombra e diante da qual o tardo europeu vacila atônito, o africano se trasteja.
Embora na hora da luta traga ele entre a dentuça podre o ferro da hora extrema, é da cabeça, braço, mão e perna ou pé que se vale para abater o êmulo minaz.
Com a cabeça em meio aos pulos em que anda, atira a cabeçada sobre o ventre daquele com quem luta e o derruba. Com a perna lança a trave, o calço. A mão joga a tapona e com o pé a rasteira, o pião e ainda o rabo de arraia.
Tudo isso numa coreografia de gestos que confunde. Luta com dois, com três, e até quatro ou cinco. E os vence a todos. Quando os quadrilheiros chegam com suas armas e os seus gritos de justiça, sobre o campo de luta nem traço mais se vê do capoeira feroz que se fez nuvem, fumaça e desapareceu.
Na hora da paz ama a música, a doçura sensual do brejeiro lundu, dança a fofa, a chocaina e a sarambeque pelos lugares onde haja vinho, jogo, fumo e mulatas. Freqüenta os pátios das tabernas, os antros da maruja para os lados do Arsenal. Usa e abusa da moral da ralé, moral oblíqua, reclamando pelourinho, degredo e às vezes, forca.
Tem sempre por amigo do peito um falsário, por companheiro de enxerga um matador profissional e por comparsa, na hora da taberna, um ladrão. No fundo, ele é mau porque vive onde há o comércio do vício e do crime. Socialmente, é um cisto, como poderia ser uma flor. Não lhe faltam, a par dos instintos maus, gestos amáveis e enternecedores. É cavalheiresco para com as mulheres. Defende os fracos. Tem alma de Dom Quixote. E com muita religião. Muitíssima. Pode faltar-lhe ao sair de casa o aço vingador, a ferramenta de matar, até a própria coragem, mas não esquece do escapulário sobre o peito e traz na boca, sempre, o nome de Maria ou de Jesus.
Por vezes, quando a sombra da madrugada ainda é um grande capuz sobre a cidade, está ele de joelhos, compassivo e piedoso, batendo no peito, beijando humildemente o chão, em prece, diante de um nicho iluminado, numa esquina qualquer. Está rezando pela alma do que sumiu do mundo, do que matou.
“É de crer que, como sentimento, o capoeira é realmente um tipo encantador...” Muitos dos nossos escritores empolgaram-se com a Capoeira e seus adeptos. Joaquim Manuel de Macedo, em Memórias de Um Sargento de Milícias; Aluízio de Azevedo,
Consta que possuía D. Pedro I um capoeira como guarda-costas, servindo-lhe de proteção em suas andanças noturnas. E não eram poucos os nobres que dominavam recursos da Capoeira. Os negros encarregados dos serviços domésticos muitas vezes ensinavam aos sinhozinhos alguns de seus segredos. Cada vez mais o jogo era praticado, rompendo todas as barreiras. O capoeira dessa época tinha por escola as praças, ruas e corredores. Formavam bandos perigosos, que se davam a conhecer entre si pelas características dos chapéus, lenços, roupas, fitas e tantas convenções quanto era possível imaginar. Melo Moraes Filho, em Festas e Tradições Populares do Brasil, fala a respeito dos grupos que formavam - as maltas - e suas proezas ao tempo do Império: “A categoria de chefe da malta só atingia aquele cuja valentia o tornava inexcedível e de chefe dos chefes o mais afoito entre estes, mais refletido e prudente”.
Os capoeiras, até quarenta anos passados, prestavam juramento solene e o lugar escolhido para isso eram as torres das igrejas. As questões de freguesia ou de bairro não os desligavam, quando as circunstâncias exigiam desagravo comum; por exemplo: um senhor, por motivo de capoeiragem, vendia para as fazendas um escravo filiado a qualquer malta; eles reuniam-se e designavam o que havia de vingá-lo.
No tempo em que os enterramentos faziam-se nas igrejas e que as festas religiosas amiudavam-se, as torres enchiam-se de capoeiras, famosos sineiros que montados na cabeça dos sinos acompanhavam toda a impulsão dos dobres, abençoando das alturas o povo que os admirava, apinhado nas praças ou nas ruas."
