Sexualidade e literatura
As relações que se estabelecem entre as teorias acerca da sexualidade human
a e a produção literária constituem o interesse central dessa edição. Na abordagem desse tema, dois escritores são, predominantemente, estudados: Gustave Flaubert e James Joyce - nomes que, com sua arte, impuseram novos rumos à escritura de suas respectivas épocas.

Desde seus estudos sobre a histeria, sobre os sonhos e especialmente nos ´Três ensaios para uma teoria sexual´ (FREUD, 1905/1973), complementado pela ´Organização genital infantil´ (FREUD, 1923/1973), Freud nos chama a atenção para o fato de que a sexualidade é onipresente em todas circunstâncias da vida humana. Esta afirmação pode parecer muito forte a princípio, mas Freud mesmo teve que sustentá-la diante da tentativa de um Jung transformá-la em alguma genérica ´força instintiva psíquica´ (FREUD, 1905/1973, p. 1222). E desde os ´Três ensaios...´, Freud sustentava que a sexualidade humana não deveria ser confundida com a sexualidade genital do adulto, pois esta só poderia ser entendida como um produto mal acabado de uma sexualidade que começa na relação com o corpo próprio, o auto-erotismo infantil, que evolui por sua vez para uma sexualidade objetal perversa-polimorfa.
Sobre a perversão
A perversão, os ´desvios´ de uma sexualidade genital ´normal´, passam a ser considerados como originários, como próprios de uma sexualidade infantil à qual se apegam por sua vez os neuróticos através de seus sintomas, o que foi traduzido pelo famoso aforismo freudiano de que a neurose é o negativo da perversão (FREUD, 1905/1973, p. 1190).
A libido, nome de que Freud se utilizou para denominar essa energia sexual presente desde o início da vida do humano, que se confunde mesmo com a pulsão de vida, tem sua origem ou, se apóia na verdade, em determinadas regiões do corpo que vão se associar às que vieram a ser conhecidas como fases do desenvolvimento sexual: oral, anal, fálica e genital. Esta última seria o coroamento de uma sexualidade adulta ´normal´ voltada para o coito e a reprodução, sendo que as tendências anteriores, as pré-genitais, estariam presentes nas preliminares do coito propriamente dito. Vê-se aí uma certa idealização da sexualidade genital que veio a culminar em Reich, numa teoria da potência orgástica a qual objetivaria ´a completa solução da excitação´ (REICH, 1942/1975, p. 99), o êxtase, isto é, a completude de um gozo absoluto mesmo que seja temporário.
Mas com o que a psicanálise sempre teve que se deparar, foi o fato de que, salvo exceções, como no gozo suplementar d´a mulher que Lacan veio assinalar (LACAN, 1975/ 1985, p. 99), todo gozo é parcial, dizendo-se de outro modo, é fálico e, portanto, insatisfatório. Significa dizer que a pretensa genitalidade, a síntese das tendências pré-genitais numa sexualidade madura e plenamente desenvolvida é uma quimera. Com o que a psicanálise teve que se deparar é que toda sexualidade é infantil, ou que, pelo menos, toda sexualidade adulta é eivada do infantil. Tudo isso porque existe um drama existencial humano que Freud veio a chamar, com propriedade, de Complexo de Édipo.
Resumidamente, para não nos alongarmos no que é de conhecimento geral, toda sexualidade, por mais adulta, madura, ou o que quer que seja, constrói-se sobre o recalque de certas tendências e impulsos infantis que tiveram como primeiros objetos os pais ou seus equivalentes, ou seja, objetos proibidos que vêm a ser substituídos posteriormente por uma série de objetos metonímicos. Daí que toda sexualidade adulta é, de certa forma, a continuação do drama infantil, do Édipo. Isso tem seus efeitos e conseqüências, desde as mais mórbidas, até as mais ´normais´. Significa dizer que na vida sexual ou na vida em geral, o que de certa maneira quer dizer a mesma coisa, o patológico e o saudável se distinguem não em termos absolutos, mas dentro de uma certa gradação.
Noutros termos, poderíamos dizer que na vida em geral vamos encontrar os ecos de uma sexualidade infantil que, pelo efeito de uma ´metáfora paterna´, mais ou menos efetiva, produzirar-se-ão diferentes estruturas psíquicas onde o gozo que se alcança sempre será um gozo de segunda mão, aí temos a castração. E isto não só e, talvez, nem principalmente, pelo fato de que todo objeto sexual é um objeto substitutivo dos pais. Mas simplesmente pelo fato de que o ser humano é um ser que fala e que está preso a uma rede simbólica. Lacan nos mostrou como o ser humano, atraído pela sereia materna que promete um gozo absoluto de ser o falo que ela deseja, cai na rede do simbólico no qual ele mesmo se emaranha em suas demandas, pois nessas suas demandas nunca alcança aquilo que esperava alcançar sem elas, o indizível Real, o gozo de ser. O gozo sexual então, além de ser a substituição de um gozo incestuoso e portanto, sempre conflituoso, é também a substituição de um gozo de ser por um gozo de ter. Ter ou não ter o falo conforme a distribuição das identidades sexuais e suas diferentes modalidades de gozo (LACAN, 1957-1958/ 1999, p. 166 - 220).
Contudo, todo esse processo deixa restos não assimilados pelo processo de metaforização que cria a divisão do sujeito, que cria o sujeito mesmo e o inconsciente. Pois não são restos indiferentes, são restos que arrastam o próprio sujeito atrás de si. A esse resto que sobra no processo de causação do sujeito, Lacan deu o nome de objeto a, objeto causa do desejo, objeto que compõe a série dos objetos da pulsão em jogo na fantasia: o seio, as fezes, a voz e o olhar (LACAN, 1964/ 1990, p. 153 - 189). Objetos que servem de suporte ao desejo do Outro (KAUFMANN, 1993/ 1996, p. 295). Tais objetos embora diferentes, se equivalem enquanto exercem a função fálica de fazer falta ao Outro para obturá-la. Fazer-se seio, fazer-se excremento, ver e ser visto, ouvir e fazer-se ouvir são modos de gozo ou modos de a pulsão circundar o objeto que é aquilo que resta do sujeito e causa seu desejo, pois são objetos extremamente valorizados na medida em que são supostamente valorizados pelo Outro, que supostamente faltam ao Outro. Tanto que quando não se pode sê-lo ou tê-lo na fantasia, surge a angústia, a depressão, quando se perde o lugar de causa de desejo, pois esta é a formula do desejo, o desejo do desejo do Outro; perde-se o lugar no mundo. E a maneira que a psicanálise, enquanto tratamento, propõe de se enfrentar a questão da perda, da angústia, é a aceitação da falta, da castração, e a assunção de uma posição como sujeito desejante. Caminho nunca fácil que exige do sujeito, não só a análise de seu inconsciente, mas também a elaboração das perdas de seus objetos, o luto que pode livrá-lo das repetições que fazem sofrer embora se goze delas.
Sérgio Scotti