Karatê: Ética em Karate-do
O texto abaixo aborda aspectos das saudações utilizadas no Karatê e a ética em si, nessa arte marcial.
A SAUDAÇÃO “REI”
Falemos agora da saudação «Rei», como símbolo da ética nipônica, e de todo o espírito que envolve este simples gesto. Não esquecer que, em japonês, Rei, também significa vênia.
A primeira lição em Karate-do começa com a prática da saudação (Rei) já aqui abordada. Depois, então, ela é sempre praticada e recordada. A sua importância é demarcada ainda mais, quando começamos a treinar combate com um parceiro.
Somente aqueles que entendem a profundidade do seu sentido, conseguem chegar aos mais altos níveis de competência na vida.
Karate-do é uma arte marcial e como tal, não tem fim, nem explicação sobre si mesma.
É através de um processo de treino intensivo e de uma rigorosa disciplina que tentamos compreender e atingir o «Michi» (caminho) ou o «Do» (Via), do Karatê.
A importância de Rei, sem a qual, o Karate-do cessaria de existir, era inteiramente reconhecida pelo Mestre Funakoshi, que reafirmava sempre sobre a sua importância aos seus alunos, num dos seus 20 Princípios de Karate-do (Karate-do Ni Ju Kyokun), “O Karate-do começa com Rei e acaba com Rei!”
«Rei» pode ser definido como a vontade de estabelecer um relacionamento, baseado na mútua confiança, boa-vontade, a compreensão e o respeito pelos sentimentos dos outros, demonstrando o nosso respeito.
Na sociedade, é um modo de estabelecer a harmonia entre as pessoas, por formas a contribuir para uma nova sociedade e, conseqüentemente, um Mundo melhor.
«Reigisaho» significa “código de etiqueta”, e é a melhor forma de expressar este conceito
Karate-do é natural e, como tal, deveria ser aplicado na nossa vida diária.
Na prática, Rei é a cerimônia ou a formalidade entre duas ou mais pessoas, as quais, ao encontrarem-se, trocam entre si, o seu respeito, a sua confiança.
Rei é, acima de tudo, a vontade de respeitar a dignidade humana e de demonstrar esse respeito. É uma maneira de desenvolver o relacionamento entre as pessoas e, por conseguinte, de ordem social.
«Setsu» é a expressão desta atitude, tanto em Ritsurei, como também, e neste caso ainda mais realçado, em Zarei, conforme atrás foi referido.
Somente aqueles que praticam Karate-do devem aprofundar a compreensão e o espírito de Rei, e observar, rigorosamente, as regras de «Setsu», nas relações humanas e sociais.
Perguntaram um dia ao Mestre Kanazawa, porque razão, todas as pessoas, desde o polícia ao empregado de restaurante, passando pelo simples guarda de jardim, e demais gente anônima, porque motivo é que toda a gente era tão educada e simpática, uns para os outros, isto numa breve comparação com as gentes do nosso burgo, ao que o Mestre respondeu: - “Todo o Japão é um conjunto de ilhas. Se não fôssemos delicados uns com os outros... (sorrindo-se), acabaríamos todos afogados na água, não acha?”
As regras de comportamento e etiqueta estão reunidas num conjunto de preceitos, denominado em japonês "REIGISAHO", o que quer dizer em português, «Código de Etiqueta», e que pretende regular, o comportamento de todos os praticantes, num permanente e rigoroso chamamento de atenção ao respeito por “si próprio”, pelos outros, bem como, à autodisciplina.
São regras que devemos assumir, conscientemente, perante a Associação e a Escola, perante o Dojô e o Sensei, e até, perante nós próprios e a própria Vida.