Em seguida, passa o memorialista a descrever alguns movimentos da Capoeira, com riqueza de detalhes que nos leva a supor não lhe serem desconhecidos os segredos dessa arte.
“A capoeiragem antiga e a moderna tem a sua gíria e sua maneira de expressão, pela qual são compreendidos os lances do jogo”. Deveras arriscados, difíceis e dependendo de rapidez e hábito, não é sem longa prática que conseguem tais contendores fazerem-se notáveis. Para darmos uma pálida idéia da gíria e do jogo, ajustamos por aquela algumas evoluções deste. Um dos preparativos mais rudimentares do capoeira é o 'rabo de arraia'. Consiste ele na firmeza de um pé sobre o solo e na rotação instantânea da perna livre, varrendo a horizontal, de sorte que a parte dorsal vá bater no flanco do contendor, seguindo-se após a cabeçada ou a rasteira, infalíveis corolários da iniciação do combate.
Por 'escorão' entendem eles amparar inesperadamente o pé de encontro ao ventre do adversário, o que é um subterfúgio que difere do 'pé de panzina', que é o mesmo resultado, porém feito não como um recurso do jogo, mas deixando à destreza tempo de varrê-lo.
O 'passo a dois' (gíria moderna) é um sapateado rápido que antecede à cabeçada e a rasteira, da qual o acometido se livra armando o 'clube x', que quer dizer o afastamento completo das tíbias e união dos joelhos, que formando larga base, estabelece equilíbrio, recebendo no embate o salto da botina, que ainda ofende o adversário.
O 'tombo da ladeira' é tocar no ar, com o pé, o indivíduo que pula; a 'rasteira a caçador' é o meio ginástico de que se servem para - deixando-se cair sobre as costas, ao mesmo tempo em que se firmam sobre as mãos - derrubarem o contrário imprimindo-lhe com o pé violenta pancada na articulação tíbio tersianal."
Em seu relato Melo Moraes traça ainda um retrato de fatos sociais do Rio de Janeiro e da intensa repressão policial à Capoeira, associada de tal forma à criminalidade, que capoeiragem se tornou a denominação oficial, quase substituindo o original capoeira. “As escolas de capoeiragem multiplicavam nesta cidade, pertencendo cada turma de discípulos a esta ou aquela freguesia”.
Desde a dos caxinguelês, meninos que iam à frente das maltas provocar inimigos, até a dos mestres que serviam para exercícios preparatórios, esses cursos regulares funcionavam sendo os mais freqüentados o da Praia do Flamengo, o do morro da Conceição, o da Praia de Santa Luzia, não falando nas torres das igrejas - ninhos atroados de capoeiras de profissão.
Alistados nos batalhões da guarda nacional os capoeiras exerciam poderosa influência nos pleitos eleitorais, decidiam das votações, porque ninguém melhor do que eles arregimentavam votos, emprenhavam urnas, afugentavam votantes, etc.
Muitos dos comandantes dos corpos e grande parte dos aficionados entendia do jogo, ou eram habilíssimos na arte.
Os desafios entre as freguesias transmitiam-se por meio de pancadas de sino convencionais e em horas determinadas. Os combates davam-se nas praças, nas ruas, em sítios mais ou menos distantes e desertos.
Às vezes, interrompendo a marcha de uma procissão, o desfilar de um cortejo, ouvia-se, aos gritos das senhoras correndo espavoridas, dos negros levando senhores moços ao colo, dos pais de família pondo no abrigo a mulher e os filhos, o horroroso 'Fecha! Fecha!'. Os caxinguelês voavam na frente, a capoeiragem disparava indômita, seguindo-se aos distúrbios cabeças quebradas, lampiões apedrejados, facadas, mortes, etc...
A polícia, amedrontada e sem força, fazia constar que perseguia os desordeiros, acontecendo raríssimas vezes ser preso este ou aquele que respondia a processo.
