Internet versus indústria cultural

 

 

 

O que Gutenberg teria a ver com Bill Gates? Bem, tudo, ou quase tudo. Com o atual embate entre a mídia virtual e os ícones e regras do jogo da indústria cultural, fica a indagação: a que ponto estaríamos vivendo uma encruzilhada de transposição de procedimentos da ordem capitalista, justo por conta da diluição das normas de consumo tradicional dos bens culturais.

 

A gratuidade e o acesso livre ofertados pela Internet de obras musicais, literárias e imagísticas ingressam no debate que posiciona o comprometimento da auto-sustentabilidade da indústria cultural em face da abertura de acesso aos bens culturais proporcionada pela rede virtual e suas vias de compartilhamento.

 

Voltando à pergunta inicial sobre Gutenberg Bill Gates, se conduz a resposta de ambos terem vivido em momentos históricos similares e de transição. Com a invenção da imprensa Gutenberg, abriu na Alemanha do século XV, uma via de acesso ao conhecimento adstrita anteriormente ao âmbito do binômio Igreja-Estado, cujo programa ideológico congelava o conhecimento na curralização do dogmatismo. O próprio regime feudal com seus desdobramentos mesmo estertorais, passou a ter seus dias contados com as possibilidade ampla de acesso ao conhecimento propiciada pela invenção da imprensa.

 

Com a Internet as regras do jogo do consumo de massa passam a sofrer uma reciclagem, na medida em que os limites financeiros da informação simplesmente deixam de existir, para dar lugar a uma deselitização do conhecimento e do acesso pura e simples às criações artísticas.

 

À nível de ensejo a uma conscientização social mais ampla e crescente, foi uma mudança mais do que oportuna, agora no que se refere à sustentabilidade da própria indústria do conhecimento e da arte, as ferramentas virtuais criaram uma lacuna e uma indagação- Qual será o próximo passo?

 

CAPITALISMO SE RECICLA

 

Para o jornalista Luís Sérgio Santos, o sistema capitalista se reinventa, de modo que todo o dinheiro que deveria ir para gravadoras, editoras e similares encontrará outros destinos, seguindo a própria lógica do capitalismo em si, onde nada se perde, tudo se fatura.

 

Já o radialista Ronaldo César, coordenador da Rádio FM Assembléia, acredita que a grande saída para o mercado fonográfico seria a gravadora vender antecipadamente os fonogramas para uma comunidade virtual qualquer que o viabilizaria o produto virtualmente como bem lhe aprouvesse.

 

Acontece que os dados não são bem animadores, com grandes nomes da música em geral, recuando diante de grandes projetos fonográficos, para produções menos dispendiosas do registro de seu trabalho, o que coloca instâncias mercadológicas prioritárias em relação à própria qualidade de sua produção artística em si.

 

Exemplo maior é a ausência fonográfica de Roberto Carlos dos finais de ano, quando seu disco era um presente de Natal, com 1 milhão ou 1 milhão e meio de cópias vendidas. Desde 2006, Roberto Carlos retirou-se dos estúdios, segundo informações do então divulgador da gravadora Sony Music, Everardo Ramos, justamente por conta da queda vertiginosa da venda de discos, em função de sua própria coleção de lançamentos estar disponibilizada para download gratuito na Internet. Diante do fato, vários outros artistas já disseram amém diante do liberou geral virtual, deixando suas obras navegarem à vontade nos oceanos multiculturais da web.

 

No mercado editorial o quadro é o mesmo, com a disponibilização até de obras didáticas e culturais, como registros literários que vão de Dante e Shakespeare, até o nosso atualíssimo Paulo Coelho, cujos livros estão oferecidos virtualmente de mão beijada com todo o seu conteúdo esotérico e tudo mais.

 

O mesmo acontece com as obras cinematográficas, o que determinou pelo menos em Fortaleza ao fechamento de várias salas de cinema confinadas aos shoppings, e a evasão das locadoras de DVD. Dados remotos de 2008 dão conta do fechamento de em torno de 2 mil lojas de disco em todo o Brasil, fenômeno que persevera e se acentua em outros países também, enquanto as gravadoras se debatem em uma crise sistêmica pilotada inclusive pelas implantações dos estúdios caseiros e devidamente informatizados, crise essa que assola o mercado fonográfico do mundo inteiro. Resultado- O artista musical passa a depender exclusivamente de shows, com sua aposentadoria postergada “ad infinitum”, só para dar um exemplo bem emblemático.

