Agora ele era o herói
‘Não corram tanto! Assim vão pensar que estamos fugindo... ´
A voz que fazia esse apelo era a de quem menos se poderia esperar prudência em circunstâncias tão dramáticas. Tratava-se de uma pobre demente, que voltava a respirar o ar das ruas, depois de 16 anos de reclusão. Mas, se ainda lhe restava lucidez para temer a repercussão daquela correria, faltava-lhe a percepção da sua imperiosa necessidade. A cidade estava na iminência de ser invadida por um exército inimigo tão poderoso, que podia reduzi-la a cacos. (Alguns aspectos da vinda da Corte portuguesa para o Brasil é o motivo central dessa edição.)
Impossível reconstituir imaginariamente tal cena sem um bocadinho de ternura. Dentro de um coche a toda velocidade, D. Maria I emerge das profundezas de sua alienação preocupada com a imagem pública que a família real ia deixar. ´Não corram tanto! Assim vão pensar que estamos fugindo...´ Coitada! Mal sabia o que a aguardava, e à sua numerosa corte, no cais do porto. Loucura mesmo era aquilo. Gritaria. Apupos. Empurrões. Cenas dilacerantes. Muita gente querendo embarcar à força. Senhoras distintas se atiravam na água, tentando alcançar botes que as transportassem para bordo dos navios de guerra - já abarrotados de fidalgos - e se afogavam. O filho de dona Maria, Dom João Carlos de Bragança, o Príncipe Regente - que mais tarde seria coroado rei como D. João VI - disfarçou-se de fugitivo anônimo, ao chegar num carro fechado e sem o libré da corte, para escapar das hostilidades de uma população indignada. Não teve ninguém a recebê-lo, protocolarmente. Como chovia muito, só não patinhou na lama, ao atravessar o charco sobre pranchas mal postas, porque foi sustentado por dois cabos da polícia.
A voz da nobreza
Coube à duquesa de Abrantes descrever os acontecimentos como um ´estado de frenesi popular´. Com a palavra acerca disso, a duquesa: ´O muito nobre e sempre leal povo de Lisboa, não podia familiarizar-se com a idéia da saída d´El-Rei para os Domínios Ultramarinos... Vagando tumultuariamente pelas praças, e ruas, sem acreditar o mesmo, que via, desafogava em lágrimas, e imprecações a opressão dolorosa, que lhe abafava na arca do peito o coração inchado de suspirar: tudo para ele era horror; tudo mágoa; tudo saudade; e aquele nobre caráter de sofrimento, em que tanto tem alçado acima dos outros povos, quase degenerava em desesperação´.
Esse breve relato é de uma testemunha ocular da história. E por ele pode-se deduzir que aos excluídos das embarcações pouco importava se o que estava em causa era uma estratégia para a salvação de um reino, muito bem sucedida, o que, finalmente, já se reconhece, ao reavaliar-se de forma menos emocionalizada o que antes era tido como uma fuga, e havido como uma decisão covarde de um príncipe regente frouxo, pusilânime, bufão.
Nessa reavaliação, gastam-se muito papel e tinta em cadernos especiais dos jornais, revistas e livros que vão para as listas de best-sellers; lotam-se os auditórios das universidades, da Academia Brasileira de Letras, dos espaços culturais os mais variados; dobram os sinos, rufam os tambores e o plim-plim da Rede Globo.
