Tereza Batista: a guerra de Jorge Amado

 

 

 

No romance Tereza Batista cansada de guerra, de Jorge Amado, não observamos a simples labuta de uma baiana em busca de paz e sossego, e sim o jogo do mito dessacralizado de uma guerreira que é posto à prova a todo instante por todos os narradores que ganham voz nesta narrativa. Percorrer tal universo é o motivo central dessa edição.

 

Anarrativa de Tereza Batista estrutura-se de maneira bem singular, em cinco partes que têm como base a saga ´heróica´ da personagem Tereza Batista, pesquisada por um interlocutor cujo nome não sabemos e cuja presença se faz a partir dos múltiplos narradores; todavia, as partes não se organizam na forma temporal começo, meio e fim, mas a partir de uma temporalidade recortada, misturada, uma veaz que momentos da fase adulta antecedem momentos da infância, por exemplo.

 

E esse recorte é promovido não somente por uma artimanha do autor, mas também pela própria necessidade da construção do texto literário, uma vez que há um pesquisador que tenta formar, assim como nós, leitores, a história de Tereza, tentando chegar o mais próximo possível da verdade, auxiliado por múltiplos narradores, que, não sabendo a história completa da personagem, contam partes que vivenciaram com Tereza Batista ou fatos que tão-somente testemunharam como observadores.

 

Em outras palavras, o interlocutor, que passa a ser cada leitor, colhe esses fatos e os vai juntando como um verdadeiro quebra-cabeça; e os narradores vão tecendo a história da personagem a partir de pequenos relatos que guiam o interlocutor a outros narradores para que a história que tanto procura seja construída. Os narradores unem-se por serem personagens secundários da história principal, a saga da mulher Tereza Batista - os narradores aparecem na narração dos outros narradores como personagens secundários -; entretanto, esses narradores acabam tornando-se personagens principais, à medida que a história da personagem apenas existe pelos relatos de cada um deles, que são procurados pelo interlocutor, seja no Mercado Modelo ou no terreiro de macumba.

 

Da estrutura narrativa

 

A complexidade da construção da saga às avessas de Tereza apresenta-se na complexidade da estrutura do texto e, sobretudo, na voz dos narradores e no conteúdo de cada uma das cinco partes. Por existirem vários narradores, não podemos conceder crédito a todos, não podemos acreditar em todos; porém, em quem acreditar? Como saber quem está contando a verdade? E cada dúvida vai pondo no leitor e, acreditamos, no interlocutor a dúvida se realmente existiu essa personagem tão falada e tão rememorada - não estamos inferindo à realidade da personagem no mundo real, mas no da ficção - ou se ela não passa de simples mito que serve como apoio e como exemplo para que muitos nordestinos não abandonem a terra e não se desesperem com a situação difícil do sertão, já que, no fim da narrativa, diz-nos o último narrador: ´Tereza Batista se parece com o povo e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido, nunca derrotado.

 

Quando o pensam morto, ele se levanta do caixão.´ (p. 441). Tereza, narrativa verídica? Causo popular? Fábula de aprendizagem? Percebamos que da aparente leitura tranqüila e de simples prazer essa narrativa de Jorge Amado nos joga de imediato a dúvidas quanto ao tema e quanto à estrutura da obra, o que dificulta e impossibilita a tranqüilidade, mas que, por outro lado, aprimora o nosso conhecimento sobre literatura e a nossa capacidade de análise textual, bem como desmente a idéia de não-literatura e de literatura fácil, digerível, que se emprega ao nome do autor.

 

Os movimentos narrativos

 

Fato interessante ocorre entre o narrador e o conteúdo de cada uma das cinco partes da narrativa em análise. Poderíamos supor que o conteúdo das cinco partes seria uma extensão da fala do narrador que abre cada sessão; no entanto, somos enganados, visto que o narrador que inicia a parte a ele cabida não se refere ao conteúdo das próximas páginas, e sim à parte anterior ou posterior a sua. Então, quem narra a história da parte dada ao narrador inicial?

