Hunter Thompson - um jornalista
muito louco
Você sabe o que é jornalismo gonzo? Trata-se de um estilo jornalístico que mistura ficção com não ficção, o jornalista com a situação e o sujeito, criando assim um sabor de peça literária em uma reportagem, por exemplo, até mesmo por conta do foco do assunto ser mais disperso e abrangente.
O criador desse estilo chama-se Hunter Stockton Thompson, um jornalista e escritor norte-americano nascido em 1937, que se tornou notório por seu estilo extravagante, e por adotar um método de trabalho passível de demissão sumária de qualquer empresa com um perfil mínimo de seriedade.
Para se ter uma idéia, em 1965, Thompson morava em San Francisco, na Califórnia, EUA, e lá conheceu uma gangue de motoqueiros barra pesada chamada Hell’s Angels (Anjos do Inferno). Como o editor da publicação esquerdista The Nation pediu ao jornalista para escrever uma matéria sobre o fenômeno das gangues de motociclista fora-da-lei, Thompson acabou ficando um ano inteiro convivendo com os membros dos Hell’s Angels montando todo um campo de abordagem sobre o assunto sob todos os aspectos possíveis, quer seja sociológico, antropológico, psicológico e até político, incluindo inclusive as constantes encrencas do grupo com a polícia, e seu envolvimento com a contracultura norte-americano e até a maneira como a grande mídia dos EUA tratava do assunto.
Toda essa pesquisa de campo espontânea rendeu um livro sobre os Hell’s Angels que passou a ser considerado uma peça importante do New Journalism, consagrando Hunter S. Thompson como uma figura carimbada de um novo estilo literário e jornalístico que criou escola.
Thompson entrou de cabeça na convivência com a comunidade hippie e a contracultura de San Francisco na segunda metade da década de 60, inclusive utilizando drogas presentes no cardápio hedonista de tais grupos como o LSD, a mescalina e outras guloseimas do mesmo porte. Além de fumante inveterado, estando sempre com uma piteira na boca, Thompson bebia além da conta, postura que foi muito determinante na própria configuração do Jornalismo Gonzo como um estilo definido em sua natureza.
Para se ter uma idéia da metodologia de trabalho muito louca de Hunter S. Thompson, ao ser designado para fazer a cobertura da célebre corrida de cavalos na sua cidade natal, Louisville, no estado norte-americano do Kentucky, o jornalista caiu numa verdadeira maratona etílica com o artista Ralph Steadman, uma bebedeira que durou quatro dias.
Por conta dessa façanha, Thompson acabou ficando sem saber quem tinha ganho a corrida, mas em contrapartida escreveu uma matéria criticando de maneira contundente a sociedade do Sul dos Estados Unidos, que veio a ser publicada na revista Scanlan’s Monthly em 1970, com o impactante título de “O Kentucky Derby é Decadente e Depravado”.
Em 1971, Thompson publica na célebre revista norte-americana Rolling Stone uma série de artigos que viriam compor o seu livro mais célebre: “Medo e Delírio em Las Vegas: Uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano. Nele Thompson traça um estilo narrativo na primeira pessoa de seu alter ego Raoul Duke, que vai fazer uma cobertura jornalística em Las Vegas, a capital americana, e antes de viajar em companhia do advogado samoano Dr. Gonzo, enche o porta malas de seu conversível vermelho com uma bagagem nada ortodoxa contendo notórios psicoativos como maconha, cocaína, LSD, mescalina, éter e outras similares do gênero. O resultado final acabou sendo o retrato de uma busca esotérica do velho Sonho Americano, o que fez com que o livro com ilustração de Ralph Steadman, se tornasse o maior êxito literário de Hunter S. Thompson.
Depois de tanta travessura, Thompson acabou preso em 1991, em seu sítio por porte de drogas, e inocentado por conta da alegação de que a polícia havia invadido ilegalmente a sua residência. Nesse mesmo local, ele vivia recluso escrevendo para jornais e revistas sobre assuntos variados como política, futebol americano, comportamento violento e drogas sempre batendo de frente com o tradicional estilo de vida norte-americano. Em 2003, Thompson lançou o livro “ Reino do Medo,”no qual critica de maneira ácida o governo de George W. Bush.
Após deixar um bilhete declarando sofrer forte depressão e dores por conta de uma cirurgia na região da bacia, Hunter S. Thompson se matou com um tiro de espingarda na cabeça no dia 20 de fevereiro de 2005. Seu funeral seguiu o mesmo rumo anticonvencional que Thompson adotara em vida. Após a cremação de seu corpo, suas cinzas foram colocadas em um foguete e lançadas no espaço, numa cerimônia patrocinada pelo ator Johnny Depp, que além de ser amigo de Hunter S. Thompson, interpretou o seu personagem Raoul Duke na versão cinematográfica de “Medo e Delírio em, Las Vegas. Uma despedida insólita e significativa, bem à altura daquilo que fora em vida o jornalista e escritor Hunter S. Thompson.
Luiz Antônio Alencar - músico, jornalista, eterno Big Brasa