José Alcides Pinto

 

 

 

 

 

O livro ´Os Verdes Abutres da Colina´ conta a história de uma comunidade formada por descendentes de um português e uma índia que teria iniciado o povoamento da zona norte do Ceará. O mundo dos seus personagens é um mundo povoado de inquietações, de desgraças, de desordem e de caos, onde os demônios se manifestam de maneira empírica, criando um imaginário alucinante.

 

O livro Os verdes abutres da colina conta a história da formação de um povoado chamado Alto dos Angicos de São Francisco do Estreito, distrito de Acaraú-CE. Diz a saga que tudo começou com a chegada de um coronel luso Antonio José Nunes e sua índia Tremembé, a cativa Janica a quem ele tomou para sua mulher. Ele cobria todas as mulheres que encontrava como se seguisse o que está escrito na Bíblia: ´Crescei e multiplicai-vos´. Não importava a cor, tamanho, parentesco, não respeitava nenhum laço de consangüinidade.

 

O garanhão luso, como era chamado pelo padre, trabalhava dia e noite sozinho, com o auxílio da índia cativa, aproveitando a madeira do terreno para construir casas e, também, a capela daquelas paragens.

 

A maldição

 

Tendo em vista a forma incestuosa com que foi fundada a aldeia, todas as pessoas eram vítimas de uma maldição que envolvia os descendentes, viviam em um clima de eterna tensão em um mundo amaldiçoado pelo sexo. Comiam catolé, arrancado das palmeiras da serra do Mucuripe, patos selvagens, mambira, peixes, frutas e palmitos numa vida de aborígenes. Escondiam-s atrás das portas, trepavam-se nas árvores quando uma pessoa desconhecida aparecia na aldeia. Os mais ´civilizados´ tomavam a bênção aos estranhos e riam como dementes das próprias besteiras, pulando como macacos.

 

Padre Anastácio sofreu para exercer seu sacerdócio no meio daquela gente rude. No início foi até tomado pelo Anticristo e enxotado a custo de pedras e rebolos. Tinha a seu serviço o escravo Damião, sempre fiel agachado aos seus pés. Foi Damião que teve a idéia de amarrar o braço direito do padre numa tábua para que ele pudesse escrever um relatório acerca da vida das pessoas, pois seu amo sofria de gota e tinha o braço esticado e seco afora as terríveis dores que sentia à noite.

 

Após a morte do coronel a aldeia entrou em decadência: terras retalhadas, divididas e subdivididas com o harém de mulheres e de filhos espalhados. Os habitantes foram se transformando em pessoas doentes da mente, viviam olhando para a cumeeira das casas ou para o chão, sujas, sem higiene alguma, não aprendiam nada.

 

A metamorfose

 

Na segunda parte do livro as pessoas, de repente, ficaram com as mentes sadias e conheceram o progresso, uma comunidade de gente civilizada. Os homens sabiam usar navalhas e faziam a própria barba, tinham noção de asseio, tomando banho antes de dormir, e calçavam alpercata de couro, e até tamancos, sem levar tombo. Já havia finas modistas para fazerem as indumentárias femininas. Houve até a formação de um partido político: os Marrecas, tudo sob a administração do padre Tibúrcio, neto do padre Anastácio, o Asceta (que atuou na primeira fase).

 

O povoado da antiga aldeia de Alto dos Angicos de São Francisco do estreito era, agora, um reduto de sábios. Havia de tudo, como na antiga Grécia: poetas, oradores,profetas, filósofos, historiadores, escultores, astrônomos, matemáticos e até inventores.

 

As pessoas misteriosamente morriam aos pares como foi o caso do Coronel Antonio José Nunes e mestre Manoel Carneiro do Nascimento, o mesmo acontecendo com o Asceta e seu cativo, já que ambos andavam pela mesma idade, com mais de cento e trinta anos de existência. A pessoa mais velha do povoado chamava-se Rosa, a matriarca. Todas as suas patrícias haviam morrido só ela ficara, rezando seu rosário, contando as ave-marias, enfiando linha na agulha, pregando botão na roupa, pondo remendo nos trastes de uso. Era uma mulher justa e boa e por isso as outras pessoas a chamavam de madrinha.

 

Os sábios detectaram vestígios de mau augúrio no tempo, flutuando no ar, como uma formação estranha, desconhecida, alguma coisa de estranho havia no ar, penetrando, se movimentando, portanto, por dentro das partículas.

 

Tudo ia muito bem, os homens e mulheres tinham profissões certas, atitudes definidas, existiam carpinteiros, pedreiros, parteiras, sapateiros, alfaiates e barbeiros, mas de repente o povo voltou a regredir, indiferente a política e ao progresso. A pasmaceira dos tempos dos primatas de mente parada voltou a se repetir.

 

Os manuscritos

 

Após muitos anos e o Pe. Tibúrcio continuava a procurar os escritos do seu avô em busca de uma solução, uma explicação para o que se passava naquele lugar. Pensava se talvez os Verdes Abutres da Colina pudessem ter levado embora os manuscritos. O padre estava desolado, sem mais esperanças de encontrar o documento. Certo dia houve uma ventania e um pedaço de papel com a letra de seu avô veio parar em suas pernas, não entendia, pois foi o segundo pedaço de papel que apareceu, assim, de modo, tão misterioso.

 

Os verdes abutres da colina viviam espreitando entocados na serra do Mucuripe, porém de vem em quando desciam ao povoado com seu crocitar demoníaco assustando as pessoas e procurando cadáveres para se alimentarem. Faziam muito barulho, juntavam as asas e cortavam a aldeia em cruzes. Depois se recolhiam para seus esconderijos para chocarem seus milhares de ovos.

 

O retorno do caos

 

Certa época houve grande movimentação de partidos políticos,os oradores discursaram, parecia que os tolos seriam sábios e que a mente de todos estava sadia novamente, porém a anarquia voltou a imperar e a confusão foi geral.

 

Um dia uma formação estranha como um cinturão amarelo veio em direção ao povoado e ao mesmo tempo na direção oposta surgiram os verdes abutres da colina precedidos de sua grande ninhada, com seu crocitar já conhecido, rugidores e ferozes se aproximavam com a mesma velocidade que a formação esquisita, avançando para se encontrarem no povoado ao mesmo tempo. Era, desse modo, o fim de tudo.

 

Morreram os dois últimos habitantes diabólicos que se tinha conhecimento e parece que se juntaram aos abutres com a tempestade de poeira. Eles atacaram a aldeia dizimando tudo, os tetos das casas foram atirados distante, um grande incêndio irrompeu no povoado, devastando tudo num segundo. Somente Rosa sobreviveu à catástrofe. Depois chegou Chico das Chagas Frota de uma viagem para, assim, lhe fazer companhia.





Exibir todas as matérias.