Crônicas citadinas de

Blanchard Girão

 

 

 

 

 

 

Vida é o que não falta nos jornais: desastres, corrupção política, crise econômica, escolas sem professores. O que falta nas redações, por ter se tornado uma ameaça à suposta missão da objetividade jornalística, é a emoção, característica de estar diante do fato, vê-lo, senti-lo e transmiti-lo. Emoção não questionada em textos literários, com linguagem moldada, sobretudo, pelo sabor da sensibilidade.

 

Este artigo surge do interesse por essa literatura e da necessidade de vê-la entremeada ao quotidiano do jornalismo. E o gênero textual que parece sugerir uma dimensão clara desse intercruzamento é a crônica, universo de possibilidades de encontros e desencontros, com indeterminação e versatilidade peculiar.

 

A crônica moderna nasceu nos jornais franceses do século XIX e logo tem grande aceitação e cultores em nosso país. Consegue conquistar leitores das mais diversas faixas etárias e sociais, renovando-se a cada dia. Com o tempo, passa a ser mais curta; o tom subjetivo é mais acentuado; como também os elementos ficcionais estão mais presentes. Ainda assim, guarda o compromisso com a vida concreta, mesmo quando não parece estar falando dela. Na maioria dos casos, o cronista revela de maneira bastante flagrante os hábitos e os costumes de uma época.

 

Ao atrelar-se ao jornal, a crônica pode até adormecer ao cair da noite, chegando, em alguns casos, ao próprio esquecimento, mas pode também ganhar as páginas dos livros. Há quem acredite que, na mudança de suporte, ampliam-se as possibilidades de leitura crítica, com a riqueza do texto atuando com maior liberdade de certas referencialidades.

 

Entretanto, quando um curioso se aventura vasculhar páginas amareladas e empoeiradas de um periódico, acontece o verdadeiro amanhecer de uma crônica. Do silêncio da atmosfera esfumaçada de uma biblioteca, brotam ruídos de vozes imaginárias, espetáculos encenados em palcos do quotidiano. A cronologia e a periodicidade do jornal se entrelaçam com a não-linearidade da comunicação. Avultam-se traços de memória e informações jornalísticas, carregando o tempo atravessado em suas páginas.

 

É assim a crônica. A citadina, então, ocupa uma posição de destaque no âmbito do repertório temático do gênero: a cidade no plano material, físico e concreto; como também a cidade em sua dimensão simbólica, pertencente ao campo do imaginário. O espaço urbano se configura como o lugar de produção dos textos, com todo o caos emblemático de uma existência acelerada e em constante transformação. Ainda assim, a crônica é escrita de forma leve, de uma simplicidade que só ela sabe expressar. Dentro desse contexto, emerge José Blanchard Girão Ribeiro. Nascido em Acaraú (CE), em 1929, vem para Fortaleza ainda criança e trabalha como jornalista desde os 14 anos. Começa como revisor da Gazeta de Notícias e percorre as principais redações de jornais cearenses, com períodos desviados para o rádio, a TV e a assessoria de imprensa. Atua também, com brilho, na advocacia, na política e no magistério.

 

Em 1969, depois de um longo tempo afastado da imprensa por ´imposição´ do governo ditatorial, o jornalista, com ótica social em tom destacado, deixa o anonimato e passa a escrever ´às claras´ no Correio do Ceará. O assunto? Crônicas leves do quotidiano, que não ferissem o status quo da época. Afinal, o momento é de repressão policial e de censura à imprensa, acarretando fortes acontecimentos na vida pessoal e profissional.

 

Ao observar tais aspectos, podemos levantar: como as crônicas são construídas? Quais questionamentos esgarçam os horizontes das discussões a respeito das tensões e distensões entre os gêneros literário e jornalístico? Compreender os elementos que estruturam essas relações é fundamental, assim como analisar a indissociabilidade em relação à cidade, procurando, assim, perceber como os escritos dão vez e voz a personagens e cenários de significação para a história da cidade de Fortaleza.