 

Outro narrador ou o próprio interlocutor, que, após angariar material suficiente sobre a personagem, diz com suas palavras o que lhe foi contado? Com isso, vislumbramos um jogo do negativo na constituição das partes com o conteúdo, organizado pelos narradores e, talvez, pelo próprio interlocutor. Caso a nossa inferência esteja correta, o interlocutor não estaria mais no mesmo plano do leitor, aquele que nada sabe, mas no plano também do narrador que sabe algo e que dificulta o entendimento ao cortar a história de Tereza Batista e misturá-la entre as cinco partes do romance.

 

Na segunda parte intitulada ´A menina que sangrou o capitão com a faca de cortar carne seca´, temos como voz inicial o narrador Maximiliano Silva conversando com o interlocutor: ´O distinto é um porreta, fez e aconteceu, não me cabe duvidar, mas eu lhe pergunto se já viu alguma vez um cristão papocado de bexiga, as carnes comidas, aberto em chagas, ser metido num saco e levado para o lazareto.´ (p. 73). Nesse fragmento, temos a participação do interlocutor, alcunhado de distinto, o tema da fala do narrador, a bexiga preta, e a ação de Tereza Batista, um bexiguento levado nas costas pela coragem da personagem.

 

Cortes e recortes

 

Contudo, o que veremos nas páginas seguintes à fala do narrador nada tem a ver com o tema lançado por ele, pois o que veremos na segunda parte da narrativa iniciada por Maximiliano será a infância de Tereza Batista, o seu estupro, causado pelo capitão Justiniano Duarte da Rosa, e o seu renascer, ao saber que existe o amor nos braços do galante rapaz da capital, Daniel.

 

E sobre o caso da bexiga preta veremos somente na terceira parte, intitulada ´ABC da peleja entre Tereza Batista e a bexiga negra´. Ou seja, o tema da segunda parte iniciado pelo narrador somente será abordado no conteúdo da terceira parte da narrativa da saga da personagem. E a essa não-comunhão da voz inicial com o conteúdo adiciona-se, assim, uma segunda problematização.

 

Os desafios da onisciência

 

Por que os narradores que tentam contar a história de Tereza Batista como de fato a história aconteceu, não desejando passar por mentirosos, pois ´a gente ouve coisa de estarrecer, mentiras de se pregar na parede com martelo russo e prego caibral´ (p. 52), entram na consciência de Tereza Batista, nos seus pensamentos e nos seus desejos, mesmo os mais íntimos?

 

Como podem ter tanta certeza da interioridade de Tereza e do seu sentimento pelo doutor Emiliano Guedes?: ´Ainda deitada na rede, tocada fundo, tão fundo a ponto de sentir os olhos úmidos, o coração repleto de ternura, Tereza Batista deseja lhe dizer tanta coisa, tanto amor lhe expressar; no entanto, apesar do muito que aprendeu em companhia dele nessa meia dúzia de anos, ainda assim não encontra as palavras exatas.´ (p. 243).

 

Os narradores podem, sim, entrar nos pensamentos de Tereza caso a saga da personagem seja mítica ou irreal, fábula de aprendizagem, o que permite a criação e a formulação de pensamentos, o que não ocorreria se a história de Tereza fosse real, visto que a possibilidade dos narradores narrarem os pensamentos mais íntimos seria impossível, cabendo a eles somente as ações realizadas pela personagem. Tereza Batista, mito? Fábula?

 

Os efeitos da polissemia

 

Pela multiplicidade de narradores, pela idéia de heroína e pela possibilidade de não ter existido de fato a personagem, a história de Tereza Batista rememora, guardada as devidas proporções, a base da literatura mundial, a essência da literatura arcaica, a contação de histórias por meio do relato oral, bem como nos lembra as narrativas gregas, as sagas dos heróis e dos deuses, que passavam de pessoa a pessoa num rito quase sacro, posto que essas sagas serviam de aprimoramento e de exemplo para o homem grego.

 

Nesse ponto, ocorre fato semelhante com a narrativa de Tereza Batista, pois temos a história de um fato extraordinário, a história da personagem, que passa de pessoa a pessoa, por cada lugarejo, por cada capital, uns aumentando, outros omitindo, surgindo como marco de uma existência que serve de exemplo para cada ser nordestino.

 





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