Monteiro Lobato

A Recriação do Livro no Brasil

 

 

 

Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP) José Bento Monteiro Lobato ainda não desfruta do devido reconhecimento quanto ao seu papel ativo no trabalho de modernização da sociedade brasileira nos setores artístico, político e cultural. A nossa crítica literária, bem como a nossa historiografia, e, especificamente, os nossos livros didáticos estão em débito com o criador do Jeca Tatu e da boneca-gente Emília.

 

Não raro, os livros que se referem ao escritor fazem senão acentuar um ou outro aspecto da sua agitadíssima vida pública ou privilegiar uma obra ou fase da sua vasta produção literário-intelectual. O episódio Monteiro Lobato/Anita Malfati, por exemplo, é um dos aspectos mais visitados. E serve geralmente para lembrar de Lobato como o inimigo irredutível dos modernistas.

 

Talvez esteja nesse acontecimento o ponto de partida de todo o processo de desconsideração da modernidade de Monteiro Lobato; desconsideração esta que ainda encontra acolhida nas universidades e nas escolas do ensino médio.

 

Apenas agora o estigma que recai sobre Monteiro Lobato está sendo repensado, e cedendo espaço para outros olhares. Na esteira dessas novas leituras, gostaríamos de enfeixar uma outra, cuja especificidade está no esforço de entender a modernidade singular de Lobato.

 

Entendimento que passa, primeiramente, pelo redimensionamento do próprio conceito de modernidade, operado, sobretudo, pelos críticos de Monteiro Lobato. Esse redimensionamento procura principalmente alargar a abrangência do conceito, que sai do campo meramente discursivo e se revitaliza no da prática social, política e cultural.

 

Senão, vejamos. Se entendermos, como os modernistas históricos, que a obra isolada diz da sua modernidade, então, nesse sentido, o trabalho de Monteiro Lobato torna-se limitado. Agora, se ampliarmos o conceito e entendermos que a modernidade é um fenômeno que pode ser avaliado dentro de um sistema ou de um todo orgânico de práticas e discursos, no qual obra, autor e público estão inter-relacionados, então, o nosso autor aparecerá tão moderno quanto os modernistas de 22.

 

A modernidade de Monteiro Lobato reside justamente no fato de ele ter conseguido combinar esses componentes ao longo de sua carreira. É o que podemos reparar no engajamento do escritor nos diversos fronts em que lutou e se engajou.

 

No front do mercado editorial, que é o tema que nos interessa, Monteiro Lobato promoveu uma verdadeira reviravolta, a partir da introdução de práticos e funcionais métodos e processos de publicação e distribuição de livros. Sem falar da inovadora política editorial que imprimiu ao mercado livresco.

 

Antes de Lobato-editor, reinava, no Brasil, soberanamente, uma certa visão romântica oitocentista do livro, que o colocava na condição de objeto sagrado, cujo acesso estava reservado à elite. Sem dizer que a literatura ou, em outros termos, a arte de bem escrever era tida como uma prática acadêmica e oficial, exclusiva dos homens de ciência.

 

Contribuía para reforçar essa visão, claro, a pequena capacidade da produção e distribuição de livros da época, que contava apenas com meia-dúzia de livrarias e poucos pontos de venda no Brasil.

 

O primeiro, de uma série de livros de Monteiro Lobato, é Urupês, que cai no gosto público como doce no formigueiro, e acaba, por isso, transformando-se num verdadeiro best-seller nacional. Urupês, ou melhor, todo o processo de publicação que ele encerra, denuncia, sem dúvida, o espírito inovador e moderno que Monteiro Lobato imprimiu ao mercado editorial nacional da época. É preciso seguí-lo passo a passo, para sentirmos o realismo da modernidade lobatiana nesse campo. Deixemos aos cuidados de Edgar Cavalheiro a condução desse nosso passeio narrativo pela aventura do Lobato editor. Após descrever a “pasmaceira” em que estava mergulhado o mercado editorial brasileiro, Edgar Cavalheiro narra como Monteiro Lobato recria, com originalidade, todo o ambiente, dando-lhe uma nova dimensão. Diz ele:

 

No campo mercadológico/publicitário, Monteiro Lobato também inova ao introduzir e manipular um conjunto de técnicas e métodos de sondagem, pesquisas, classificação de mercados e de truques publicitários de sedução do leitor completamente inéditos naquele momento.

 

Objetivando cativar e conquistar um número cada vez mais amplo de leitores, contrata artistas para substituir as monótonas capas tipográficas pelas capas desenhadas, tornando o seu produto mais atraente aos olhos do consumidor.

 

Temos aí, portanto, alguns exemplos, entre outros, da postura modernista de Monteiro Lobato, no campo editorial. Uma postura que se queria diferente da prática reinante na época, que recriasse o mercado do livro em outros termos que não romântico e aristocrático, mas democrático e dinâmico.





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