Pertencendo à segunda fase da capoeiragem no Rio de Janeiro, essas cenas tiveram lugar durante a administração policial de Eusébio de Queiroz e de seus sucessores, desaparecendo totalmente com a guerra do Paraguai, que não acabou somente com os capoeiras, porém assinalou o termo do patriotismo brasileiro."
Em seguida o cronista passa a reportar-se às personalidades eminentes da época que se notabilizaram também pelos conhecimentos do jogo da Capoeira. "É geralmente sabido pela tradição que no Senado, na Câmara dos Deputados, no Exército, na Marinha, no funcionalismo público, na cena dramática e mesmo nos claustros, havia capoeiras de fama, cujos nomes nos são conhecidos.
Nas garrafadas de março, um dos nossos mais eloqüentes oradores sacros fez prodígios nesse jogo, livrando-se de seus agressores; recordamo-nos de um frade do Carmo que por ocasião de uma procissão de enterro, debandou a cabeçadas e rasteiras um grupo de indivíduos imprudentes que o provocaram.
Pergunte-se por aí qual o ator cuja valentia e destreza como capoeira eram respeitados, e acreditai que a popularidade precisaria muito para atingir-lhe o pedestal.
Quando estudamos no Colégio de Pedro II foi nosso lente de francês o bacharel Gonçalves, bom professor e melhor capoeira.
O Dr. D. M., jurisconsulto eminente e deslumbrante glória da tribuna criminal, cultivou em sua mocidade essa luta nacional, entusiasticamente levada a excessos pelo povo baixo, que a afogou nas desordens, em correrias reprováveis, em homicídios horrorosos.
Pode-se dizer que de 1870 para cá os capoeiras não existem e se um ou outro, verdadeiramente digno desse nome pela lealdade antiga, pela confiança própria e pelo conhecimento da arte resta por aí, veio daquele tempo em que a capoeiragem tinha disciplina e dirigia-se a seus fins.
Navalhar à traição, deixar-se prender por dois ou três soldados e espancar a um pobre velho, ser vagabundo e ratoneiro, nunca constituíram os espantosos feitos das maltas do passado, que brigavam freguesia com freguesia, disputavam eleições arriscadas, levavam à distância cavalaria e soldados de permanentes quando intervinham em conflitos de suscetibilidade comum.
O capoeira isolado, naqueles tempos, trabalhava, constituía família, a vadiagem lhe era proibida, não era gatuno, afrontava a força pública e só se entregava morto ou quase morto.
Como fizemos ver em princípio, as turmas militantes condensavam as classe operárias e os escravos, expressão nítida da capoeiragem de rua."
Em outro momento da sua narrativa, Melo Moraes passa a discorrer sobre a presença de portugueses e demais cidadãos no meio da Capoeira, evidenciando que à época esta já poderia ser considerada como plenamente assimilada enquanto costume popular.
"Não sendo estranhos ao jogo, portugueses havia que se aliavam às maltas avulsas, distinguindo-se entre eles homens de inaudita coragem e espantosa agilidade.
Luzidas companhias de batalhões da guarda nacional, de que tinham orgulho briosos comandantes, reuniam magnífica rapaziada, de onde eram tirados praças para diligências perigosas, servindo igualmente para as campanhas eleitorais.
A prova de que a capoeiragem entrava nos nossos costumes está em que não havia menino que não botasse o boné à banda e soubesse gingar, nem escolas que se não desafiassem para brigar, sendo de data recente as lutas entre os famosos colégios Sabino, Pardal e Vitório."
Ao encerrar a reportagem do jogo da Capoeira no começo do século XIX, traça Melo Moraes o perfil do famoso capoeira Manduca da Praia. “O Manduca da Praia era um pardo claro, alto, reforçado, gibento e quando o vimos usava barba crescida em ponta, grisalha e cor de cobre”.
De chapéu de castor branco ou de palha ao alto da cabeça, de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança.
Trajando com decência, nunca dispensava o casaco grosso comprido, grande corrente de ouro que prendia o relógio, sapatos de bico revirado, gravata de cor com anel corrediço, trazendo somente como arma uma bengala fina de cana da Índia.
O Manduca tinha uma banca de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e trabalhava com regalo.
