As formas do amor em Guimarães Rosa

 

 

 

 

 

Numa leitura atenta de Corpo de Baile, de Guimarães Rosa, percebemos uma dessacralização do sertão enquanto entidade primordial de acolhimento, pois os personagens que andam, sem rumo, por esse sertão ficcional participam da impossibilidade de uma chegada, de um rumo certo. Muitos deles estão deslocados, estão em processo de busca, são itinerantes de uma vontade oculta, uns viajando para um lugar incerto, outros chegando de paragens não-esclarecidas. Tal universo é o motivo central dessa edição.

 

Os personagens principais que ganham voz em Corpo de Baile representam a hierarquia menos privilegiada do sertão, são os vaqueiros, as crianças, as prostitutas, o louco, as mocinhas, a adúltera e os capatazes. E, ao mesmo tempo em que são protagonistas, são coadjuvantes de uma existência marcada pela indecisão, pela impossibilidade, pelo futuro incerto, pelas ações tempestuosas, pelas viagens. Segundo Deise Lima, em Encenações do Brasil rural em Guimarães Rosa, ´Dentro de cada narrativa, esta imagem [a viagem] toma a forma da trajetória de um protagonista, constituído como sujeito de uma busca incessante que o leitor acompanha.´ (LIMA, 2001, p. 46). As narrativas da obra em questão incomodam por nos apresentar esses personagens incompletos, tensionados ´entre estratos sociais diversos, que, noutras narrativas rosianas, só se delineia como conflito latente´ (PACHECO, 2006, p. 195-6).

 

Dentre as sete novelas de Corpo de Baile, analisaremos ´A estória de Lélio e Lina´, na perspectiva das frustrações e dos processos de busca em que estão inseridas as relações amorosas. A narrativa inicia-se com a chegada de Lélio, ´um vaqueiro foriço´ e personagem principal da narrativa, à Fazenda do Pinhém. A partir de então, tendo sido aceito pelo dono da fazenda, seo Senclér, Lélio participará da rotina dos vaqueiros e passará por várias experiências amorosas, não se esquecendo das que experienciou antes de chegar à Fazenda, com a Mocinha do Paracatú e com Maria Felícia. A fazenda do Pinhém nos é apresentada como a ´felicidade de terrão e relva, em ilha farta´ (ROSA, 2001, p. 178), que, entretanto, está em vias de decadência financeira pela má administração de seu proprietário.

 

Imobilidade social

 

À primeira vista, os relacionamentos amorosos do proprietário da fazenda do Pinhém não desestruturam a tradição do sertão, visto que era comum no meio rural o patrão utilizar-se de seu status para deitar-se com as mulheres de seus empregados. Se inicialmente nós não notamos a fratura ocorrida na tradição, após uma segunda leitura perceberemos que uma conseqüência desses arroubos deflagrará na venda da Fazenda e na substituição do relacionamento tradicional entre patrão e empregado, um relacionamento de amizade, para uma relação mais mercantil, mais fria, entre os ex-vaqueiros de seo Senclér com os novos proprietários do Pinhém, seo Amafra e de seu encarregado Dobrandino, ´cujos nomes ressoam a chegada da mafra, a gente ordinária, e do dobrão, a moeda antiga, e o fim de um tempo de pessoas preocupadas muito mais com o amor do que com a produção de mercadorias e o acúmulo de bens.´ (RONCARI, 2004, p. 155, grifos do autor). Entendemos o amor, na citação de Roncari, como também uma amizade, que seria uma variante do amor; ou seja: a amizade tradicional, estabelecida entre patrões e empregados, que se perderá pela má administração de seo Senclér, movida pelos seus arroubos amorosos.

 

Desse modo, o amor já se inscreve numa decadência acordada com a atual situação do Pinhém e as suas frustrações emergem num espaço propício para a desestruturação da tradição e dos personagens que se inscrevem nesse espaço decadente, proporcionando as suas incompletudes e as suas viagens de destinos desconhecidos. Nesse rumo ao abismo das relações, não há, se precisarmos bem a literatura de Rosa, nenhuma outra narrativa em que o tema do amor seja visto tão cruamente, tão cheio de falhas, de descrédito e de impossibilidades, o que confere ´a esta obra forte singularidade.´ (LIMA, 2001, p. 30). E Lélio, nesse meio em que as relações são cambaleantes, procura assentar-se por meio do amor. Ele procura estabelecer-se através do amor, de um casamento com alguma mocinha.

 

Facetas do amor

 

O primeiro relacionamento amoroso mencionado por Lélio refere-se ao caso que tivera com Maria Felícia, esposa de um ´boiadeiro quase ausente´ (p. 185), quando trabalhava na propriedade de seo Dom Borel. Um relacionamento compatível com as leis tradicionais do sertão, haja vista que desde tempos imemoriais o adultério faz parte de nossa sociedade ocidental. Nesse tipo de relação amorosa, há o que podemos definir como um amor que corrompe, a ponto do ser enamorado, Lélio, deixar-se transgredir, traindo a confiança de seus pares. No enlevo dos corpos, as barreiras e os obstáculos não existem, leis e regras muito menos. E sabendo-se violador das regras, o personagem tem como escapatória o separar-se daquela que o corrompe. Numa determinada noite no Pinhém, após a lida do dia, o personagem relembra o caso amoroso que tivera com Maria Felícia: (Texto I)

 

Leitura crítica

 

Benedito Nunes, em seu texto ´O amor nas obras de Guimarães Rosa´, que consta no livro O dorso do tigre, defende que em Corpo de Baile não há nenhuma relação pecaminosa: ´em Corpo de Baile, sobressai o caráter não pecaminoso das relações sexuais, por um lado e, por outro, a ausência de degradação´ (NUNES, 1976, p. 148). Acreditamos que existem, sim, relações pecaminosas em Corpo de Baile, entendendo a raiz da palavra pecado como aquele que viola uma norma ou um preceito. Lélio viola as regras por duas vezes, com Maria Felícia e com Jiní, ambas possuíam companheiros que eram amigos dele na lida diária, ou seja, Lélio peca por duas vezes, colocando em discussão o seu caráter. Ele não é só um rapaz em processo, mas, sobretudo, um homem escravo de seus desejos: ´Sempre quando queria forte uma coisa, seu querer vinha grosso, desnorteando-o sem proveito.´ (p. 223). E não esquecendo que Jiní trai Tomé, seu amasiado, com Lélio e trai Lélio com outro homem. Em outras palavras, as relações pecaminosas aparecem, desse modo, abertamente na novela ´A estória de Lélio e Lina´.

 

Um outro relacionamento significativo que Lélio tivera antes de sua estadia no Pinhém foi com a Mocinha do Paracatú. Sinhá-Linda, como ele a chamava, era uma rica senhorinha que estava numa viagem com seus pais e primos. A imagem da Mocinha representa para o rapaz um amor perdurável, dentro de suas lembranças, bem como um modo dele sair do seu status de vaqueiro itinerante, sem nenhum pouso. Sinha-Linda realizaria, caso desejasse ou demonstrasse algo por Lélio, a ascensão social do personagem e a sua estabilização enquanto ser não-transeunte: ´Esta assimetria leva o vaqueiro a alimentar seu sonho, o que longe de paralisá-lo (ficando teimosamente a desejar algo inalcançável), muito serve para impulsionar suas ações na tentativa de conquistar uma situação econômica estável, de modo a garantir também a sua segurança´. (LIMA, 2001, p. 94) Ko

 

Davi Andrade Pimentel





Exibir todas as matérias.