 

A versatilidade da crônica

 

Como o leitor receberia o trecho da crônica abaixo?

 

Meu repertório de palavrões foi principiado, sustentado e enriquecido nos mercados. Desde muito criança que faço feira e não há como despertar o dia no meio daquela gente toda a vender e a comprar, discutindo, querendo convencer, uns golpeando, outros se defendendo, num verdadeiro duelo de esgrima em que o aço é substituído pela malícia, a experiência, a presença de espírito. E aqui e ali, uma cena que chama a atenção. Um cego-violeiro (figura que anda rareando muitos nos dias atuais), contando estórias de assombração ou de valentias sertanejas; o homem com sua macaca amestrada; o camelô (exemplo típico de herói citadino, sempre pronto a convencer ou a correr, conforme lhe apareça de repente alguém querendo destruir-lhe os argumentos, ou a Polícia, sua velha e rancorosa inimiga)

 

O menino, a colher e a farofa atiça o campo das idéias em torno da discussão, a partir do momento que nos permite questionar: caracteriza-se como gênero literário ou gênero jornalístico? Em que medida o conteúdo oscila entre o rigor informativo e a liberdade verbal, entre a fotografia e a invenção, entre a realidade e a ficção? É coisa séria ou puro entretenimento?

 

Entre as inúmeras maneiras de construir os esgarçamentos dessas relações, é observar a matéria-prima que compõe o gênero: o mundo. Matéria-prima presente tanto no jornalismo quanto na literatura. No jornalismo, porque as informações presentes supõem um acontecimento proveniente da vida, do dia-a-dia. Na literatura, porque o escritor, mesmo concebendo um mundo imaginário no texto, fá-lo dado à condição de homem situado dentro de um espaço social determinado, diante de vivências quotidianas singulares que instigam a capacidade criadora. O mundo como elemento inspirador, sim; entretanto, o conteúdo desenrolado, a partir dele, não é, obrigatoriamente, sinônimo de veracidade.

 

pode falar de si, relatar fatos que realmente viveu, fazer exercícios de memória, confessar-se, desabafar. Mas pode (e deve) também mentir, falsificar, imaginar, acrescentar, censurar ou, quem sabe, distorcer.

 

A novidade não está nem no apego à verdade, nem na escolha da imaginação, mas no fato de o cronista manipular as duas coisas ao mesmo tempo - e sem explicar ao leitor, jamais, em qual das duas posições se encontra. O cronista é um agente duplo: trabalha, ao mesmo tempo, para os dois lados e nunca se pode dizer, com segurança, de que lado ele está

 

Nem de um lado, nem do outro. O cronista está na posição limítrofe e, por isso, inspira tantas suspeitas. Alguns o tomam como uma ameaça à limpidez dos fatos, princípio norteador do trabalho jornalístico. Outros, devido ao compromisso com as miudezas do quotidiano, como um perigo para a liberdade que define a literatura. Com que credibilidade um sujeito assim escreve em nossos jornais? O que o caracteriza, desse modo, para estar em nossa literatura?

 

Para Arrigucci, a crônica pode constituir o testemunho de uma vida, o documento de uma época ou um meio de se inscrever a História no texto: ´Trata-se de um relato em permanente relação com o tempo, de onde tira, como memória escrita, sua matéria principal, o que fica do vivido - uma definição que se poderia aplicar igualmente ao discurso da História, a que um dia ela deu, também, lugar´ (ARRIGUCCI, 1985, p.43).

 

Jornalismo, literatura e história fazem parte de universos distintos, cada um com particularidades, finalidades e formas de atuação - sem que, com isso, seja alcançado um consenso definitivo quanto ao caráter conceitual. Aceitamos as fronteiras não como barreira, mas, também, como território de trânsito, espaço de contato, lugar de suspensão e negociação de identidades.

 

Caroline Almeida Borralho





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