Constante morador da Cidade Nova, não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco.
Destro como uma sombra, foi no curro da rua do Lavradio, canto da do Senado, onde é hoje uma cocheira de andorinhas, que ele iniciou a sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravios sobre os quais saltava, livrando-se.
Nas eleições de S. José dava cartas, pintava o diabo com as cédulas.
Nos esfaqueamentos e sarilhos próprios do momento ninguém lhe disputava a competência.
Um dia, na festa da Penha, o Manduca da Praia bateu-se com tanta vantagem contra um grupo de romeiros armados de pau, que alguns ficaram estendidos e os mais inutilizados na luta.
O fato que mais o celebrizou nesta cidade remonta à chegada do deputado Sant'ana, cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de uma força muscular prodigiosa.
Sant'ana, que gostava de brigas e não recuava diante de quem quer que fosse, tendo notícia do Manduca, procurou-o.
Encontrando-se os dois, houve o desafio, acontecendo àquele saltar aos ares ao primeiro canelo do nosso capoeira, depois do que beberam champanhe ambos e continuaram amigos." É interessante o relato de Manoel Querino no Jornal de Notícias, da cidade de Salvador, na Bahia, do dia 2 de junho de 1914. Em seu depoimento - que tem por título A Cumbuca Eleitoral - o jornalista trata das disputas entre liberais e conservadores e do papel dos capoeiras a soldo dos partidos, na ocasião em que se realizavam as eleições. "O capoeira fora sempre figura indispensável nos pleitos eleitorais, fazendo respeitar a opinião de correligionários, provocando a desordem, sempre que se fazia necessário; espancando o adversário e contribuindo desse modo para a formação da Câmara dos Fagundes."
Prosseguindo em sua narrativa Manoel Querino descreve o dia do pleito eleitoral: "Chegado que fosse o dia da eleição, estavam as hostes preparadas para a luta, cada partido arregimentava o seu pessoal, composto de votantes, turbulentos, capoeiras e aderentes. Todos a postos, começava a chamada, no campo da matriz da paróquia. Na ocasião aprazada, dava-se um conflito, era o meio de perturbar a eleição. Chamava-se um cidadão para votar; o grupo político que dispunha de maior número de desordeiros, gritava: - É fósforo! - É! - Não é!... E fechava-se o tempo... Gritos, protestos, doestos, uma vozeria ensurdecedora, e, por fim, recorriam ao argumento decisivo - o cacete; e o sangue dos partidários ensopava as lajes do templo, sendo alguma vez interdito pela autoridade diocesana.
Aproveitando a confusão do momento, o votante mais sagaz introduzia na urna um maço de chapas. Chamava-se esta ação - emprenhar a urna. De modo que a vitória das urnas estava na razão de quem dispunha dos maiores elementos de desordem, fossem paisanos ou militares." O mesmo sistema que gerava a miséria era o beneficiário da existência das turbulências no contexto social. Fabricava aquele estado de coisas. Vale salientar que quando capoeiras faziam uso da violência indistintamente contra membros de uma sociedade que sobrevivia às custas da escravidão, não se configuravam suas atitudes em gestos gratuitos. A história da humanidade nos ensina que em todas as épocas a violência institucionalizada sempre gerou ainda mais violência.
