A saga dos povos do mar

 

 

 

Em dezembro de 2001, o Instituto Terramar realizou o I Encontro dos Povos do Mar do Ceará.

 

Foi um momento ímpar, em que ao longo de três dias fez-se a comunhão entre a vida e a produção artística de comunidades litorâneas, entidades de assessoria a essas comunidades, prefeituras municipais e o público de Fortaleza.

 

Como numa grande ciranda, esforços se uniram no sentido de fazer a rota inversa à que geralmente fazem os turistas: sair das praias em direção à cidade. Esse movimento gerou discussões, encontros, oficinas, trocas extremamente profícuas.

 

Exatamente por isso, após quatro anos, esse evento foi reeditado em Fortaleza. Pelo poder de viver o belo e o bom desse encontro cultural.

 

Ma verdadeira celebração da Cultura - expressa nas diversas narrativas, saberes e fazeres - que prezam pela qualidade de vida e pelo respeito às tradições seculares das comunidades do mar. Com essa proposta, o Instituto Terramar e movimentos sociais da Zona Costeira cearense realizaram, de 2 a 4 de dezembro, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o II Encontro Cultural dos Povos do Mar do Ceará.

 

Após a primeira experiência, em 2001, esta segunda edição do encontro cultural veio apresentar o multifacetado universo cultural das populações costeiras, promovendo o intercâmbio entre as comunidades participantes e estimulando a produção cultural de seus povos. Para o II Encontro ocorreram representantes de cerca de 100 comunidades do litoral cearense.

 

O Seminário Povos do Mar em Movimento marcou a abertura oficial do II Encontro Cultural dos Povos do Mar e contou com a ilustre presença de ambientalistas e professores: Antônio Carlos Diegues (USP), Jean-Pierre Leroy (Fase) e Ângela Linhares (Faced-UFC).

 

Ainda para o mesmo espaço, foi preparado um espetáculo cênico-musical, sob a direção de Ângela Linhares, em que se reuniu um apanhado de elementos característicos das lutas dos diferentes Povos do Mar e Indígenas. Integraram essa saga artistas de diferentes grupos do litoral cearense, que teve ainda a participação especial dos grupos Um Canto em Cada Canto e Água de Quartinha. Momento que celebrou com arte a produção cultural que foi o foco da discussão do seminário.

 

Na programação, além de shows e apresentações culturais dos Povos do Mar, Fortaleza recebeu a Feira dos Povos do Mar, com cerca de 30 estandes, montados na Galeria Paleta (no entorno do Centro Dragão do Mar) para venda de serviços e produtos feitos por artesãos das comunidades litorâneas a partir de preceitos da socioeconômica solidária. A proposta era de se fazer conhecer e valorizar o legado da tradição através da artesania. A feira também contou com uma mostra de turismo comunitário e com demonstrações de ofícios tradicionais (labirinto, bilro).

 

Produções em vídeo foram organizadas no Encontro na Mostra de Vídeos Ambientais, que teve apoio da ong paulista São Sebastião, idealizadora do Ecocine - Mostra Itinerante do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental.

 

Alguns títulos que passaram pelo IV Ecocine foram reunidos junto a outros cearenses. Essa mostra de vídeos foi realizada no Auditório do Centro Dragão do Mar e em algumas escolas públicas da Barra do Ceará, Mucuripe e arredores da Praia de Iracema. Uma projeção de imagens “Povos do Mar do Ceará”, organizada pelo Instituto da Fotografia Cearense (I-foto),

somou força e graça no campo das artes visuais do evento.

 

O caráter interativo do Encontro perpassou todas as atividades, mas foi durante as oficinas educativas, oferecidas por mestres da cultura litorânea, que ele se consolidou e se traduziu em geração coletiva de conhecimento. Na oficina de Mestrança (nome dado ao conjunto de saberes e ofícios para conduzir uma embarcação no mar) os mestres do mar desenvolveram um diálogo com o público e engenheiros de pesca do Labomar - Instituto de Ciências do Mar. Também oficinas de reciclagem em madeira, brinquedos populares, ornamentação em cerâmica, mar em pintura em côco foram também oferecidas.

