Sabença de mendigo

 

 

 

Quão sábia é a frase ("Deus te livre dos maus vizinhos!") dita por alguns pedintes, quando recebem alguns trocados ou alguns bocados de alimentos, para mitigar seu infortúnio, inda que temporariamente; por não haverem alcançado melhor sorte, neste mundo assaz diferençado pela raça humana; na verdade, tão desumana.

 

“Esta nobre sentença fora proferida, pela primeira vez (só, imaginação deste articulista), numa época remota, por algum abastado indivíduo que perdera toda sua fortuna, em conseqüência de maldosas invejas da vizinhança; e, então, passara a vagar pelas ruas dos bairros de sua cidade, como pobre mendigo, à espera de mãos caridosas.”

 

Quem nunca passou por circunstâncias semelhantes? Já, perdendo algumas propriedades móveis ou imóveis; ou, ainda, atravessando difíceis situações financeiras? E, quando algo parecido possa, assim, haver acontecido, alguém, de repente, afirmou que tudo provinha de inveja de vizinhos; ou seja, "olho gordo" ou “mau olhado” de pessoas invejosas.

 

Superstições ou não... Está aí o mundo a manifestar, cotidianamente, reveses inesperados e inexplicáveis, aos lares de pacatas famílias, sem distinção social ou financeira.

 

É bem admissível que nos tenham ensinado que, ao lado esquerdo da entrada de nossas residências, plantemos aquele pé de pinhão. Diz-se que afasta "mau olhado" da vizinhança. Mas, inadmissível, não nos ter procurado instruir, sobre como pressentir a presença de um ente de natureza invejosa; e, conseqüentemente, a qual tratamento devamos inserir este tipo de criaturas maldizentes.

 

Se não possuímos o dom divino da predição, para saber se nos harmonizamos, ou não, com alguém, haveremos que nos contentar com artifícios que residem em nossa percepção, para podermos, em médio prazo, conhecer alguém, na sua intimidade, através de suas manifestadas atitudes. No primeiro caso, asseguramos: - Não fui com a cara daquela pessoa. No outro, exclamamos: - Acho que não vou com a cara daquela criatura! Quanto àquela outra, recém conhecida, que não esteja compreendida num destes casos, haja tranqüilidade. Esta é de boa índole! Diz-se que as auréolas se ajustaram.

 

Não devemos excluir alguém, abruptamente, de um relacionamento humano. Devemos, sim, o devido respeito a este alguém, se é que queiramos ser, igualmente, correspondidos. Todavia, se mantivermos este indesejável relacionamento, à distância, com bastante sutileza; instintivamente, este alguém se afastará, sem maiores ou menores transtornos.

 

Assim dito, pelo não dito, podemos enunciar algumas atitudes de vizinhos que conspiram contra a felicidade de outrem. Se não, vejamos: - Compram casas novas, sob hipotecas; quando executamos melhorias nas nossas. Adquirem carros novos (0 Km), sob alienações; quando trocamos nossos carros velhos por outros, seminovos. Põem os filhos em colégios, dos mais elevados preços de anuidades; quando colocamos os nossos em educandários mais dignificantes. Ademais, uma infinidade de cousas outras, demais para contexto deste próprio texto!

 

Saudemo-nos, uns aos outros, oh, companheiros e pacatos leitores, com a célebre frase de caminhão:

- "Amigo, a tua inveja é a minha felicidade”

 

 

Pedro Mallmann Filho (Camilinho)

               





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