Outro nome das nossas letras se distinguiu no uso dos recursos da Capoeira. O escritor Coelho Neto, segundo Francisco Pereira da Silva, era exímio na arte: "Ágil na pena quanto destro na rasteira, duas vezes publicamente se valeu do ensino da capoeiragem recebido nos tempos de rapaz. Josué Montello refere a um destes episódios, precisando a data de 6 de agosto de 1886, quando à noite em meeting de abolicionistas no Teatro Politeama do Rio de Janeiro, discursava Quintino Bocaiúva. A certa altura, capoeiristas a soldo dos escravocratas irrompem das galerias e armam tremendo salseiro. Luzes apagadas, vem Coelho Neto e realiza a incrível proeza de desarmar o chefe do bando, que outro não era senão Benjamim - o mais temível capoeira carioca." De outra feita, o mesmo romancista Coelho Neto, em episódio também narrado por Josué Montello e aqui transcrito de Pereira da Silva, demonstrou seus atributos de destreza e valentia. "Na Academia Brasileira de Letras, fizera o tribuno maranhense referência em desfavor de um colega de imortalidade. Dias depois lhe apareceu um filho do suposto ofendido exigindo satisfação. Gravemente desentenderam-se e o jovem, que era atleta, não retardou seu golpe de jiu-jitsu. Instantaneamente e com agilidade felina, partiu Coelho Neto para o rabo de arraia levando o insolente a beijar o pó da calçada e a sumir no oco do mundo..." Do capoeira da Bahia, no século passado, traçou Manoel Querino um perfil da sua figura inconfundível, que em muito se assemelhava à do seu contemporâneo capoeira do Rio de Janeiro: “Era um indivíduo desconfiado e sempre prevenido”. Andando nos passeios, ao aproximar-se de uma esquina tomava imediatamente a direção do meio da rua; em viagem se uma pessoa fazia o gesto de cortejar a alguém, o capoeira, de súbito, saltava longe, com a intenção de desviar uma agressão, embora imaginária.
Eram conhecidos à primeira vista pela atitude singular do corpo, pelo andar arrevesado, pelas calças de boca larga, ou pantalona, cobrindo toda a parte anterior do pé, pela argolinha de ouro na orelha, como insígnia de força e valentia, e o nunca esquecido chapéu à banda." Muitos foram os capoeiras que deixaram seus nomes e feitos inscritos nas páginas dos cronistas da história, deixando evidente a aptidão para feitos de coragem e bravura. João Lyra Filho reconta em Introdução à Sociologia dos Desportos as páginas de Monteiro Lobato acerca do 22 do Marajó. "Trata-se de um marinheiro, mestre em desordens, habituado a revirar de pernas para o ar quiosques portugueses; imperava na Saúde, onde suas proezas de capoeira exímio andavam de boca
O marinheiro já era outro; transformado em perfeito cavalheiro, embasbacava a rua do Ouvidor com o apuro dos trajes, as polainas de gala, as luvas de pelica e a cartola café-com-leite. Ninguém sabia quem ele era, embora parecesse um fidalgo. Impávido, patroneando de monóculo, olhava de cima. De hábitos certos, todos os dias passava pelo largo São Francisco, assim como paca pelo carreiro. O logradouro era ponto de encontro preferido por alguns rapazes grã-finos, fortemente despeitados ante a esmagadora elegância do desconhecido. Este passou a ser visto como um rival, sobretudo no jogo lúdico do namoro com as donzelas. Os rapazes decidiram quebrar a proa do novo êmulo. Certa vez em que este passava, mais imponente do que nunca, coincidiu aproximar-se da roda um capoeira 'mordedor', que se gabava de ser um mestre em soltas. 'Solta' era uma cabeçada desferida no adversário, sem encosto da mão.
Veio a hora da 'mordida' e com ela a hora da forra. Os rapazes selaram o trato: o capoeira embolsaria cinco mil réis, desde que sapecasse uma solta naquele freguês de monóculo. 'É pra já', disse o valentão, já indo ao encontro do rival. Postou-se perto, na calçada por onde caminhava o '22', desperdiçando passos de lorde e esticado dentro do croisô confeccionado
O Petrônio ficou por ali mesmo, onde estava, dando-se ao conserto do laço da gravata. Mas não perdeu o ímpeto transformado no desprezo dirigido aos rapazes grã-finos e mofinos da roda elegante: '- Só uma besta desta dá soltas sem negaça. Já o Cincinato Quebra-Louça dizia que soltas sem negaça só em lampião de esquina; se grampeasse, vá lá. O Trinca-Espinha, o Estrepolia e o Zé da Gamboa admitem soltas neste caso. Mas, assim mesmo, só quando o semovente não é firme de letra.' E, num giro de bengala entre os dedos, rematou com um suspiro de saudade: '- Já gostei desse divertimento. Hoje, minha posição social não me permite cultivá-lo. Mas vejo, com tristeza, que a arte está decaindo.' E lá se foi, imperturbável e superior, monologando. 'Soltas sem negaça...Forte besta!'
