José Alcides Pinto - um poeta cearense
que faz a diferença
José Alcides Pinto nasceu em 10 de setembro de 1923, na localidade de São Francisco do Estreito, distrito Santana do Acaraú, na região norte do Ceará. Partiu para o Rio de Janeiro em 1945, onde se formou em jornalismo e biblioteconomia, tendo ocupado cargo no então Ministério da Educação e Cultura. Foi também professor da Universidade Federal do Ceará, acontece que em determinado momento de sua vida, abandonou os empregos públicos para se dedicar totalmente á literatura.
Fez também o curso de especialização em Pesquisas Bibliográficas em Tecnologia no Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) e o Curso de História das Américas pela Universidade do Brasil. Foi também jornalista profissional, tendo ingressado na imprensa ainda muito jovem, tendo colaborado nos suplementos literários do Diário Carioca, O Jornal, Diário de Notícias, Correio da Manhã, Revista Leitura e em toda a imprensa de Fortaleza, tendo pertencido á Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, e do Sindicato dos Jornalistas Liberais do mesmo Estado.
Foi também romancista, crítico literário, teatrólogo e poeta, tendo inclusive livros publicados nesses gêneros, tendo participado inclusive de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Foi o principal responsável pela introdução do Movimento Concretista no Ceará e em 1972, foi incluído na Enciclopédia Delta Larousse. Foi homenageado com o Prêmio José de Alencar da Universidade Federal do Ceará referente a obras no gênero Romance e Conto em 1969 e com o Prêmio Categoria Espacial para Conto em 1970, conferido pela Prefeitura Municipal de Fortaleza.
Celebrizou-se como escritor de obras contundentes como “O Relicário Pornô”,uma coleção insólita de poemas e aforismos, e uma das características de Alcides Pinto, segundo ele próprio era viver na linha divisória entre o sagrado e o profano, conforme ele mesmo admitia ao dizer que em uma entrevista que” não existe distância entre essas duas dimensões, elas se bifurcam.”
Esse confronto e entrelaçamento entre o místico e a banalidade existencial, conferiu-lhe o título de maldito, o que o fez declarar que “Acho bom ser ligado aos malditos. São todos abençoados.” Sobre a morte ele foi enfático ao dizer que” Minha escrita é um ato de fugir dela, mesmo que isso não seja possível.
José Alcides Pinto faleceu no dia 02 de junho de 2008, em Fortaleza, Ceará, em decorrência de um atropelamento que o vitimou no mês anterior, e o deixou internado durante vários dias com traumatismos múltiplos. O poeta tinha 85 anos de idade.
OBRAS INÉDITAS
José Alcides Pinto deixou como herança literária dois livros inéditos: “Algodão de teus Seios Morenos” e” Diário de Berenice.”
Nessa última obra, o literato reflete o despojamento diante da vida através de um trecho emblemático:
“Num dia de imensa tristeza, Berenice atirou-se no mar. E não voltou mais. Em seu caderno de anotações foi encontrado isso: Não tenho mais nada a fazer no mundo. Vou conviver com os peixes e as sereias, os corais e as algas. Não ouvirei o grito das gaivotas, nem o ruflar das asas da rola chegando ao ninho. Essas cousas talvez nunca existissem: a não ser na sua imaginação: O periquito, o galo, o rádio de pilhas, uma cueca nova com uma nódoa de esperma, que ela raspou com a unha.”
“A maré enchia de manhã e à tarde esvaziava. Berenice se entretinha nesse vai-e-vem constante. Andava na beira-mar segurando as barra da saia porque as águas chegavam até os joelhos. Era o único divertimento de sua vida. Esse prazer era renovado todo dia.
Em “Algodão de Teus Seios Morenos,” José Alcides, além de dedicar poemas a amigos e até a filha mais velha, cria uma convivência poética entre o lirismo e a morte, refletida em versos como:
“Que mais precisa o morto
A não ser do sossego
A paz que vem dos mortos
Está no aconchego
Da própria escuridão
Que lhe serve de abrigo
Á suma eternidade
Trancado em seu jazigo
Mas quem pode afirmar
Com absoluta certeza
Se o morto não está vivo
Embora morto esteja”
Outro trecho do livro “O Algodão de Teus Seios Morenos,” revela um Alcides Pinto igualmente reflexivo e até estóico em relação à inexorabilidade do destino:
E esses dias somados
A troco de vintém
Não servem para mim
Nem para ti ninguém
Não servem para nada
Nem pra dar nem pra vender
São dias emprestados
A troco de viver
Mais um dia que passa
Sem parar se deter
Nessa corrida doida
Sem saber para quê
Por onde se entra e não sai
Tal qual uma sepultura
Como se jogassem fora
A chave e a fechadura
RETALHOS DA POESIA DE JOSÉ ALCIDES PINTO
O UNICÓRNIO DOURADO
O mar não é o tema, o tema é o ar do mar
A poesia é didática - Luz sobre a história e esquecidos altares.