 

O palco sob a passarela e o anfiteatro do Centro Dragão do Mar foram cenários para inúmeras demonstrações autênticas da rica diversidade expressiva dos povos do mar e indígenas, espalhados pelos 573 quilômetros de costa cearense. Teatro de rua Flor do Sol (de Icapuí), dança do côco do Balbino (Cascavel), toré com crianças Tapeba (Caucaia), côco de Caetanos de Cima (Amontada), recital poético de Ray Lima (de Icapuí), maracatu Nação Fortaleza (da capital), danças de Paraipaba, torém Tremembé (de Itarema), grupo de flautas de Paracuru, grupo de capoeira da Taíba e o/as batuqueiro/as da caravana cultural (de Fortaleza) foram as atrações que se apresentaram para os três dias do encontro.

 

Destacaram-se as apresentações na Praça Verde do Dragão do Mar, que tiveram a cantora Nana Caymmi, na companhia do irmão Danilo Caymmi, como grande atração. Eles apresentaram o show O Mar e o Tempo, como homenagem a Dorival Caymmi. Nana contou que esse show, apresentado desde 2002, é a sua “versão musical da biografia que Stella Caymmi - sua filha e neta de Dorival - escreveu em 2001”. Sem deixar de expor suas características próprias, a cantora trouxe no show um pouco do estilo do pai – “a forma simples, enxuta e sem enfeites”, como descreve a resenha do CD, também escrito por Stella. Antes desse trabalho, Nana Caymmi já tinha trabalhado com 22 músicas de Dorival em dez de seus 20 discos solos, além de outros projetos feitos em família. A Compositora, cantora e professora Ângela Linhares comandou a Ciranda do Mar como abertura daquela noite.

 

No mesmo espaço, a cantora e compositora Selma do Coco trouxe de Olinda o show “Raízes da Cultura”, até então inédito no Ceará, para encerrar em alto astral a programação do Encontro. Em 1996, Dona Selma foi destaque numa das edições do Festival Abril pro Rock, de Recife, em meio à ascensão do movimento Mangue Beat. O grupo cearense Água de Quartinha preparou o público com seu show “O som das feiras”, na abertura da noite.

 

Se a cultura “é uma lente através da qual a gente olha o mundo”, eis-os a tentar fazer convergir vários olhares. O olhar de quem pesca e o de quem come o pescado. O olhar de quem tece e o de quem compra o tecido. Os olhares dos Povos do Mar e dos Povos Indígenas, já que mais do que um que constitui o outro, tivemos no encontro sinergias de uns e outros. E porque “temos tantas lentes quanto é o número de culturas”, e porque temos também “uma lente comum,” aconteceu o II Encontro Cultural dos Povos do Mar!

 

Pela própria necessidade de diálogo, de construir pontes, linguagens entre os que lidam com o tempo da natureza e os que vivem o tempo das grandes cidades - liames entre o ritmo das marés e o ritmo estressado dos dias atuais. Procurar compreender os meandros da vida nos locais. Mas, igualmente, refletir, se inserir. Ter ido ao encontro do Outro. Ter feito um exercício de alteridade. Estar e ser. Busca realizada. Em todos os espaços, a entrada aconteceu mediante a doação de 1kg de alimento não-perecível que serão destinados às comunidades da zona costeira do Ceará. Para cada R$ 1,00 arrecadado nos show de Nana Caymmi e Selma do Coco, a fundação AVINA contribuirá com R$ 1,00 para um fundo de apoio às comunidades costeiras.

 

Instituto Terramar é uma Organização não-Governamental sem fins lucrativos que busca a promoção e desenvolvimento humano das populações costeiras cearenses e a sustentabilidade ambiental dos ecossistemas em que estão inseridas essas comunidades. Trabalhando em parceria com os movimentos sociais da zona Costeira cearense, esse instituto mobiliza-se na perspectiva de uma gestão costeira sustentável que preze pela qualidade de vida e pelo respeito às tradições seculares das comunidades à beira-mar.

 

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