Mas os rapazes não se deram por vencidos. Recuperados após o estupor, uma nova tentativa de desforra cresceu no ânimo deles. A desforra deveria ser contundente. Já então, a surra deveria ser mediante contrato: adjudicaram a empresa ao famoso Dente de Ouro, da Saúde, que haveria de romper o baluarte e quebrar de vez a proa ao estranho figurão. Tudo bem assentado, foram colocar-se no momento aprazado junto ao carreiro, com o rompe-e-rasga à frente. 'É aquele lá' - apressaram-se em dizer, assim que ao longe repontou a cartola café-com-leite do sobranceiro lutador. Dente de Ouro avançou para o desconhecido; ao defrontá-lo, entreparou e abriu-se num grande riso palerma: 'Ei 22! Você por aqui?' E a resposta: '- Cala o bico, moleque, e tome lá para o cigarro. Afasta-te que hoje sou gente; não ando em más companhias.' E o 22 do Marajó seguiu caminho honesto, depois de meter uma pelega de dez na mão do Dente de Ouro. Este, alisando a nota, voltou ao grupo dos grã-finos. 'Então?' - um dos rapazes interrogou-o, desnorteado com o imprevisto desfecho. - 'Cês tão besta? Aquele é o 22 do Marajó, tem corpo fechado para sardinha e pé que nunca melou saque!' "
"- Mas porque, continuo eu curioso, põem vocês junto do rei Baltazar aquele boneco de cacete?
- Aquele é o rei da capoeiragem. Está perto do rei Baltazar porque deve estar. Rei preto também viu a estrela. Deus não esqueceu a gente. Ora, não sei se V.S. conhece que Baltazar é pai da raça preta. Os negros de Angola quando vieram para a Bahia trouxeram uma dança cungú, em que se ensinava a brigar. Cungú com o tempo virou mandinga e S. Bento.
- Mas o que tem tudo isso?
- Isso, gente, são nomes antigos da capoeiragem. Jogar capoeira é o mesmo que jogar mandinga. Rei da capoeiragem tem seu lugar junto de Baltazar. Capoeiragem tem sua religião.
Abri os olhos pasmados. O negro riu.
- V.S, não conhece a arte? Hoje está por baixo. Valente de verdade só há mesmo uns dez: João da Sé, Tito da Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manoel Piquira, Ludgero da Praia, Manoel Tolo, Moisés, Mariano da Piedade, Cândido Baianhinho e outros... Esses cabras sabiam jogar mandingas como homens...
- Então os capoeiras estão nos presepes para acabar com as presepadas.
- Sim senhor. Capoeiragem é uma arte, cada movimento tem um nome. É mesmo como sorte de jogo. Eu agacho, prendo V.S. pelas pernas e viro: - V.S. virou balão e eu entrei de baixo. Se eu cair virei boi. Se eu lançar uma tesoura eu sou um porco, porque tesoura não se usa mais. Mas posso arrestar-lhe uma tarrafa mestra.
- Tarrafa?
- É uma rasteira com força. Ou esperar o dégas de galho, assim duro, com os braços para o ar e se for rapaz da luta, passar-lhe o tronco na queda, ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o baú, pontapé na pança. Ah! V.S. não imagina que porção de nomes tem o jogo. Só rasteira, quando é deitada, chama-se banda, quando com força, tarrafa, quando no ar, para bater na cara do cabra, meia lua...
- Mas é um jogo bonito!, fiz para contentá-lo.
- Vai até o auê, salto mortal, que se inventou na Bahia.
Para aquela lição intempestiva, já se havia formado um grupo de temperamentos bélicos. Um rapazola falou:
- E a encruzilhada?
- É verdade, não disseste nada da encruzilhada?
E a discussão cresceu. Parecia que iam brigar...
Fora, a chuva jorrava torrencial. Um relógio pôs-se a bater preguiçosamente meia-noite. As mulatinhas cantavam tristes:
Meu rei de Ouros quem te matou?