A poética de Gerardo Mello Mourão

 

 

 

Gerardo Mello Mourão é uma das maiores vozes da poesia brasileira contemporânea, principalmente quanto se trata da construção poética em que o lírico e o épico se entrelaçam, constituindo um todo indissolúvel. Uma análise de seu discurso é, pois, o motivo central dessa edição.

 

A poesia aspira, sobretudo, ao impacto provocado no leitor quando este depara a inscrição do belo. O que um poeta reconhece em outro e, por isso mesmo, muitas vezes o imita é algo singular à poesia, ou seja, a poesia como uma exigência, sob a forma de um apelo - o que define uma vocação.

 

O compromisso do poeta é com a palavra, tomada esta como uma instância transformadora, metaforizada por aquela flor que Carlos Drummond de Andrade viu nascer na rua e, num gesto remição, ´furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio´.

 

(1) Dentro de tal atmosfera, assomam duas expressões de poeta: o artesão e o inspirado - este é o dominado pela poesia, pela perfídia das palavras; aquele, ao contrário, domina as palavras, concebendo-as como matéria-prima, a que modela consoante o seu intento no momento da composição.

 

O poeta Gerardo Mello Mourão, (Ipueiras, 1917; Rio de janeiro, 2007) é um dos raros que conseguem palmilhar os dois territórios, uma vez que ao mesmo tempo em que arquiteta a natureza de seu discurso, orientando-se no sentido da construção de uma epopéia, deixa-se, também, mergulhar no movimento encantador das instâncias líricas: (Veja-se o texto 1)

 

A obra poética de Gerardo Mello Mourão encontra-se, em sua expressão maior, reunida em dois tomos: Os peãs (este implicando três livros: O País dos Mourões; Peripécia de Gerardo; Rastro de Apolo) e Invenção do Mar. A leitura de seus versos nos põe diante de um poeta que, como poucos, palmilha, de modo intrigantemente natural, o lírico e o épico, de tal sorte que tais gêneros se fundem num todo indissolúvel. Essas duas obras (ao longo desse ensaio passarão a ser identificadas, respectivamente, pelas siglas OPM e IM), além do extrato poético, espelham a erudição que, ao longo de uma intensa atividade intelectual, inclusive na área da criação, marcou a produção poética de Gerardo Mello Mourão.

 

Assomam, desse modo, inúmeras alusões, ecos, manchas, tecidos de textos outros, num jogo intertextual, conscientemente utilizado pelo Autor, pois este soube, vencendo a ferrugem do templo, aliar-se à pós-modernidade. Vejam-se, nesse sentido, passagens como as do texto 2

 

Os dois primeiros versos pertencem ao poema ´Mocidade e morte´, do poeta romântico Castro Alves; já o sexto verso, que tem como referente o termo ´amor´, do verso anterior, corresponde tal símile a uma passagem do ´Cântico dos Cânticos´, de Salomão; e o último verso da citação foi extraído da ´Divina Comédia´, de Dante.

 

Numa outro excerto de Os peãs, ( texto 3) as imagens do segundo a quinto verso pertencem a Juvenal Galeno. Dialogar com outros poetas, dando aos versos destes uma nova leitura, fazendo com que estabeleçam entre si novas alianças, é algo que a poesia só oferta aos escolhidos.

 

O conceito de intertextualidade é construído a partir de uma compreensão do texto literário como algo dinâmico, implicando, pois, uma entidade situada num vasto campo textual, funcionando, desse modo, como ´espaço de diálogo, troca e interpenetração constantes de uns textos noutros textos´.(4) Quanto a isso, o termo logosfera expressa, de modo bem sugestivo, o sentido em que pode contemplar-se o intertextual universo da linguagem, em que se dá, então, edificação do texto literário.(5)

 

A visão do texto literário como dinâmico provocou, também, o surgimento de conceitos como dialogismo, isto é, uma propensão que diz respeito a todo processo de comunicação verbal: ´La orientación dialogística de la palabra es, seguramente, um fenómeno próprio de toda palabra. Es la orientación natural de toda palabra viva´.(6) Um outro conceito - o da pluridiscursividade - aponta a tendência dos textos quanto à incorporação de contributos discursivos provenientes de uma enorme diversidade, trazendo em si elementos sociais, políticos e ideológicos, espalhados nos contextos que envolvem a enunciação: (Leia-se o texto 4) O leitor reconhece aí uma alusão a Carlos Drummond, na imagem de ´Sabará´ - a segunda parte do poema ´Lanterna mágica´.

 

O QUE ELES PENSAM

Elementos da poética do autor

"A poesia de Gerardo Mello Mourão, em especial nas obras ´Peãs´ e ´Invenção do Mar´, ganha revelo, sobretudo, pela habilidade com que soube aproximar os gêneros lírico e épico. A memória, em toda a sua pluralidade, constitui a matéria-prima da construção de sua literatura. Surge, pois, a saga de famílias - os Mello e os Mourão -, mas tudo suplanta a esfera do individual, e a tragédia e seus contrastes passam, desse modo, a configurar a própria humanidade."

 

"A língua de Gerardo Mello Mourão é a língua de Homero, Ovídio, Virgílio, Cícero, Píndaro, Petrarca, Leopardi, Dante e Camões, poetas que guardam o ritmo interior dos versos em hexâmetros, jônicos e trocaicos, mas a sua linguagem é a linguagem dos cantadores nordestinos que ele conheceu no pé-da-serra de Ibiapaba, e o ritmo predominante da sua poesia é o ritmo religioso do canto gregoriano que ele entoava na juventude."

POESIAS

 

Texto 1

 

Boa noite, Isabel,

vagam verdes as duas luas de teus olhos

nesse verde luar ao lírio de teu rosto

e aos botões de rosa das rosas

de teus seios

sobre os bosques e os mares de Diônisos.

E as redondilhas de seus versos cresçam

e o criador de verdes e de versos

nos cerque de jograis e de segréis.

Pelas várzeas a flor do trigo a flor

do linho a flor do decassílabo

de teu corpo ondulando entre os pinhais.

Entre a cintura e as ancas e o regaço

em teu passo de pássara inventavas

a graça nupcial das caravelas.

Texto 2

 

Vem, formosa mulher, camélia pálida,

que banharam de luz as alvoradas,

vem com teus olhos verdes desvairados

abertos para a vida e para a morte

abertos para o amor

mais forte do que a morte,

nel mezzo del camimin

Texto 3

 

Era uma vez um país onde o fruto alastra o chão vastos campos onde os touros

nédios urram sobranceiros

entre os bandos de carneiros

pelas soltas dos Mourões:

´Não te aproximes daqui:

descalça as alpercatas, porque

o logar onde te encontras

é uma terra sagrada´

eles fundaram a terra sagrada

e sobre ela

num circulo de chão foi abatida

a grande cajazeira com

seus frutos de ouro.

Texto 4

 

Os bandeirantes ensinaram tudo

nominaram os rios e as montanhas

e nas janelas velhas das casas velhas

lambida pelo Rio das Velhas - Carlos,

com seus velhos olhos de Sabará - as velhas

olham no chão de pedra

de seus rastros a memória

do princípio das coisas. 

Carlos Augusto Viana





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