Luzia-Homem:

falhas ou desatenções de Domingos Olímpio

 

 

 

 

O romance Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, publicado em 1903, já sofreu diversas leituras críticas, quase sempre concentradas na dualidade da heroína: sob seus poderosos músculos e sua força física, estava uma mulher tímida e frágil. Estudá-lo, a partir de aspectos estilísticos, é uma perspectiva nova, inaugural. Este é o motivo central dessa edição.

 

Dizem que, em se tratando de produção literária, um clássico é um livro sobre o qual o leitor - sendo este um entusiasta, interessado ou um estudioso - tece sempre comentários e costuma relê-lo. Isto é dado porque são obras - os clássicos - consagradas, imortalizadas, assim, freqüentemente citadas, referidas, indicadas como leitura obrigatório em concursos de vestibulares ou compõem a lista de paradidáticos do Ensino Médio. Por isso muitos não querem dar a revelar-se que ainda não a tivesse já apreciado.

 

Mas, em meio a esse todo burburinho, não há apenas falares; se os há, é por força da magnitude da obra; ora, um clássico, cuja alma é, verdadeiramente, de importância para os que estão envolvidos no mundo da literatura e neste imprescindível sua leitura. Então, o leitor, que não quer fazer as vezes de um neófito, vacila e, antes, diz, com ares: Este livro, estou-o relendo.

 

Freqüentemente, de uma obra literária o que se diz é muito o fruto de juízos transviajados de boca em boca, pois vez em quando esta é tratada como os textos bíblicos ou as obras de Machado de Assis: todos os comentam, mas poucos, a rigor, os lêem. Opiniões delgadas, sem maior rigor ou senso crítico e que, habitualmente, vão passando e ficando, até que se cristalizam e tornam senso comum penetrando e confundindo os meios sérios que trabalham com literatura.

 

O que pode gerar enublações não somente para o leitor, que cria uma imagem e uma expectativa, mormente, frustradas, daquilo que achará encontrar no livro, como também para o próprio livro, que, ao contrário do que realmente é, passa a ser tido, não erroneamente, contudo, desvirtuadamente, pois elementos de sua essência são legados a segundo plano em alteamento de outros que a euforia do público aponta como moda e uso geral.

 

O caso Luzia-Homem

 

Luzia-Homem é um clássico; e, como tal, não passou sem o mesmo tratamento, antes já comentado. Tanto se fala desta obra; - e com razão, haja sua alteza, confirmada pelas tantas outras reedições, que contemplam os tantos mais leitores desde sua primeira publicação de 1803. Dentre as quais, a da série Bom Livro pela editora Ática, São Paulo, de 1996, prefaciada por Afrânio Coutinho e a publicada pela Ediouro, Rio de Janeiro, em 1998, com introdução de M. Cavalcante Proença.

 

Luzia-Homem é um clássico, um clássico de estima da literatura do Brasil, é um clássico de orgulho especial para a literatura do Ceará, cujos verdes mares bravios se agitam em regojizos a verem aclamada a obra de um filho nato seu. Rara peça, trabalhada e suada, pelo destro cinzel de um natural de Iracema, Domingos Olímpio Braga Cavalcante ou por, como é conhecido o sobralense, apenas Domingos Olímpio.

 

Por tudo isso, fomos também seduzidos por essa narrativa; no entanto, por um ângulo outro, mais concentrado em aspectos relativos à sua construção, levando em conta elementos de amarração frasal, a organização dos parágrafos, bem como, e sobretudo, a escolha vocabular, isto é, lexical, uma vez que esta implica, por parte do autor, a presença de ´falhas ou desatenções´.

 

Desta maneira, sairíamos da linha comumente percorrida no espaço acadêmico, qual seja: a de resumir a obra, interpretá-la, consoante princípios hermenêuticos, ou, então, perscrutar-lhe os aspectos simbólicos, as representações culturais; se não, apontar-lhe a abertura enquanto arte; ou, ainda, pô-la ao lado de uma outra, visando, desse modo, a um meditado estudono campo da literatura comparada.

 

Evidentemente que, ao mencionarmos a expressão ´falhas ou desatenções´, quanto à tessitura da construção estilística do romance Luzia-Homem, não recai sobre a intenção de uma postura que tenha como propósito a diminuição do valor dessa obra (a sua fortuna crítica não o permitiria), tampouco o inegável valor de Domingos Olímpio como escritor: um gigante entre os demais; exímio, na arte de escrever. Porém, como mesmo atestou Afrânio Coutinho: ´Em Luzia-Homem, há qualidades e defeitos´; nesse sentido, acrescentaríamos dois epítetos à frase: qualidades incontestáveis e defeitos não-comprometedores; sem, contudo, não soarem audíveis, ou melhor, destoarem rumorejantes. A respeito de alguns desses aspectos concentrar-se-ão as preocupações de nossa leitura. , por não se poder negar-lhe luz para o conhecimento maior da obra; por outro, também iremos nos deter no empenho com que o autor aspirou à caracterização da fala de suas personagens, buscando o registro da oralidade da gente do Interior - nesse caso, a cidade de Sobral, na segunda metade do século XIX.

 





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