“Rabos de Burro”

A versão cearense da juventude transviada

 

 

Era uma noite tranqüila de quermesse da paróquia do bairro de Otávio Bonfim, Fortaleza, década de 50. As famílias e os jovens se divertiam tranqüilos, a amplificadora do bairro, a famosa irradiadora, enviava suas mensagens musicais, quando de repente chegou um grupo de rapazes de boa aparência, sentou em uma mesa e pediu cerveja.

 

As pessoas ficaram apreensivas, pois sentiram que se tratava de um grupo de “rabos de burro”, que era como se denominava os jovens rebeldes e arruaceiros da época. Frei Teodoro, um piedoso frade alemão organizador da festa, se dirigiu com brandura aos rapazes para pedir que eles se portassem com decência, pois aquela era uma festa familiar e religiosa, portanto merecedora de respeito.

 

Foi ouvido em silêncio, mas a paz do ambiente durou pouco. Ao começar a apresentação de um cantor da comunidade, os tais rabos de burro começaram a vaiar, jogar mesas, cadeiras e garrafas de cerveja para cima, em suma, a fazer a maior arruaça. Depois que aprontaram do jeito que quiseram, foram embora tranquilamente.

 

Esta cena está descrita no livro "Anos Dourados em Otávio Bonfim," de Vicente Moraes, que retrata memórias do bairro na década de 50/60, e inclui o fenômeno da juventude transviada já naquela época.

 

REBELDIA SEM CAUSA

 

Em Fortaleza, se tornou comum a ocorrência de confusões provocadas por jovens rebeldes geralmente de classe média e até média alta, que chegavam com seus carrões em determinados eventos só para fazer confusão, mexer com as meninas, e tomar qualquer tipo de atitude desrespeitosa de modo a chocar todo mundo, de preferência as famílias, e é claro, afrontar as autoridades.

 

Por falar nisso, os confrontos entre os rabos de burro e a polícia eram constantes, geralmente com poucas conseqüências punitivas para os infratores que via de regra eram filhinhos de papai, que mal chegavam à delegacia, eram liberados por interferência dos pais influentes.

 

A aparência do jovem transviado, como se dizia na época se aproximava do formato Elvis Presley - cabelo com topete e fixador, no caso a velha brilhantina, óculos escuros, de preferência rayban, roupas da moda, e para completar se ele usasse uma lambreta, que era um tipo de moto da época, pronto - estava configurado um rabo de burro.

 

INFLUÊNCIA DO CINEMA

 

O fenômeno era mundial, e era discutido por especialistas de todos os gêneros como uma rebeldia juvenil do pós-guerra, já que afetava jovens também dos EUA e da Europa, que partiam para a formação de gangues de delinqüentes como medida de protesto, ou então como puro e simples pretexto para fazer muita esculhambação e da grossa.

 

Os filmes “Juventude Transviada”, (Rebel Without a Cause - Rebelde sem Causa) de 1955, estrelado por James Dean, Nathalie Wood e Sal Mineo, e "O Selvagem da Motocicleta" (The Wild One - O Selvagem) de 1953, com Marlon Brando no papel principal, serviram de padrão e referência para este tipo de comportamento irreverente por parte da juventude daqueles tempos inocentes, mas nem tanto.

 

Outro filme que causou comoção também foi “Sementes de Violência” (Blackboard Jungle-Selva do Quadro Negro) cujo tema de abertura era o clássico roqueiro (Rock Around the Clock) com Bill Haley, que quando irrompia nos cinemas todos os jovens começavam a dançar sobre as cadeiras, havendo até quebra-quebra. O rock era realmente e sempre foi a trilha sonora de todo um movimento de rebeldia juvenil.

 

 O ROCK CHEGA JUNTO

 

Os rabos de burro, que foram a versão cearense do delinqüente padrão que virou moda, não se contentavam em chocar as pessoas, partindo também para brigas com as turmas de outros bairros.

 

Havia cacetes feios, reforçados pela própria dificuldade operacional da polícia nos anos 50 e início dos 60, além da ausência de serviços telefônicos mais disponíveis, e até do estado precários das ruas de calçamento e de penoso acesso para viaturas nem sempre em bom estado, competindo com os possantes e velozes carros da moda, pilotados com maestria e imprudência pelos destemidos rabos de burro.

 

Quanto ao rock, bem, no final dos anos 50, o radialista Jurandir Mitoso fazia enorme sucesso na cidade com o programa "Clube dos Brotos" na Rádio dragão do Mar de Fortaleza, AM, jogando no ar os grandes sucessos do rock em primeira mão, e até reunindo casais para dançar no estúdio.

 

Logo outras emissoras seguiram o exemplo, com o rock de primeira fase abrindo caminho para outras manifestações roqueiras.

 

Quanto aos rabos de burro, estes foram saindo da moda e ficando ultrapassados ao longo dos anos 60, quando outras referências foram surgindo. Hoje em dia muitos deles que sobreviveram, são respeitáveis vovôs, se debruçando sobre seu álbum de recordações de muita loucura e rebeldia.

 

Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico e jornalista.





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