José de Alencar:

as peripécias do indianismo

 

 

 

José de Alencar é considerado o fundador do romance brasileiro. Dentre outros objetivos, ele queria representar, através da ficção, toda a variedade do país, do sertão à corte, e, de certa forma, conseguiu, já que seus romances perfazem todo o caminho da diversidade dos tipos brasileiros: desde ´Arnaldo´, vaqueiro e herói do sertão (no livro O sertanejo, de 1875), ao gaúcho (no livro O gaúcho, de 1870), passando pela corte de ´Aurélia Camargo´ (no livro Senhora, de 1875), e exaltando aquele que se tornou o símbolo nacional do romantismo: o índio. No romance O guarani, de 1857, há quase todos os elementos que caracterizariam a escola romântica.

 

Primeiramente, Peri, chefe dos goitacás, filho de Ararê, abandona sua tribo para proteger uma mulher branca, Cecília (Ceci significa magoar, doer; é um verbo, na língua guarani), por quem ele passa a nutrir uma paixão exageradamente idólatra.

 

Aqui iniciam todas as peripécias românticas, com o característico exagero, próprio da escola. Peri é o protagonista, o herói sem defeito, que só possui virtudes, e que daria a vida para salvar Cecília e toda a sua família: ele come as contas de curare, um veneno fortíssimo, para matar toda a tribo dos aimorés, canibais que comeriam sua carne, depois que ele morresse.

 

Dentre as inúmeras peripécias da personagem, , esta é a que mais diz do seu incomensurável amor. Outra: para satisfazer Cacília, ele captura uma onça, já que ela queria ver uma. Apenas mais uma: ´

 

... o índio faria tudo para que uma abelha sequer não viesse beijar os seus lábios vermelhos confundindo-os com uma flor de pequiá.´

 

As peripécias românticas, carregadas de exagero, traduzindo a característica inverossimilhança própria dos românticos estão em todos os capítulos do romance. Isto, porém, não é um defeito: é uma característica da escola romântica.

 

Era assim que os personagens românticos se posicionavam diante do mundo, exagerando, sendo demasiadamente apaixonados e, por isso, sofrendo muito. Essa era a postura romântica. Era assim que se fazia ficção, naquela época.

 

Como também era característica da escola, em muitas partes há a tradicional comparação com a natureza, que é símbolo de perfeição: ´Peri, primeiro de todos, tu és belo como o sol, e flexível como a cana selvagem...´

 

- A nação Goitacá tem cem guerreiros fortes como Peri; mil arcos ligeiros como o vôo do gavião.´

 

O romântico comparava os protagonistas com a natureza para dizer da perfeição e da beleza deles. Era por isso que a natureza aparece sempre idealizada e sempre presente na ficção romântica.

 

As características do herói, assim, vão aparecendo ao longo da narrativa: ele aparece, como um verdadeiro Deus, quando menos se espera, principalmente quando Cecília está em perigo. Esta passa a ser sua função: salvá-la de todo e qualquer mal. Em todo o romance, principalmente no final, há esse propósito.

 

A morte como salvação e como libertação do amor é também uma característica que aparece na fala de Isabel: ´Tendes razão! Só a morte pode desligar de um primeiro e santo amor aos corações como os ossos.´

 

A paixão, como em quase todo o romantismo, é problema a ser resolvido. Aqui, não é diferente: as paixões são desencontradas: Isabel ama Álvaro, que ama Cecília, que é venerada por Peri e que é objeto de desejo de Loredano, antagonista. Aliás, há três antagonistas bem definidos: Loredano, Rui Soeiro e Bento Simões. O chefe dos bandidos é Loredano: é um padre - Frei Ângelo di Luca - que se transforma, completamente, em busca de um tesouro: as minas de prata, que diziam que existiam na região.

 

Outros personagens vão compondo o romance: D. Antônio de Mariz é o fidalgo português, nobre, caráter impecável, justo, que vem morar no Brasil, porque não quer se submeter ao reino espanhol: na época histórica do romance, o século XVII, Portugal estava sob o domínio espanhol de Felipe II. A serviço dele estão o jovem fidalgo D. Álvaro (Álvaro de Sá) e Aires Gomes, escudeiro.

 

Há ainda a sua esposa, Laurinda; a personagem Isabel, mestiça, filha bastarda de D. Antônio, é caracterizada pela sensualidade; é a típica morena brasileira. Nisso, ela faz contraste com Cecília, que é o símbolo da candura, da graça da mulher européia. É assim que o narrador se refere às duas: Vendo aquela menina loura [Cecília], tão graciosa e gentil, o pensamento elevava-se naturalmente ao céu, despia-se do invólucro material e lembrava-se dos anjinhos de Deus.

 

Admirando aquela moça morena [Isabel], lânguida e voluptuosa, o espírito apegava-se à terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraíso, lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho. (p.165) A diferença entre as duas, caro leitor, é bem nítida: uma é para se adorar; outra, para se ter prazer.

 

É assim que o narrador vai descrevendo os personagens e narrando as ações: tudo é muito nítido, muito bem definido. Não há sugestões, nem meias-palavras. Toda a ideologia da época é passada por este narrador onisciente, intruso, que não faz parte da história, mas que se dá o direito de impor um tipo de pensamento, julgando, interferindo e, por isso, tentando convencer o leitor de que tem razão.

 

Aliás, o leitor era também da sua mesma categoria: a do burguês da época, com toda a carga de discriminação de tipos, inclusive da mulher, consoante a seguinte passagem do morance: As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo ímã dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a elas: não amam a inteligência, a coragem o gênio, o poder, senão para vencê-los e subjugá-los.

 

Paulo de Tarso Pardal





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