Integração
Literária na América Latina
Romper fronteiras para unir os países latino-americanos numa só nau literária. Nesta
semana, de
A curadoria desse Encontro é do poeta cearense Floriano Martins, que receberá os escritores Hildebrando Perez Grande (Peru), Amparo Osorio (Colômbia), José Ángel Leyva (México), José María Memet (Chile), Manuel Mora Serrano (República Dominicana), Reina María Rodríguez (Cuba) e Wilfredo Machado (Venezuela).
Comprometido com a ideologia bolivariana, que pressupõe a união dos povos da América Latina, difundida pela atual gestão da Secretaria da Cultura do Ceará, o Encontro promete buscar soluções para a difusão mútua de programas culturais em todo o continente. ´Nós queremos que a diversidade cultural cearense e dos povos de língua espanhola dialoguem, porque quase temos um muro invisível que separa essas culturas´, afirma o secretário de Cultura, Auto Filho.
A reunião quer traçar ações de âmbito editorial e visa consolidar o intercâmbio de autores para realização de oficinas, simpósios e ciclos de palestras. Para isso, haverá debates com os secretários da Cultura, Auto Filho, de Educação, Isolda Cela, do Turismo, Bismark Maia, além de representantes de universidades locais, do Sindilivros, da Câmara Cearense do Livro, da Câmara Setorial e de empresas que se envolvem diretamente com a realização da Bienal.
Como afirma Amparo Osorio, participante colombiana do Encontro e editora geral da revista literária Común Presencia - premiada pelo Ministério da Cultura da Colômbia como a mais importante publicação no gênero em seu país - a reunião será uma oportunidade para pôr fim à falta de entrosamento entre os países: ´Penso, contudo, que o real abismo é uma terrível facção política que tenta reforçar as fronteiras. Não somos acaso o mesmo continente latino-americano? Quais sonhos poderiam diferenciar um brasileiro de um mexicano ou de um colombiano?´ Entende como fundamental uma maior integrações entre os povos que integram a América Latina.
No último dia da reunião, haverá, nos Jardins do Theatro José de Alencar, leitura de poemas e a apresentação do Quarteto da Orquestra Eleazar de Carvalho. Durante a confraternização, nove empresas cearenses apoiadoras da Cultura receberão o Selo de Responsabilidade Cultural.
Diálogo entre pares
Historicamente, o Brasil jamais configurou um quadro de inter-relações culturais com a América Latina, sequer mais recentemente quando alguns mecanismos na área comercial acenam na definição de um diálogo entre alguns países, sobretudo na América do Sul. O desconhecimento só não é de todo mútuo, porque há ações - quase sempre isoladas, embora algumas de perfil institucional - que caracterizam interesse de conhecimento da cultura brasileira, como é o caso da Fundación Biblioteca Ayacucho, da Venezuela, que ao longo das últimas décadas vem publicando volumes críticos dedicados à obra de importantes autores brasileiros.
A ausência de percepção em relação ao potencial de engrandecimento de nossos países está na raiz da própria colonização, não cabendo aqui aprofundar o tema. Contudo, vale ressaltar que por mais aparentemente tardio que possa se apresentar o problema, é plenamente possível redirecionar uma agenda de interesses mútuos envolvendo atuais governos em todo o continente, no sentido de buscar uma integração cultural que nos permita reavaliar tradição e produção contemporânea.
A agenda deste I Encontro de Agentes Culturais - América Hispânica prevê a discussão de temas relacionados diretamente com as possibilidades de intercâmbios culturais entre Brasil (a partir do Ceará) e América Hispânica, inicialmente considerando os sete países convidados, porém tendo por meta expandir as ações pela totalidade dos países hispano-americanos. Trata-se, desde já, de agenda preparatória para a 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, a definir um novo modelo de relações entre Cultura e Estado.
Buscar um diálogo entre essas culturas é o que pretende a curadoria da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, criando condições para conhecimento e reconhecimento da literatura que se produz em quase três dezenas de países, em três continentes. Trata-se de uma ambição historicamente necessária e hoje em grande parte já entendida como um sinal inadiável de preservação deste inestimável acervo cultural.
Motivado pelo tema central, o desenho da programação deverá empenhar-se sobremaneira para evitar isolamentos de qualquer ordem, promovendo uma integração entre aspectos locais, nacionais e internacionais, sempre destacando que maior conhecimento e envolvimento mútuos corresponderão, em igual teor, a um maior fortalecimento das culturas em sua singularidade. Desta forma, não cabe mais lacrar em setores estanques atividades que urgem por um diálogo para serem melhor compreendidas e, por conseqüência, firmarem-se melhor em um plano internacional. O grande desafio imposto por esta curadoria aponta na direção de abrir novos canais de comunicação entre as diversas culturas que abrangem o projeto atual, livrando-as, dentro do possível que nos permitirá esta ação inaugural, de sua tradicional condição insular.
Torna-se imprescindível criar um novo foco de estímulos para o desenvolvimento da América Latina, e esta nova alavanca não pode ser outra senão a cultura. Somente uma cultura fortalecida pode facultar forças às demais áreas do conhecimento. Não há país algum que resista frente ao diálogo imperativo com outras nações sem que esteja defendido por uma cultura sólida. E tal condição não se alcança sem uma base substantiva do ponto de vista educacional e uma abertura constante ao intercâmbio com outras culturas que lhe são afins. Trata-se rigorosamente de um tema estratégico e, portanto, irrefutável.
O desafio maior desta nova fase que se anuncia, com a realização de uma 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará, é justamente o de destacar a condição mestiça de toda uma cultura, ressaltando a força desse ecletismo e suas influências em todas as áreas do pensamento. Tal desafio se concretizará não somente recorrendo à promoção de um ingresso sistemático e consistente do mercado editorial de línguas portuguesa e espanhola, como também propiciando um diálogo franco entre escritores, conferencistas e debatedores, do Brasil e do exterior. Este diálogo encontrará palco não somente através das atividades desenvolvidas durante a realização da Bienal em si, como também por intermédio de sua publicação periódica, a revista da Bienal.
Embora especificamente vinculado ao âmbito da literatura, este projeto entende que não pode se realizar de forma isolada e que, portanto, aponta em múltiplas direções, sugerindo entrosamento de diversas áreas, tanto na esfera da própria Secretaria de Estado da Cultura do Ceará como também de outras pastas. Assim é que prepara seu grande salto visando abranger dimensões várias e desdobramentos que engrandeçam uma estratégia global de Governo.
Floriano Mastins