A Fortaleza que já não existe

 

 



A memória também pode ser atingida por atos não necessariamente violentos. O descaso com o patrimônio arquitetônico, histórico e cultural deixa órfãs as gerações que não podem desfrutar da beleza e harmonia que se planejou no passado para a composição da cidade. Em Fortaleza há essa mentalidade que denomino ´previnciana´, parodiando o vocábulo provinciano, onde a sílaba ´pro´ denotaria o que se pode ter de positivo, de futurístico, de avançado. Nas nações desenvolvidas o cuidado com o acervo do passado é lei e a preservação ordem.
Aqui, por ignorância, descaso, corrupção, ou qualquer outro substantivo que reduz-se a mesquinharia, destrói-se em nome do ´progresso´. Uma cidade sem história é terra de um povo sem memória, passado; enfim, cultura. Muitos lugares foram destruídos para ali ficar apenas um terreno vazio. Não é assim que vamos legar a nossos descendentes o testemunho do que fizemos. Preservar é preciso e precioso.
Nas matérias que mostram edifícios e praças históricas de Fortaleza, falamos de lugares que ainda podem ser visitados pela população. Na véspera do dia que rememora o aniversário de um lustro de uma ação terrorista destruidora e enlutante, discorremos sobre lugares do passado que já não podem ser encontrados. Este testemunho de memória destruída quer convidar a todos a preocupar-se com a fragilidade da obra humana e como é necessário manter o patrimônio cultural nas suas mais variadas manifestações, a fim de que o enriquecimento intelectual prepare os homens para o futuro. Ele não é nosso, mas as gerações vindouras têm o direito de conhecer como fomos, para que assim possam ser melhores. Afirmou que Fortaleza era linda, parecia que havia acabado de ser construída.
Ele não estava enganado, a verdadeira urbanização da cidade só se efetiva no início do século XIX. Depois veio Henry Koster, que não dispôs a fleuma inglesa ao afirmar não saber porque haviam escolhido um areial para edificar a sede de uma província. Passam-se os anos e o areial vai tomando a formatação de tabuleiro que foi dos primeiros avanços desta terra gloriosa.

No dia 10 de julho de 1891, o comerciante Pedro Ribeiro Filho, obtém licença da Câmara Municipal para a construção de dois cafés na, hoje, Praça do Ferreira. Seriam o Café Elegante e o Café do Comércio, que ficava na esquina Noroeste da praça, onde os clientes chegavam a pé ou em bondes puxados por burros. Abelardo Montenegro em seu livro A Praça do Ferreira, conta que no centro daquele espaço havia enorme cacimbão, com chafariz ao lado. As noites eram escuras como breu. A turma do Grupo Taliense de Amadores tomava banho junto ao cacimbão inteiramente despida.
Na esquina das atuais ruas Major Facundo e Liberato Barroso havia a casa de João Neri. Nos altos, moravam Carlos Câmara e outros rapazes. Depois das 22 horas, eles saíam completamente nus e iam tomar banho no cacimbão.´
A Praça do Ferreira sempre funcionou como o ponto de convergência da cidade no passado. Num dos cafés, o Java, nasceu, em 1892, o famoso e original grêmio literário conhecido como Padaria Espiritual. O Café Java foi explorado por Manuel Ferreira dos Santos; o do Comércio por José Brasil de Matos; o Iracema por Ludgero Garcia, e o Elegante por Arnaud Cavalcante Rocha. Em 1902, o intendente Guilherme Rocha cercou a praça com grades de ferro, calçou-a de cimento róseo e ambientou o Jardim 7 de Setembro, ladeado de bancos. Tudo isto passou.
Em 1949 o jovem empresário Edson Queiroz participou de concorrência pública para a construção e exploração de um ponto comercial e de lazer na praça. Ele ganhou o direito de construir o que viria ser chamado de Abrigo Central, que funcionou por 13 anos.
O sobrado da Intendência Municipal foi eregido em 1825, sendo o primeiro de tijolo e telha da cidade. Foi adquirido pela municipalidade em 1831, onde funcionou a Câmara, a Casa de Correção e a Sala do Júri. O sobrado foi demolido em 1941.
Depois de vencida a barreira natural do riacho Pajeú, a cidade começou a crescer para o lado Leste. A estrada do Outeiro, hoje Avenida Santos Dumont, dava acesso a sítios e chácaras. Ali o comerciante Plácido de Carvalho construiu um palácio dos moldes dos italianos, para cativar sua mulher, Pierina Giovanni. As festas no palácio de Pierina eram famosas e as pessoas com crianças tinham acesso aos jardins. Na década de 1930, foi ocupado pelo Serviço de Malária. Na década de 1970 foi demolido. Como a demolição foi artesanal, a cada parede que derrubavam os fortalezenses vislumbravam os ricos desenhos que adornavam as paredes do prédio. O local ficou abandonado até a construção da Central Artesanal Luíza Távora.

O casario assobradado que cincundava a, hoje, Praça dos Leões, também era de imponente beleza. Ali era conhecido por Largo do Palácio, por situar-se em frente ao Palácio da Luz, hoje sede da Academia Cearense de Letras, então sede do governo provincial. Em 1847 ganhou a muralha de contenção e a escadaria para a Rua de Baixo. Em 1887 foi oficialmente denominada Praça General Tibúrcio e com a reforma acontecida entre 1913-14, recebeu estátuas de leões e ficou popularmente conhecdida como a praça deles.

Na Praça do Ferreira também havia os cinemas Majestic, Moderno e Politeama, todos com campainha avisando o início das sessões, mas essas são outras histórias. O importante é a praça resiste, mas o que foi destruído jamais será recuperado, que sirva de exemplo para os sítios hoje ameaçados.




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