 

Com todo esse quadro a indústria cultural passa a ter que se reinventar, dentro de uma sociedade que também se reinventa dado ao afluxo de informações e consequentemente de questionamentos. Como a imprensa de Gutenberg, a Internet de Bill Gates, passa a inovar os procedimentos do próprio sistema capitalista que passa a ser por conta disso até autofágico, em decorrência das suas próprias contradições enfatizadas por todo um programa de inovações tecnológicas. Vamos esperar pela nova coisa que virá.

 

A crise não se limita, contudo, a pequenos espaços localizados, atinge também ás grandes corporações como a superpoderosa gravadora EMI, e até os grandes empreendimentos cinematográficos como o filme "Tropa de Elite", estrelado pelo ator brasileiro Wagner Moura, que detectou uma evasão de uma cópia do filme para a pirataria causando um desvio de milhões em faturamento que deveriam ser destinados aos produtores legais.

 

Por falar na EMI, a gravadora Universal Music Group, da francesa Vivendi, confirmou a compra da mesma por 1,2 bilhão de libras, ou seja, 1,9 bilhão de dólares,no que os CDs e DVDs da EMI, levarão o selo da Universal Music. Assim sendo, bandas como Beatles, Rolling Stones, Iron Maiden, Pink Floyd, e nomes Amy Winehouse, Eric Clapton, Queen, Coldplay e Radiohead migraram de seu selo tradicional para em um estalar de moedas, um demonstrativo de que a crise atinge também grandes empresas do mercado fonográfico.

 

A pirataria é a grande vilanizada por violações óbvias de direitos autorais e desvios de recursos causadores de impactos sucessivos nas produções formais, mas ela é apenas a ponta do iceberg, a causa final de toda uma proliferação de mídias e ferramentas de acesso à manipulação imediata da obra de arte em sua versão final e acabada.

 

Com Internet e estúdios caseiros, as gravadoras entram rota de queda livre, já que ninguém compra mais CD e DVD legais, todo mundo faz download, o mesmo acontecendo com filmes e livros. Em suma: liberou geral, democratizou-se a informação, mas o lucro de todo esse processo saiu da mão do artista que perdeu o poder de gestão da sua própria obra.

 

Voltando à EMI, grande gravadora dos Beatles e do Pink Floyd, registra quedas desapontadoras de seu retorno financeiro, o que aponta para uma busca imediata e quase emergencial de saídas virtuais à nível de mercado, já que o crescimento e a penetração da informática são dados irreversíveis.

 

HOLLYWOOD SENTE O IMPACTO

 

A própria Hollywood, detentora tradicional de grandes e portentosos investimentos com retornos nababescos, apresentou em 2011, uma arrecadação 8,5% inferior ao mesmo período no ano anterior, o que demandaria uma recuperação de 51% a mais do que o mesmo período de dezembro de 2010, só para dar uma compensada.

 

Por conta disso, grandes estúdios como a Sony/ Columbia, Warner e Paramount partem para medidas recessivas operacionais, como esta última que chegou até a eliminar vários departamentos, a guisa de contenção de despesas pura e simples. A verdade é que a crise econômica nos EUA está deixando 14% da população fora da área produtiva, enquanto as séries televisivas ganham cada vez mais audiência em relação a Hollywood, que se depara em decorrência com prosaicos problemas de bilheterias que afetam seus lançamentos milionários.

 

Mas a questão acaba voltando para o foco de origem que é a Internet- Como os grandes lançamentos de Hollywood aportam sempre em sites de compartilhamento como o Youtube, por exemplo, os filmes acabam desfrutados no recesso do aconchego doméstico, com requintes como home theaters e similares, isso quando a pirataria não se insinua assentada nas facilidades tecnológicas.

 

Para o artista musical, como já se disse, a saída são os shows como fonte de renda, já que a venda de discos e a arrecadação de direitos autorais está crescentemente comprometida pelos acessos e aquisições virtuais gratuitos, agora, o que será dos escritores e produtores cinematográficos em face de todo esse impasse. Uma nova configuração das regras do jogo capitalista dentro dos critérios cada vez mais renovados de exposição virtual, poderá ensejar um novo renascimento cultural nos moldes do século XV, e uma natural releitura e reavaliação dos critérios do próprio regime capitalista em si, como determinista econômico de tendências e reciclagens civilizatórias.

 

 

Por Luiz Antônio Alencar, jornalista e eterno Big Brasa.

 





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