Fortaleza – a história se perde
em pontos turísticos abandonados

 

 

 

Na Avenida Beira-Mar a Estátua de Iracema está em processo de deterioração. Faltam partes correspondentes ao corpo que já nem existem, como uma das mãos da índia.  Na Praia de Iracema, a nostalgia dá lugar ao abandono. Em Messejana, uma outra Iracema é desconhecida por turistas. O mês de julho se aproxima e, com ele, as férias escolares e mais um período de alta estação. Aos visitantes são apresentados os pontos turísticos que ajudam a contar a história da cidade, centros de compras ou apenas pontos de lazer. Mas alguns desses espaços estão em condições de descaso e abandono. Muitos esquecidos não pelo poder público, mas pelo próprio fortalezense.

 

Na Beira-Mar, cartão-postal dos mais tradicionais de Fortaleza, a movimentação é intensa principalmente à noite. Mas basta uma observação mais apurada para perceber que, nos canteiros, a falta de manutenção fez a vegetação crescer e se estender ao calçadão.

 

Não é essa a situação pior. A Estátua de Iracema — acompanhada de Martins Soares Moreno, do bebê Moacir e do fiel cão do português — está em processo de deterioração. A escadaria degradada é o mínimo. Há partes correspondentes ao corpo que já nem existem, como um ombro do herói europeu, uma das mãos da índia e toda a extensão do corpo da criança. É possível, assim, visualizar ferragens e todo o desgaste do concreto.

 

À frente do monumento, uma placa informa que a última restauração foi em 2006, nas comemorações de 280 anos de aniversário de Fortaleza. A estátua, inaugurada em 1965, é inspirada na obra Iracema, de José de Alencar, e elaborada pelo artista plástico pernambucano Corbiniano Lins.

 

EM MESSEJANA

 

Em Messejana, uma outra Iracema — mais recente, de 2004 — também está em situação precária. Enquanto a Beira-Mar ainda é visitada por turistas, a de Messejana suscita bem menos olhares. Alguns moradores da região param para observar, se estiverem no entorno da lagoa, e há carros que param para os passageiros conhecerem o monumento. Mas para lá não vão ônibus de turistas. “Sempre tem gente tirando foto, mas não turista. Justamente por ser uma coisa nossa, merecia um tratamento melhor, uma reforma, uma pintura, a fonte funcionando de novo”, reclama o autônomo Martins Ferreira da Silva, 51 anos.

 

Praia de incoerências

 

A nostalgia que envolvia ruas e ares da Praia de Iracema perde cada vez mais espaço para o abandono. A movimentação só persiste na Ponte dos Ingleses, no Largo do Mincharia, no Pirata e em um ou outro bar. Mas com ressalvas, devido à insegurança em determinados dias, locais e horários. A Ponte dos Ingleses, por exemplo, é visitada rapidamente por turistas. Os ônibus param somente para o tempo de o visitante fazer umas poucas fotografias. Já o Pirata, que resistiu ao abandono com o tradicional forró às segundas, presencia uma situação atípica, pois fica lotado durante todo o ano.

 

Na opinião do proprietário do espaço e integrante do Fórum da Praia de Iracema, o português Júlio Trindade, as expectativas agora são boas, devido à parceria entre Prefeitura e Estado na execução de projetos como o Acquário. “O importante é que as obras andem”.

 

Hoje elas estão paradas. Em frente ao Largo do Mincharia, outro ponto de resistência alavancado por moradores da cidade e antigos freqüentadores do bairro, uma pá-mecânica está há dias no local sem qualquer utilidade. O equipamento seria usado para as obras municipais de recuperação do calçadão e do Estoril. O calçadão, que deveria ter sido entregue em agosto de 2008, continua com piso e bancos quebrados.

 

Na opinião do empresário Carlos Aragão, a situação em que a maior parte da praia se encontra deve-se ao “descaso do poder público”. Contudo, ele espera que os projetos agora saiam do papel e deixem o bairro melhor até o fim de 2012, quando expira o prazo para execução dos projetos de infra-estrutura da cidade para receber a Copa de 2014.

 

O escritor José de Alencar decantou em prosa e versos a beleza e a exuberância da Lagoa de Messejana em seus romances. A índia Iracema percorria em passos rápidos distâncias longas para se banhar e se deliciar nas águas limpas e saudáveis da lagoa, preservada e acolhedora.

 

Muitos dos habitantes de Messejana, não só se banharam, como aprenderam a nadar em seus domínios. Quantos não se beneficiaram da pesca artesanal para sustento de suas famílias. Isto foi possível durante muito tempo. E hoje, como está a nossa lagoa?

 

Escritores atuais tentam, através de seus versos, uma aventura de reviver e renovar as esperanças de tempos tão saudáveis e longínquos. Pura empolgação na descrição paradisíaca deste patrimônio.

 

Uma estátua de Iracema foi colocada em suas águas, coisa para turista ver, passando a ser referência, como ponto de visitação obrigatório para os que nos visitam. No início só festa, muitas fotos, muita luz e um chafariz que simulava um permanente banho de cuia, refrescando a bela estátua. A modelo para servir de referencia para a construção da referida estátua foi escolhida através de um concurso, que pareceu muito sério, mas gerou polêmicas e críticas.

 

Porém o que temos hoje é o exemplo vivo do descaso do poder público, que abandonou por completo o cuidado para com o monumento, que na inauguração nos fez orgulhosos e que se tornou uma vergonha atualmente. Ninguém toma conhecimento ou dá explicações pelo abandono.

 

Por onde andará o nosso Gerente Regional? De quem se trata? Qual o forasteiro que ocupa desta vez o posto de comando administrativo de nosso bairro? Será que alguma vez pensou sair de seu gabinete com ar-condicionado e caminhar a pé pelas calçadas desfiguradas, esburacadas, ocupadas algumas por ambulantes? Ora, as pessoas que se danem e que andem pelo asfalto, também esburacado, e com esgotos a céu aberto permanentes.

 

A estátua foi cena digna de ser vista, apreciada. A população se deliciava com o banho da índia, quanta beleza emoldurada pela iluminação moderna, que refletida nas águas, dava uma sensação de orgulho ímpar, contemplativo. Pouco durou. Como estrutura permanece a estátua cega, sem brilho, sem banho, sem iluminação, desprezada, mergulhada nas águas sujas, fétidas e poluídas da atual Lagoa. O que foi decantado está esquecido e mal tratado. A urbanização realizada pouco durou. O vandalismo se fez presente por falta da vigilância municipal. Os esgotos se mantêm ativos, drenando dejetos, infectando seu leito num total abandono de quem deve fiscalizar e punir infratores. A beleza deu lugar ao descaso. Nada funciona.





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