Capitães da Areia:representações
da miséria urbana
Este ensaio tem por objetivo analisar a obra´capitães da Areia´ de Jorge Amado, à luz da comunicação que o referido autor estabeleceu com as questões sociais daquele momento, não somente na Bahia, mas reais e presentes em todo o Brasil. Trata-se, fundamentalmente, de um empenho em realçar a genialidade de Jorge para tratar de questões importantes em situações dialogais do cotidiano do povo brasileiro. Eis o motivo central dessa edição.
Num país com as dimensões geográficas e com as especificidades sócio-culturais do Brasil, o estudo da obra Capitães da Areia assume um significado especial, pois sua temática de infância, marginalidade social e seus percalços são atualíssimos, visto que, Jorge Amado age como um embaixador, trazendo à tona a cultura e os problemas do povo brasileiro, mesclando crença religiosa, ideologia, ceticismo e ativismo político. Sua palavra literária atua contra toda e qualquer opressão e preconceitos que possam estar evidentes no trato de outros para com o nosso povo, tirando da obscuridade traços significativos da nossa colonização, tais como, por exemplo, o candomblé e o falar popular.
As epístolas
Essa temática é aprofundada desde o prefácio do livro até à sua última página. As ´Cartas à Redação´, além de propiciarem um enfoque realistas ao romance, oferecem um tom de veracidade, censuram as atitudes dos poderosos e revelam, desse modo, uma sociedade desigual.
Poder x miséria
É muito presente no livro o desprezo das autoridades para com a pobreza, até a imprensa, que deveria ser um órgão imparcial e transmissor da informação, posiciona-se mais para acusar, julgar os meninos, do que para defendê-los ou para fazer um aparte sobre o que os levou a delinqüência: ´A cidade infestada por crianças que vivem do furto, ´Esse bando que vive de rapina´, ´Pouco servidos de sentimentos cristãos.´ (p. 03)
Por outro lado, a inocência é contrária a toda e qualquer forma de preconceito, mesmo com o choque entre o mundo de Pedro Bala, chefe dos capitães e o do neto do Comendador José Ferreira, houve uma empatia por parte de ambos quando ficam frente a frente por ocasião do assalto à casa do referido comendador, que era, portanto, um ´remanso de paz e trabalho honesto´ (p. 04).
Outra questão relevante apontada pelo autor na obra é em relação ao lado humano dos capitães, havia sempre brigas, revoltas, roubos, estupros..., mas eles eram crianças, e como tal tinham seus momentos de brincadeira, como é perceptível no capítulo ´As Luzes do Carrossel´, principalmente para ´Volta Seca´ e ´Sem Pernas´, personagens altamente amargos e revoltados com as condições precárias que a vida os impôs:´ O rosto sombrio de Volta Seca se abria num sorriso´ (p. 59), ´Sem Pernas ia girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame´ (p. 62)
Presença do feminino
Outro aspecto também importante é a figura da mulher na vida dos capitães da areia, de simples miseráveis que eram utilizadas apenas para servi-los sexualmente, ou da Dalva, a rameira pela qual Gato apaixona-se, temos a figura da Dora, a menina mulher que aparece na vida dos capitães e passa a representar a mãe, irmã, amiga e a noiva, esposa do Pedro Bala.
É por essas questões aqui apresentadas e por outras que serão tratadas ao longo do trabalho que, Capitães da Areia seja talvez um dos romances de Jorge Amado mais apreciados pelos leitores, é um romance que trata de uma temática real e está pautado em sub-temas diversos como a vida dos excluídos e suas lutas, o papel da Igreja, das autoridades, da imprensa, enfim, da sociedade em geral diante da problemática da delinqüência juvenil.