Toda a estética, toda puericultura, lagos oceânicos, Ilhas, promontórios, as cidades, o sangue dos heróis, Tudo fica muito aquém e além de tuas caldeiras.
De tuas membranas, de tuas álgidas montanhas marinhas,
Surge o unicórnio dourado, carregado de sonho e solidão
E sobre as ondas aquece-se talvez, esquecido do tempo, a que fim esse unicórnio soçobra-se de mim?
Plumas e pratas patas-unicórnio um e único- mar, oh soberano rei dos sorvedouros.
A RENDEIRA
(Trechos)
Entre seus dedos macios os bilros atritam
Como dardos de fogo crepitante
Voam no espaço limitado voltam velozes
De uma a outra mão domesticados.
E os dedos trocam os bilros
Num vaivém de ritmos atroantes
E é como se mãos de criança se enredassem nos desenhos do estrado.
Que a artesã-rendeira vai ao tempo bordando.
O POETA POR ELE MESMO
Em entrevista a João Soares Neto em julho de 2005, José Alcides Pinto confessa curiosamente, se arrepender de não ter sido mais compreensível e gentil com a mulheres e que” nada tem lógica em matéria de arte, seja inventiva ou tradicional. Quando o entrevistador lhe perguntou o que seria uma Academia de Letras, o poeta respondeu irreverentemente, que era “ Um elenco de homens e mulheres que se reúnem , falam e discutem sobre literatura sem muito convicção.”
Indagado sobre se consideraria um beato, demônio, religioso, maldito ou perdido nessa dimensão, o literato se autodefiniu como um místico por natureza, enfatizando que “Não me perco por caminhos, nem por rodeios. Sei o que quero e onde quero chegar: na religião com Cristo Nosso Salvador. E o diabo na minha literatura é uma figura de retórica, emblemática. Valorizou-o e ridicularizo-o no decorrer das minhas estórias. É o bobo da corte. Papai Noel de chifre e rabo. Tanto faz aplaudi-lo como vaiá-lo. Nos meus escritos ele ocupa uma posição ridícula, burlesca”.
“No que se refere às reminiscências, José Alcides Pinto, é generoso ao se reportar ao tempo dos militares americanos em Fortaleza na época da Segunda Guerra Mundial, mascando chicletes, o “Curral das éguas,” zona de mulheres da sua mocidade, a” Pensão da Graça”, cabaré tradicional da época, do idealismo estudantes e da Fortaleza mais sossegada dos idos de sua mocidade na década de 40. Ele lembra com carinho também dos professores e educadores de sua época, os quais denominou "geração heróica.”
Na realidade, a Fortaleza que teria servido de cenário inspirador para Alcides Pinto, era uma cidade bucólica, com ares nitidamente provincianos, com suas ruas tranquilas, preguiçosas e sem violência, sem televisão, o rádio entronizado na sala de visitas, os cinemas convidativos para furtivos namoros, as serenatas, os bares e cafés do centro da cidade e a iniciação sexual com prostitutas nos cabarés da malha central e das periferias, já que a virgindade era um tabu. Foi nessa atmosfera, casta, romântica e levemente sombria que teria brotado a verve literária de José Alcides Pinto.
Para completar a sua permanência no Rio de Janeiro da década de 40, também causou uma forte impressão no literato cearense segundo as suas próprias palavras” A cidade era dos boêmios, infestada de cabarés. Andava-se em paz durante o dia e a noite. Não havia metrô, mas os bondes comunitários, sempre domésticos e solidários. E para quem tinha sede de saber como eu, o Rio era ideal. Fui um dos frequentadores mais assíduos da Biblioteca Nacional, que só fechava às 11 da noite.”
E realmente José Alcides Pinto lia tudo que lhe caísse nas mãos segundo suas próprias palavras” sem disciplina, regras e predileção.” Sem predileção, vírgula, já que ele admitia que o que mais o incitava, era o romance, o canto, a poesia, a biografia dos grandes homens, etc. Cidades e livros fizeram a grande forja do poeta e seu trânsito por subjetividades as mais variadas.
No cômputo geral, a obra de José Alcides Pinto é centrada em suas concepções acerca da vida e da morte, do bem e do mal, em suma, em todo um universo de contrastes. Ao que parece três temáticas básicas permeiam a obra do poeta: o sexo, a morte e a loucura, pendulares entre o sagrado e a maldição, com toda a sua panorâmica poético-ficcional carregada de forças antagônicas, positivas e negativas em um eterno embate visivelmente registrado pelo poeta. A sua autenticidade se revela em uma frase que ele costumava repetir segundo velhos amigos, despojada e direta: ”Quem quiser gostar de mim, goste como eu sou, quem não gostar, que vá pra baixa da égua.”
Luiz Antônio Alencar - músico, jornalista, eterno "Big Brasa".