Novela de rádio - o artesanato
do sonho e da voz

Para quem não sabe, houve uma época em que as novelas de rádio faziam tanto sucesso como as novelas de TV posteriormente.
No Brasil elas tiveram seu auge nas décadas de 40 e 50, e até 60, quando começaram a dar lugar às produções televisivas do gênero.
No período em que o rádio reinava soberano como veículo máximo, era comum as donas de casa ligarem o seu rádio doméstico, entronizado na sala de visitas como peça do mobiliário, posto ocupado pelos receptores de TV.
As novelas, dramalhões com capítulos de meia hora, e patrocinadas estrategicamente por produtos domésticos de limpeza e higiene, teciam o tapete mágico de sonhos de donas de casa e domésticas em geral.
Mais tarde os produtores de radioteatro das emissoras começaram a investir nas novelas de ação para alcançar também o público masculino. Programas de teatro radiofônico abrangendo temas diversificados como histórias de terror narradas em um só episódio entraram também na programação da radiodramaturgia.
A origem e a história
Se tem notícias das primeiras novelas de rádio nos estados unidos em 1930, quando elas eram chamadas de “soap operas”, óperas de sabão, por conta dos patrocinadores serem empresas fabricantes de sabão e congêneres.
As duas primeiras novelas americanas foram “painted dreams” (sonhos pintados) e “childrens today” (crianças de hoje).
No final década de 30, contudo, o então futuro cineasta Orson Welles, fez uma versão teatral radiofônica da “guerra dos mundos” de h.g. Wells, com tanto realismo, que os ouvintes entraram em pânico pensando se tratar de uma reportagem real sobre uma suposta invasão de marcianos na terra.
No Brasil, a rádio nacional do rio de janeiro notabilizou-se pelo seu trabalho no radio teatro, por sinal bem primoroso, a ponto de ser considerado o melhor do brasil.
Chegando a ter quase 100 radioatores e radioatrizes, a rádio nacional chegou a transmitir até 16 novelas diárias, segundo uma grade de programação de 1956. o grande investimento tanto comercial como artístico da rádio nacional, era indubitavelmente a produção de novelas diárias.
Sua primeira grande novela foi “ em busca da felicidade” de 1941, patrocinada pelo creme dental Colgate e de autoria de Leandro Blanco.
A novela passou cerca de dois anos no ar, e fez tanto sucesso, que em uma promoção solicitando dos ouvintes o envio de embalagens do creme Colgate para a emissora, com direito a uma resumo da novela e fotos dos atores, a rádio nacional recebeu cerca de 48 mil embalagens, um tremendo recorde para a época.
Curiosamente, as novelas cubanas de autoria de Félix Cagnet se tornaram célebres. títulos como mujeres que trabajan, el dolor de ser madre, yo no queiro ser mala, divorciadas, e el derecho de nascer faziam chorar copiosamente as señoras e señoritas cubanas.
No Brasil el derecho de nascer, se tornou o direito de nascer, outra grande produção novelística da rádio nacional, que fez tanto sucesso com o ator Paulo Gracindo no papel principal, que as pessoas até situavam os compromissos para antes ou depois da novela.
Em
A novela traçava o enredo em torno das andanças de Jerônimo pelo sertão com seu parceiro aninha, com a qual nunca casava, pois as constantes aventuras nunca davam tempo para uma vida conjugal estável.
Outros episódios de ação e mistério como o anjo, com Álvaro Aguiar, e o sombra, também fizeram os tempos de glória do radioteatro da rádio nacional.
Um grande feito da rádio nacional foi a radiofonização da vida, paixão e morte de nosso senhor Jesus Cristo, uma adaptação radiofônica de Giuseppe Ghiaroni, da vida de Jesus, com duração de quase três horas e que foi ao ar pela primeira vez no dia 27 de março de 1959.
Dela participaram quase cem radioatores, com narração de César Ladeira e a participação de nomes do radioteatro da época como Roberto Faissal, no papel de Jesus e Saintclair Lopes vivendo Pôncio Pilatos. Esse último era tão cotado pelas fãs, que uma delas deixou para ele uma polpuda herança ao falecer.
Migrando para a dublagem
Com o decreto de 1961 do presidente Jânio Quadros, instituindo a dublagem como versão brasileira para os filmes de tv, os radioatores passaram a migrar para o novo e promissor mercado, e a própria ascensão da televisão como veículo começou a absorver os grandes talentos do rádio para a televisão. Nomes como Paulo Gracindo, Mário Lago e Castro Gonzaga passaram a ser acolhidos pela mídia emergente.
No início da década de 60, as novelas de rádio ainda resistiram um pouco para gradualmente ceder lugar às suas herdeiras televisivas, até se tornarem uma saudosa referência do passado para os velhos rádio ouvintes.
A sonoplastia e o sonho
O grande elemento de realce dos trabalhos dramático radiofônicos era justamente a sonoplastia, que eram os efeitos especiais sonoros, feitos artesanalmente, ou por discos de efeitos.
Havia vários microfones espalhados pelo estúdio captando um som de uma porta fechando, que era uma porta mesmo, tropel de cavalos, que eram quengas de côco batendo numa mesa, soldados marchando a partir de blocos de madeira batendo cadenciados, papel celofane amassado em um saco fazendo às vezes de um incêndio de grandes proporções, e por aí vai.
O texto era distribuído entre os atores e ensaiado preliminarmente, para ser interpretado de maneira bem simples- cada ator lia a sua parte interpretando no microfone, enquanto o sonoplasta, colocava a música de fundo para cada cena já pontuada na formatação do texto.
A força do rádio como veículo sempre residiu no fato da imaginação do ouvinte interagir com a locução, de modo que nas novelas, se desenvolvia toda uma parceria imaginativa entre o receptor, no caso o ouvinte, e o emissora, a novela por exemplo, um fenômeno também recorrente e bastante presente na literatura em geral.
No ceará, todas as emissoras de rádio tinham as suas novelas com produção local. a ceará rádio clube, por exemplo, contava com João Ramos como diretor e ator de rádio teatro, e a Rádio Uirapuru até transmitiu uma novela de ficção científica por volta de 1960- radar o homem do espaço, como Baman Vieira, interpretando o herói radar, e Tarcísio Tavares, vivendo o vilão acro, o tirano do espaço.
Há inclusive um fato que se reporta ao folclore do rádio, no qual em uma determinada emissora, o sonoplasta não encontrava disco de efeito de disparos de arma de fogo, e como a novela estava sendo transmitida ao vivo, o diretor de elenco sussurrou para o ator que ele improvisasse dizendo que ia matar a vítima de faca. o ator berrou algo tipo, minha pistola falhou, vai morrer mesmo é de faca, toma desgraçado, nisso os tiros estouraram no ar. o sonoplasta sem saber do arranjo, lascou o disco de efeito criando o fato curioso de uma faca bem sofisticada até municiada com cartuchos com seu devido calibre e tudo mais. São as coisas deliciosas do rádio, esse eterno artesão e artífice dos sonhos, paixões e esperanças de todos nós.
Luiz Antônio Alencar - eterno big brasa, músico e jornalista