PRINCÍPIOS BÁSICOS NAS ARTES MARCIAIS
1º. – Ao entrarmos para uma Escola, para aprender Artes Marciais, não devemos suspender o estudo sem uma razão válida;
2º. – Devemo-nos conduzir de maneira à nunca manchar a Tradição e a Honra da Escola;
3º. – Em caso de acidente, não devemos culpar, seja quem for, a não ser nós próprios, e assim, libertaremos a Escola ou os seus membros de qualquer responsabilidade;
4º. – Não devemos fazer qualquer exibição em público, para ganho pessoal;
5º. – Sem permissão dos Mestres, não devemos ensinar, nem divulgar, qualquer segredo a ninguém;
6º. – Não devemos abusar, nem fazer uso dos nossos conhecimentos,
7º. – Sempre que se entra, ou sai, de um Dojô, devemos saudá-lo, com uma ligeira vênia;
8º. – Devemos respeitar os praticantes mais graduados, e ajudar os de menor graduação;
9º. – Quando não estivermos a treinar, devemos tomar uma atitude correta, mesmo quando fatigados, ou ainda, em momentos de explicações ou de demonstrações, mais prolongadas, por parte do Sensei. As posições de amolecimento ou de enfraquecimento não fazem parte da Ética. Devemos adotar sempre uma posição altiva e de respeito.
10º. – Devemo-nos conservar em silêncio, sem falar durante as aulas, exceto, quando formos interpelados diretamente pelo Sensei, e ao fazê-lo, que seja em tom baixo e respeitoso, numa breve intervenção. As dúvidas surgidas ao longo do treino, só devem ser colocadas no final da aula, ou, quando o Sensei criar pausas para repouso ou explicações;
11º. – Devemos ter cuidado constante com a limpeza corporal, não trazer qualquer peça de vestuário por de baixo do Kimono (Gi), cortando as unhas das mãos e dos pés;
12º. – Devemos manter o «Gi» vestido corretamente, com a calça ajustada à cintura, e o casaco bem composto, devendo ter sempre presente a divisa, (o cinto = Obi);
13º. – Antes de cada treino, devemos despojarmo-nos de todos os adornos e enfeites, como sejam anéis, pulseiras, fios, brincos, relógios, etc.;
14º. – Devemos respeitar os horários das aulas. As entradas tardias, ou as saídas antecipadas, são consideradas manifestações de menos respeito e falta de autodisciplina, pelo que devem ser evitadas, no entanto, é preferível participar durante meia-aula, do que não treinar. Igualmente, devem ser evitadas as saídas temporárias, para satisfação de necessidades fisiológicas. Estas, devem ser prevenidas antes de se entrar no Dojô;
15º. – Sempre que se treinar com um companheiro de treino, devemos saudá-lo, antes e depois, e sempre com o «Gi» apresentável;
16º. – Não devemos procurar ser fortes, mas justos, nem procurar a vitória sobre os nossos companheiros de treino, mas sim a vitória sobre nós mesmos, através de princípios corretos;
17º. – Devemos possuir inteligência, para compreender aquilo que nos ensinam, paciência, para ensinar o que aprendemos aos nossos semelhantes, e fé, para acreditar naquilo que ainda não sabemos;
18º. – Devemos cultivar a máxima concentração durante o treino, de modo a obtermos uma melhor assimilação, por parte da instrução;
19º. – Devemos aprender e a saber, cada dia, um pouco mais, e usar esses conhecimentos todos os dias para o Bem.
20º. – Devemos cuidar da nossa atitude no Dojô, permanecendo calmos e serenos, o que não exclui o bom-humor.
Devemos respeitar, estritamente, estes regulamentos, (Reigisaho), não só durante o nosso estágio de aluno (gakusei), mas também, mesmo depois de termos sido graduados Senpai.
Existem igualmente, «Os 20 Princípios Regulamentares do Karate-do», o “KARATE-DO NI JU KYOKUN”, que nos foram legados por Gichin Funakoshi, o qual oi o Grande Mestre, Criador e Codificador do Karate-do.
«Kyokun» significa preceito, mandamento, lei, regulamento, por extensão, “regra de ouro”.
«Os 20 Princípios Regulamentares do Karate-do», correspondem pois, de certo modo, aos Dez Mandamentos, de Moisés, do Antigo Testamento, (O Decálogo do Monte Sinai), ditado por Yavhé / Geová, o Deus dos Judeus; correspondem, igualmente, às Quatro Nobres Verdades, bem como, à Nobre Senda Óctupla, ditada, aos seus discípulos, por Sidharta Gautama, o Buda.
Nesse sentido, os Kyokun são como que, Regras de Ouro, quase que divinas, as quais, foram concebidas para nos ajudar a alcançar um domínio quase que absoluto, tanto interno como externo, de Despertar e de Sabedoria.
