Raimundo Correia: a estilística do soneto

 

 

 

 

 

 

 

Raimundo Correia é um Poeta de indiscutível consagração na Poesia. Entre toda a sua obra, grande em excelência, O Banzo é um poema em que o autor reuniu muito do melhor de sua arte e numa amplitude que alcança os principais níveis do plano poético. Raimundo Correia em O Banzo encanta pele refinamento de sua expressão, de apurados efeitos estilísticos. A Leitura desse soneto e aspectos do autor e do Parnasianismo são o motivo central dessa edição.

 

Percebendo as sutilezas na tessitura de O Banzo, tivemos a intenção de discuti-las neste breve ensaio. Seguiremos o método de apresentação habitualmente empregado, qual seja o de partir-se do plano Lexical, passar pelo Sintático, finalizando no plano Semântico a discussão. Referente ao nível formal fônico, não o discutiremos em separado, como no caso dos outros níveis, contudo, como apontamos, não deixaremos, aqui, de dar-lhe a importância de que se reveste.

 

Aspectos sonoros   

 

Resolvemos abordá-lo sempre quando se fizesse pertinente, de modo concomitante à análise de outro nível, já que os níveis de expressão poéticos são complementares e tão somente se realizam em sua plenitude em consonância entre si.

 

A divisão entre diversos domínios de expressão, enfim, é, meramente, uma necessidade metodológica. Assim, esperamos a compressão do leitor para algum ponto menos claro que tenha passado por nós, seja pelo desconhecimento, seja pela inexperiência.

 

Além da concepção que se vulgarizou corretamente do termo Banzo, de adjetivo, entendendo-se por triste, abatido, pensativo, pasmado, de acordo com o dicionário escolar da língua portuguesa, da fundação nacional de matéria escolar, 1983, com organização de Silveira Bueno, há outro entendimento para Banzo. Seja o de substantivo masculino, significando nostalgia mortal dos negros da África. Atente-se para a definição de nostalgia mortal que reforça o tom e caráter trágico que se estabelece no poema de Raimundo Correia. Esta tragicidade a que conseguiu se alçar o poeta é, portanto, um dos pontos máximos de O Banzo.

 

Começamos por uma análise na significação do termo e sua aura emotiva, digamos assim (pois, como se sabe, uma palavra traz jungidas uma carga semântica e uma afetiva), porque a seleção vocabular é um critério que tanto particulariza o poema quanto o próprio movimento do parnasianismo. Fazemos uma observação para elucidar que, quando se diz que tal ou qual propriedade é característica de um estilo literário, não se diz que esta estava per si já pronta e dela se valeram os autores que a tomaram como ideal poético.

 

A expressão do poético

 

Acontece o contrário: alguns escritores, de gênio, por inspiração ou consciência formal, ou pelos dois motivos, divulgaram uma técnica nova que se consagrou por sua graça e se tornou modelo e exemplo. Portanto, uma técnica poética não parte do movimento - que é uma designação genérica e posterior - para os escritores; e sim, por estes, é que o movimento se afirma.

 

O percurso literário do poeta parnasiano

 

aimundo Correia, ainda que haja, em sua estréia, com “Primeiros Sonhos”, pago tributo ao Romantismo, em especial pela presença, recorrente, dos temas que envolvem a natureza e o amor, uma vez posto ante o rigor formal da estética parnasiana, constitui-se uma de suas vozes mais representativas. Há, nele, pois, uma perfeita harmonia entre forma e conteúdo, no sentido de que não se deixou dominar pelos exageros desse Estilo de Época, em relação as aspectos estilísticos, tampouco esquivou-se de desenvolver um conteúdo íntimo, já que, em nenhum momento, contaminou-se de volições piegas.

 

Sua adesão definitiva ao Parnasianismo deu-se a partir da publicação do livro Sinfonias , cujo poema de abertura, “As Pombas”, fez com que, de imediato, caísse no gosto não só acadêmico, mas, e principalmente, o popular. A rigor, nesse soneto, estão sintetizados os elementos-chave de sua poética: o niilismo ante a força corrosiva do tempo; uma perene melancolia oriunda da consciência de que tudo se destina à decomposição; isto é, a concepção da vida como sendo uma sucessão inexorável de perdas: ´Assim também dos corações, onde abotoam os sonhos, um por um, céleres voam como voam as pombas dos pombais No azul da adolescência as asas soltam, fogem... Mas aos pombais as pombas voltam, e eles aos corações não voltam mais...´

 

Ao traçar-lhe o percurso literário, Massaud Moisés, em História da Literatura Brasileira - v.II´, ressalta-lhe, além da eterna insatisfação, o repúdio à poesia científica, bem como a consciência dos perigos do culto ardente à forma: De qualquer modo, o que legou à posteridade, recolhido, sobretudo em Poesias, é, no entanto, expressão do poeta mais denso de sua geração e um dos maiores artistas do verso em nossa língua.

 

Nesse sentido, o poeta cultiva uma poesia filosófica, reflexiva, moralizadora, essencialmente pessimista, recebendo, acentuadamente, a influência do filósofo Schoppenhauer, - o que, de certo modo, vem a justificar-lhe, assim, a predileção por temas noturnos, decorrentes, portanto, de seu negativismo.

 





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