Florbela Espanca: sonetos de amor e dor

 

 

 

Primorosa na construção do soneto, a poetisa Florbela Espanca pôs, em cada um de seus versos, a plenitude da alma. Foi a primeira mulher, num meio literário absolutamente masculino, a inscrever, de modo definitivo, o seu nome no panorama da literatura portuguesa. A função emotiva da linguagem constitui uma das marcas essenciais de sua expressão poética. Nesta edição, vamos percorrer alguns dos labirintos entranhados em seu discurso.

 

Para que se possa compreender melhor a poesia de Florbela e o motivo pelo qual a crítica ignorou sua obra durante longos anos, faz-se necessário o conhecimento de alguns dados importantes de sua vida.

 

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa (Alentejo), cidade muito antiga que ainda conserva o Palácio Ducal, residência de férias da Coroa Portuguesa, em 8 de dezembro de 1894. Filha ilegítima de João Maria Espanca, boêmio e aventureiro, anarquista, avesso a qualquer formalidade, introdutor do cinematógrafo em Portugal, e de Antônia da Conceição Lobo, cuja profissão na época denominava-se ´criada de servir´. João Espanca que não tinha filhos com sua mulher, Mariana do Carmo Ingleza convence-a, não se sabe por quais meios, a criar a menina. Três anos mais tarde, nasce Apeles, da mesma união ilegítima, a quem Florbela dedica um amor filial, ambos apóiam-se mutuamente.

 

A formação

 

Tendo iniciado os estudos em Vila Viçosa, em 1908, a jovem muda-se com a família para Évora, a fim de fazer o curso secundário no famoso Liceu de André Gouveia, que há pouco tempo passara a admitir classes mistas, mas ainda permanecia um forte preconceito contra a presença feminina. São dessa época os poemas publicados postumamente no volume Juvenília (1931).

 

Em 1913, no dia de seu aniversário, Florbela casa-se com Alberto Moutinho, seu colega de escola desde 1904. Em 1917, ingressa na Faculdade de Direito de Lisboa, curso que abandonará em 1920. Em 1918, vai a Quelfes tratar-se das conseqüências de um aborto involuntário. Em 1919, publica, às custas do pai, o primeiro livro de poemas: Livro de Mágoas. Já separada do marido há algum tempo, consegue o divórcio em 1921, e, após dois meses, casa-se novamente com Antônio Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana. Nesse mesmo ano, João Maria Espanca divorcia-se de Mariana Ingleza, madrinha e mãe adotiva de Florbela e, em 1922, casa-se com uma ex-empregada. Em janeiro de 1923, vem a lume sua segunda coletânea de sonetos, mais uma vez às expensas do pai: Livro de Sóror Saudade. Os poemas são alvo de críticas absurdas por parte do diretor do jornal A Época, que pretendia atingir antes de tudo o comportamento da autora, considerado inadequado pela sociedade conservadora de então.

 

A tragédia existencial

 

Vítima da maledicência, doente e amargurada, Florbela afasta-se do convívio social e cerca-se de uns poucos amigos. Um segundo aborto espontâneo vem complicar ainda mais sua precária saúde. O médico chamado para socorrê-la é Mário Lage, homem culto de quem ela se torna inseparável. Pressentindo o rumo que toma a relação, Antônio Guimarães decide partir para a África por dois anos e pede o divórcio. O processo litigioso prolonga-se por mais de um ano e desencadeia uma crise na família Espanca, que não aceita o novo relacionamento. A situação se agrava quando, em 1925, três meses depois do divórcio, ela casa-se com Mário Lage, com quem já vivia desde 1924, e recolhe-se a Matosinhos, porto marítimo a norte de Portugal, em busca de melhoras para sua saúde.

 

Em 1927, inicia a tarefa de tradutora e tudo parecia ir bem, mas a morte do irmão, num desastre de avião, desencadeia uma depressão sem precedentes. Os dois sempre haviam sido inseparáveis, depois que Antônia Lobo morreu e Apeles veio morar na casa do pai, Florbela tornou-se uma espécie de mãe para ele.

 

O último casamento parecia ter chegado ao fim e Florbela mostrava-se cansada, os problemas de saúde agravavam-se e, além da dificuldade pulmonar, tinham surgido outras complicações. Na madrugada de 7 para 8 de dezembro de 1930, falece durante o sono, por excesso de barbitúricos, não se sabe ao certo se por acidente ou suicídio. Consta que já teria tentado o suicídio anteriormente usando soporíferos, em agosto de 1928, por ter-se apaixonado por Luiz Maria Cabral, médico e pianista.





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