O linguajar cearense

 

 

 

 

Todo poeta de fato

É grande observador

Seja da rua ou do mato

Seja leigo ou professor

Faz verdadeira pesquisa

Vasto estudo realiza

Buscando essência e teor

 

Por esse nato talento

Na hora de versejar

Busca o tema e o momento

Visa o leitor agradar

Não sente conformação

Se não passa a emoção

Que dentro do peito está

 

Neste cordel-dicionário

Eu pretendo registrar

O rico vocabulário

Da criação popular

No Ceará garimpei

Juntei tudo, compilei

Ao leitor quero ofertar

 

Se alguém é desligado

É chamado de bocó

Broco, lerdo e abestado

Azuado ou brocoió

Arigó e Zé Mané

Sonso, atruado, bilé

Pomba lesa e zuruó

 

Artigo novo é zerado

Armadilha é arapuca

O doido é abirobado

Invencionice é infuca

O matuto é mucureba

Qualquer ferida é pereba

Mosquito grande é mutuca

 

Quem muito agarra, abufela

Briga pequena é arenga

Enganação, esparrela

Toda prostituta é quenga

Rapapé é confusão

De repente é supetão

Insistência é lenga-lenga

 

Qualquer tramóia é motim

Solteira idosa é titia

Mosquitinho é mucuim

Recipiente é vasia

Meia garrafa é meiota

O exibido é fiota

Travessura é istripulia

 

Bebeu muito é deodato

Brisa leve é cruviana

O sujeito otário é pato

Cigarro curto é bagana

Fugir é capar o gato

O engraçado é gaiato

Quem vai preso tá em cana

 

Ter mesmo nome é xarapa

Muito junto é encangado

Água com açúcar é garapa

Cor vermelha é encarnado

Muita coisa dá mêimundo

Sendo Mundim é Raimundo

Valentão é arrochado

 

A rede velha é fianga

Com raiva é apurrinhado

Careta feia é munganga

Baitinga é o mesmo viado

O bom é só o pitéu

Bajulador, xeleléu

Sem jeito é malamanhado

 

Bater fofo é não cumprir

Etecetera é escambau

Sujar muito é encardir

Quem acusa, cai de pau

Confusão é funaré

Carta coringa é melé

Atacar é só de mau

 

Qualquer botão é biloto

Mulher difícil é banqueira

Pequenino é pirritoto

Estilingue é baladeira

Qualquer coisa é birimbelo

Descorado é amarelo

Sem requinte é labrocheira

 

Um perigo é boca quente

Porco novo é bacurim

Atrevido é saliente

Quem não presta é corja ruim

Dedo duro é cabuêta

A perna torta é zambêta

Coisinha pouca é tiquim

 

Parteira era cachimbeira

Dar mergulho é tibungar

Tem cucuruto, moleira

Olhar demais é cubar

Tem ainda ternontonte

Que vem antes do antonte

Ver de soslaio é brechar

 

Quem briga bota boneco

Sem valor é fulerage

Copo pequeno é caneco

Estrada boa é rodage

O tristonho é capiongo

Galo ou inchaço é mondrongo

E a ralé é catrevage

 

O velho ovo estrelado

É o bife do oião

Nervoso é atubibado

Repreender é carão

O zarôlho é caraôi

Enviezado, zanôi

Inquieto é frivião

 

A perna fina é cambito

Dar o fora é azular

Muito magrelo é sibito

Pisar manco é caxingar

Rede pequena é tipóia

Tudo bem é tudo jóia

Fazer troça é caçoar

 

A expressão 'dá relato'

Que atinge mais de légua

'Tá ca peste!' 'Só no Crato!'

'Tá lascado!' e 'Aarre égua!'

'Corra dentro!' ' Qué cirmá? '

'É de rosca? 'Éé de lascar! '

'Vôte!' 'Ôxente! 'Isso é paid'égua!'

 

Se é muito longe, arrenego

Que Deus do céu nos acuda

É pra lá da caixa prego

Lá no calcanhar do juda

Nas bimboca ou cafundó

Nas brenha ou caixa bozó

Onde o vento a rota muda

 

Se é cheia de babilaque

É ispilicute ou dondoca

Ligeiro é 'que nem um traque'

Agachado é tá de coca

Sem rumo é desembestado

O faminto é esguerado

Bolha na pele é papoca

 

Chamuscado é sapecado

Nuca, cangote é cachaço

Meio tonto é calibrado

A coluna é espinhaço

Se está adoentado

Tá como diz o ditado:

'da pucumã pro bagaço'

 

Cearense tem mania

Chama todo mundo Zé

Zé da onça, Zé de tia

Zé ôin ou Zé Mané

Zé tatá ou Zé de Dida

Achando pouco apelida

Um bocado de Zezé

 

Fazer goga é gaiofar

O que é longo é cumprissaio

Provocar é impinjar

Toda pilôra é desmaio

Salto ligeiro é pinote

Bando, turma é um magote

Cesto sem alça é balaio

 

A comidinha caseira

Tem fama no Ceará

Tipicamente brasileira

Faz o caboco babar

No bar do Mané bofão

Pau do guarda, panelão

O cardápio vou citar:

 

Sarrabulho, panelada

Mucunzá e chambari

Tripa de porco, buchada

Baião de dois com piqui

Tem pão de milho e pirão

Carne de sol com feijão

Tijolo de buriti

 

Quem é ruivo é fogoió

O tristonho é distrenado

Tornozelo é mocotó

Cheio de grana, estribado

Jarra de barro é quartinha

O banheiro é a casinha

Sem saída, 'tá pebado'

 

A bebida e o seu rol

No Ceará todo habita

A fubuia e o merol

A truaca e a birita

Amansa sogra ou quentinha

Engasga gato, caninha

A meropéia e a mardita

 

O picolé no saquinho

Aqui se chama dindin

Se é o dedo menorzinho

É chamado de mindin

Riso sonoro é gaitada

Confusão é presepada

Atrevido é saidin

 

Papo longo e sem valor

É 'miolo de pote'

Muito esperto é vívido

Adolescente é frangote

Soldado raso é samango

A lagartixa é calango

O tabefe é cocorote

 

A lista é quase sem fim

Não cabe num só cordel

Tem alpercata, alfinim

Enrabichada e berel

Chué, baé, avexado

Bãe de cúia, ôi bribado

Quebra-queixo e carritel

 

Tem visage, sarará

Tem bruguelo e inxirido

Rabiçaca e aluá

Ispritado e zói cumprido

Bunda canastra, lundu

Dona encrenca, sabacu

Bonequeiro e maluvido

 

O cearense é assim:

Dá cotoco à nostalgia

A tristeza leva fim

Na cacunda dá euforia

dá de arrudei na carência

Enrola a sobrevivência

e embirra na alegria

 

 

Cordel: O linguajar cearense

Autora: Josenir A. de Lacerda

Cadeira nº 3 da Academia dos Cordelistas Do Crato

 

Enviado por S. Tavares – Colaborador do Portal Messejana 

 

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