Em meio a isso tudo, um historiador chamado Jurandir Malerba, autor de A corte no exílio, em longo artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 6 de abril último, fez as seguintes reflexões:
´Numa época como a nossa, em que tudo, até mesmo a história e a identidade coletiva de um povo, virou mercadoria, não é de estranhar o estardalhaço mercadológico em torno da efeméride. Da noite para o dia, ilustres desconhecidos tornam-se celebridades e posam de sábios e eruditos; leitores de meia dúzia de livros se acotovelam para ´entrar no debate´; publicações de qualidade suspeitíssima ganham espaço na mídia. Uns se apropriam do fato como guardiões da história; outros vaticinam contra ela, acusando os abusos e as manipulações da memória´ etc, etc, etc, até ele próprio admitir que a transferência da corte e do império ultramarino portugueses sempre foi alvo de interpelações apaixonadas. E propõe que nós, os leitores de meia dúzia de livros sobre o assunto, façamos um dever de casa, respondendo, nesse sentido, às seguintes perguntas:
Essa transferência terá sido uma fuga ou uma sábia decisão do regente? Foi atropelada ou ´um alvitre amadurecido´? Qual o tamanho da comitiva? D. João foi um hábil estadista ou um tolo manipulado por seus homens de Estado? A vinda da corte acelerou ou protelou a independência do Brasil na era das revoluções? Foi benéfica para o Brasil ao garantir a sua integridade territorial - a América hispânica se esfacelou em pequenas repúblicas - ou foi prejudicial ao induzir a uma transição conservadora e centralizadora? Quais suas eventuais marcas na sociedade e no Estado que se construíram no Brasil ao longo do século 19 e mesmo depois?
Por mais conhecidos que sejam os antecedentes dessa história, permitam-me recorrer a eles em busca de elementos que possam ajudar nas respostas pelo menos de parte das perguntas aqui propostas.
Tudo começou quando os ingleses e os franceses ambicionaram repartir o mundo entre si, nos primórdios do século 19. Como cada lado pretendia mais capital e mais mercado, as disputas os empurraram, fatalmente para a guerra.
A Inglaterra impôs um bloqueio marítimo à França, e esta revidou com o bloqueio continental que deixava o Reino Unido isolado e proibido de comerciar com a Europa dominada pelo imperador francês, Napoleão Bonaparte. Ilhado, o comércio inglês só podia se expandir através de Portugal, dono de um caminho marítimo para o continente americano.
Naquele grave momento europeu, o príncipe regente D. João (que governava Portugal desde 1792, em virtude da enfermidade mental da sua mãe, D. Maria I), tentava uma neutralidade impossível no conflito das duas potências.
Unida à Espanha, a França tinha as mesmas ambições da Inglaterra. E, por isso mesmo, invadiu Portugal em novembro de 1807. Sem condições de enfrentar as tropas napoleônicas, D. João não teve outra saída senão se valer do plano inglês de transferir a sede da monarquia portuguesa para o Brasil, numa esquadra escoltada pela marinha britânica.
Não nos esqueçamos que por trás de tudo estava uma guerra mercadológica. Logo, a escolta não seria nenhum gesto magnânimo de uma velha aliada. Portugal se comprometia a dar plena liberdade comercial aos ingleses, mas regateando para não ceder a todas as exigências deles, como as de tarifas alfandegárias irrisórias. Exige-se de cá, barganha-se de lá, o certo é que o acordo foi fechado ao soar do gongo, no dia 29 do mesmo mês de novembro daquele mesmíssimo ano de 1807. E então, ao amanhecer do dia seguinte, quando o exército de Napoleão Bonaparte, comandado pelo general Andoche Junot, entrou em Lisboa, só avistou as últimas velas dos barcos portugueses sumindo na linha do horizonte, levando uma nobreza que em poucas horas saqueara os cofres, e embarcara com milhões de cruzados em ouro e diamantes e mais da metade do dinheiro em circulação no país. Imaginem, então, a cara dos que ficaram lá, a ver navios.
Fique por dentro
D. João e sua ascensão ao trono português
Há os que traçam um perfil positivo de D. João,enxergando grandezas em suas atitudes, pois, apesar de não haver sido preparado para a cadeira do reino, (o primogênito de D. Maria I, D. José, desde cedo fora destinado a tal empresa; entanto foi envenenado muito jovem, talvez por ser um inimigo declarado da Inglaterra), teve que enfrentar o desafio quando da loucura de D. Maria I - fato de 1792; então, compensou a falta de experiência com sagacidade e sensibilidade política. A transferência da Corte portuguesa para a colônia brasileira já era uma idéia cultivada desde o século XVIII, e, devido às ameaças britânicas, voltou a ser estudada por D. João VI. Assim, ocorreu de modo bem elaborado, tudo estudado cuidadosamente, de tal sorte que o embarque se deu sob tranqüilidade e organização. Desse mod, não foi, a rigor, uma fuga, mas, sim, uma estratégia visando à preservação do trono português.