Fortaleza já foi uma cidade de clubes e cinemas

Fortaleza de quatro décadas atrás era uma cidade de clubes e cinemas, duas instituições em franca extinção, já que os tempos mudaram.
Cada bairro tinha lá o seu cineminha, por mais modesto que fosse, e o seu clubezinho, na mesma condição. Era o ponto de encontro e os locais de diversão e interação da comunidade.
Os costumes da época direcionavam realmente nesse sentido, de modo que todo namoro começava no clube, e esticava no encontro no cinema, para depois chegar ao terceiro ponto, quer era justamente a visita à casa da moça para conhecer os pais, e namorar de cadeirinha na varanda ou na sala sob os olhares vigilantes de quem estivesse por perto.
Se pegava na mão um do outro discretamente, e um beijinho no portão na hora da saída as dez da noite no máximo, era o que se esperava do expediente amoroso de sete às dez horas que era o permitido naqueles tempos castos. Sexo só mesmo depois do casamento, ou então com prostitutas e mulheres de programa, daí os cabarés servirem de complemento ao trio de polarização comportamental - clube, cinema e... Cabaré.
LOCAL DE PAQUERA
Fortaleza nos anos 60 tinha como já mencionamos, clube em tudo que era bairro, já que a diversão da moçada era dançar e participar das festas por eles promovidas, onde a paquera corria solta.
Era uma época inocente, sem violência e drogas, o máximo que a galera consumia, era umas dosezinhas de cuba-libre, rum com coca-cola, para criar coragem, vencer a timidez e tirar a moça para dançar, para em seguida cochichar-lhe uma cantadazinha no ouvido, se houvesse espaço para isso, é claro.
As bandas de jovem guarda da época encontravam nos clubes locais um grande e proveitoso mercado, já que as festas de final de semana eram obrigatórias na programação dos mesmos. Vale lembrar que o sábado ainda era o grande dia de sair para farrear, pois a sexta-feira ainda não ocupava o mesmo espaço no roteiro de lazer que ocupa hoje.
NO ESCURINHO DO CINEMA
Quanto aos cinemas, eles ainda eram uma das grandes opções já que a Fortaleza na década de 60, dispunha apenas de um canal de televisão com transmissão noturna em preto e branco, entre no máximo três da tarde e meia noite- a TV Ceará Canal 2.
Como possuir um aparelho de TV ainda era um luxo para poucos, o jeito era encarar um cineminha, de preferência com a namorada, para que se rolasse um beijo e uma carícia mais ousada com a cumplicidade do escurinho e do barulho do som bastante alto, gerado pelo que se passava na telona.
O rádio era ainda o grande veículo, já que até novelas ele ainda transmitia com a devida audiência das donas de casa e mocinhas sonhadoras. Se sonhava em preto e branco e nas ondas do rádio AM.
O rádio era ainda o grande veículo, já que até novelas ele ainda transmitia com a devida audiência das donas de casa e mocinhas sonhadoras. Se sonhava em preto e branco e nas ondas do rádio AM.
Se podia inclusive fazer uma serenata, já que as noites eram o domínio exclusivo dos boêmios, as casas tinham muro baixo, e portões fáceis de abrir, pois os riscos eram ausentes, de modo que farrear pela cidade noite a dentro era um exercício de liberdade sem medo de ser feliz, e de outras coisas que não vale a pena mencionar.
De repente, com a liberação dos costumes, os clubes foram sendo relegados a um passado bem próximo, dando lugar as boates e danceterias, mais liberadas, mais permissivas e bem menos românticas, pelo menos nos termos inocentes de tempos atrás. Muitos fecharam as suas portas, e os que restam são raramente freqüentados, só em algumas promoções e em ocasiões especiais
Os cinemas passaram pelo mesmo processo, inclusive aqueles mais simples presentes nos subúrbios, substituídos pelas onipresentes locadoras, que já começam a ceder lugar aos downloads das internets da vida.
O rádio seguiu o mesmo caminho, destronado das salas de visita pela televisão, mas ainda se readaptando aos novos tempos.
Hoje em dia, os clubes e os cinemas, são freqüentados com muitas reservas e este últimos apenas nos shoppings. Tornaram-se honrosas recordações de um passado mais tranqüilo e ainda muito presente na memória de quem o viveu.
Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico e jornalista.