Castro Alves: a crítica e os adeuses de Teresa!
Com pesar e pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino em terra hospitaleira, onde vagara; nem sequer a lembrança desta alma; e com a consciência do fim iminente de sua vida; sabendo de que nada resta
senão o vulto de um passar na terra: uma esteira de espumas... - flores perdidas na vasta indiferença do oceano. - Um punhado de versos... - espumas flutuantes no dorso fero da vida, Antônio Frederico de Castro Alves (1847 - 1871) legou à posteridade louros que coroariam a fronte da humanidade: seus cantos, como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, filhos da musa - este sopro do alto, do coração - este pélago da alma´. A obra desse poeta é o motivo central dessa edição.
Como se dá a travessia de Castro Alves desde 1870 aos dias de hoje? Por que, com o seu frescor de orvalho e fulgor de diamante, a poesia de Castro Alves não sofre a injúria do tempo que danifica as glórias e enxota as notoriedades? Onde está o seu segredo? Na sua eloqüência comicial que se desata, mesmo no momento murmurante, em que no desalinho de uma cama, celebra o seu amor por uma mulher? Na chuva de hipérboles e metáforas que troveja entre as nuvens e astros da sua noite condoreira, juncada de amores e indignações? Na sedução de sua vida breve de poeta romântico, inspirado, que viveu a sua própria antecipação entre alegrias e amarguras, e, na qual, os dias devem ser avaliados numa contabilidade que os dobre ou os multiplique?
Ou mais, por que fulgura e nele sente-se o borbulhar do gênio? Por que é poeta distinto por lírico amoroso, que se exprimia quase sempre sem ênfase e às vezes com exemplar simplicidade, como no formoso quadro do poema Adormecida? Por poeta descritivo, -pintando com admirável verdade e poesia a nossa paisagem, tal em O crepúsculo sertanejo? Por que poeta épico-social, desmedindo-se em violentas antíteses, em retumbantes onomatopéias? Ora, há que reconhecer nele, mal-grado os excessos e o mal gosto ocasional, a maior força verbal e inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira, conforme se manifestou Manuel Bandeira apaixonada e solidariamente. Ambos acometidos por tuberculose, o mal do século, em ainda jovens, - o romântico logo foi morto, aos vinte e quatro anos, o modernista, assombrado pela companhia durante anos da iniludível das gentes, em sua prolongada Consoada.
O olhar da crítica
Euclides da Cunha apontou para que há no seu gênio muita coisa do gênio obscuro da nossa raça, já José de Alencar, em carta a Machado de Assis, padrinhos de Castro Alves na apresentação deste à corte literária, anunciou o Cantor de Iracema que nele ´palpita o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos´.
Talvez se indague tanto sobre a vitalidade e perenidade do poeta pelo fato de que, conforme constatou José Veríssimo, poucos livros brasileiros, e menos de versos, têm sido tão lidos, sabemos que livros relidos são livros eternos.
A crítica polemiza entre si, dentre variados temas, em torno de questões sobre sua originalidade e autenticidade; sobre seu estro oratório, afeito para ser declamado em meio ao público, em praças e teatros; sobre sua relação particular com o romantismo brasileiro; sobre a fragilidade de sua obra irregular e impetuosa; por fim, e, principalmente, sobre sua poesia de clamor social. De todos os pontos supracitados habitualmente deslumbrados pela crítica castroalvina, o último, sua poesia de vertente social, é ponto pacífico. Não há voz que se erga da multidão, com sonoridade e vibração audíveis tal quais para calar o brado grandíloquo do poeta dos escravos.
Já em relação aos outros temas destacados da crítica, em tratando do poeta baiano, os posicionamentos são os mais controvertidos e duvidosos. A respeito, Afrânio Coutinho,
Os críticos ou se fazem partidários e aficionados exaltando o poeta Castro Alves enquanto o mais sagaz condor dos mais altos picos da excelência poética; ou se aferram em apontar equívocos direito à obra castroalvina. M. Cavalcanti Proença sobre Castro Alves dá nota dos movimentos, que vez por outra, surgem entre os intelectuais, tendendo em valorizá-lo ou desmerecê-lo, e em cujas raízes, se encontram, muitas vezes, o bairrismo, a política ou o primitivismo exclusivista, chegando às fronteiras da polêmica.
Os desentendimentos alcançam tal ordem a ponto de se hostilizaram em seus artigos os estudiosos. Caso houve, quando, tematizando a poesia de Castro Alves, saiu um comentário asseverando: Castro Alves não é nenhum gênio. Em resposta, o editor do Jornal de Poesia
(página on line) tripudiou: Concordamos com dona Marilene (grifo nosso): Castro Alves não é um gênio; Castro Alves é um grande gênio, depois do que assina, alcunhando-se o jargão - do poeta Soares Feitosa, aprendiz.
O engajamento literário
É possível seja o discurso social o mais destacado por que Castro Alves se solidarizou com o povo americano, com o seu povo - com o povo do Brasil. Tinha o coração do homem e a alma do cidadão, enlevou-se Machado de Assis; José Veríssimo evidenciou o fato de o poeta ter reclamado nosso ideal humano; Érico Veríssimo, por sua vez,
Em vários de seus poemas -prossegue o autor de Olhai dos Lírios do Campo - Castro Alves antecipou as reivindicações proletárias que viriam muitos e muitos anos mais tarde. Perscrutando a alma do poeta: ´tinha compreensão humana e compaixão. Possuía, desse modo, um admirável senso de fraternidade.
A voz do poeta do povo
Jamil Almansur Hadad ,