Todos os preceitos constam de vários níveis de compreensão, conforme o nível que se alcança, e eram transmitidos oralmente aos discípulos mais chegados, ou melhor dizendo, aos iniciados, a guisa de “koan” do Zen, onde, depois, eram analisados e comentados, em grupo, até ao Despertar total, «Satori» em japonês.
Alguns Mestres do passado, em circunstâncias várias, porque eram amigos ou discípulos de Gichin Funakoshi, transmitiram por escrito estes preceitos, dando interpretações diferentes, conforme o seu nível de mestria, mas sempre com a mesma base, com o mesmo propósito.
Recuando um pouco no tempo, e porque um pouco de história, não faz mal a ninguém, o Mestre Funakoshi extraiu estes preceitos de uns textos, provenientes dos seus mestres, Azato de Naha-te e Itosu de Shuri-te, os quais, por sua vez, extraíram de textos chineses da velha escola «Shaolin», onde se fazia referência, numa generalidade, à «Arte Marcial», a qual, o Japão sonegou, dividindo-a mais tarde, após a época de 1600, em várias artes marciais, Arte Marcial essa, denominada «Wu-Shu» isto é, “Mão da China”.
Curiosamente, e com os mesmos ideogramas, «kanji», isto é, caracteres clássicos, «Wu-Shu» traduziu-se para japonês, «Bu-Jutsu», isto é, “Artes de Guerra”.
Ora, o Mestre Funakoshi não fez senão adaptá-los à realidade japonesa, sem contudo, modificar o seu sentido mais profundo. E foi aqui que residiu a grande cisão ideológica por parte do Mestre.
Ao aperceber-se do sentido bélico que tais palavras carregavam, e em vez de alterar o conteúdo da mensagem, como muitos instrutores hoje, infelizmente alterou, isso sim, o foco dessa mesma mensagem.
À expressão “Mão da China”, “Wu-Shu” em chinês, lia-se em japonês, “Kara-te”, donde o ideograma «Kara» significava «Cathay», isto é, “Antiga China”. Gichin Funakoshi, em 1933, modificou o caractere antigo, por um ideograma de proveniência budista, e como tal, de cariz filosófico: «Vazio», o qual, fazendo alusão à técnica de meditação do budismo, também ele importado, vinda da Índia, (Dyhana), via China, (Tchena), o qual, originou no Japão, o Zen.
Mais tarde, é-lhe acopulado a expressão vocal «Do», ao ideograma japonês «Michi» (Caminho), proveniente do «Tao» chinês e com o mesmo ideograma. Isto pode restabelecer nos espíritos mais incautos, certa confusão.
Na realidade, a situação é tipicamente japonesa misturar-se religiosidades, isto é, nasce-se “taoísta”, casa-se “shintoísta” e morre-se “budista”.
Eis-nos pois, perante uma grande realidade: é que existe uma diferença, abismal, entre o Karatê, antigo, tradicional, tal qual nos foi transmitido por Gichin Funakoshi, e o Karatê moderno, o qual, curiosamente, também é tido por “tradicional”.
Qual será a razão de silêncio, de alguns mestres japoneses, acerca dos verdadeiros “Kyokun”?
Podemos afirmar que todos aqueles que ensinam, aqui no Ocidente, conhecem o que é “Kyokun”. Agora, que os tenham estudado ou, que os tenham comentado, e como conseqüência, tenham entrado em profundidade no seu conhecimento..., isso já é outra coisa!
Para quê complicar-se a vida, quando se está dotado para o combate desportivo e quando temos o nosso ganha-pão garantido, ensinando uma forma de Karatê que satisfaça a um número elevado de praticantes?
Talvez seja a razão da importância destes Kyokun, ou do seu «hermetismo» para o praticante comum, mas no entanto é estranho, quando não, inquietante, que esses mesmos “Mestres”, vindos ao Ocidente para transmitir-nos o Karatê, que enfim, conhecemos, que dizem ser «tradicional», não façam senão, rara vez, alusão aos Kyokun, salvo em dois casos distintos:
O Primeiro Kyokun, porque lhes convém o respeito pelo «mestre», ainda que, rara a vez que se o viva interiormente;
Fonte - In “Bushido” - «O Código de Honra do Samurai»