Reflexões sobre o estudo do texto literário
Estudar o texto literário, suas modalidades e seu uso como instrumento de aprendizagem da língua materna, fragmentando-o nas unidades que o compõem, como um desmonte do próprio texto, com vista a conhecê-lo nos ingredientes que o estruturam e melhor adaptá-lo ao ensino de literatura para os alunos do ensino médio, é o objetivo desse ensaio, que constitui motivo central dessa edição.
Durante longo tempo a literatura limitava-se às composições poéticas. Segundo Aristóteles ela é ´A arte da palavra´, tradicionalmente entendida como uma arte verbal, porém, considerando o termo, em sentido restrito, a partir de sua perspectiva estética, o conceito de literatura, como acontece com outros fatos culturais, resiste ao rigor de uma conceituação e tem, desse modo, vivido, ao longo da história, variações significativas.
No âmbito da cultura ocidental há os que entendem que a obra literária envolve uma representação e uma visão de mundo, além de uma tomada de posição diante dele. As atenções são centralizadas no ´criador´ da literatura e na ´imitação´ da natureza, compreendida como cópia ou reprodução. A linguagem é vista como mero veículo de comunicação, e como assinala Maurice-Jean Lefebve, ´a beleza da obra resulta, então, de um lado, da originalidade da visão, e, de outro, da adequação de sua linguagem às coisas expressas´. É, então, a chamada ´concepção clássica´ da literatura.
De leitura a leitura
A partir do limiar do século XIX, os românticos passam a entender que ao artista cabe a visão das coisas como ainda não foram vistas e como são profundas e autênticas em si mesmas, associando ao texto literário, a valorização da subjetividade. Nesse sentido, o sujeito da escrita realizava, sobretudo, um mergulho no eu; mas tal mergulho implicava, sobremaneira, a apreensão das emoções à flor da pele. Havia, pois, a busca do que se poderia identificar como emoções palpáveis: a desilusão amorosa, o medo da morte, a busca de um espaço para a purificação do ser, um lugar ideal onde o homem pudesse vivenciar, em plenitude, a sua felicidade.
Centrado no eu, na visão particular da realidade, valorizando, desse modo, o intimismo, a visão de mundo do romântico é alicerçada no tom confessional; assim, a emoção supera a razão, sendo o sentimento o fio condutor da existência: ´Minha alma é triste como a rola aflita / que o bosque acorda desde o albor da aurora´ - consoante versos de Casimiro de Abreu.
A segunda metade do mesmo século ( o XIX) assiste a uma mudança significativa: o núcleo da conceituação se desloca para o ´como´ a literatura se realiza. Sua especificidade, segundo essa nova visão, nasce do uso da linguagem que nela se configura. Segundo Algirdas-Julien Greimas, as características que tornam um texto literário são a ´conotação sociocultural e sua conseqüente variação no tempo e no espaço humanos´. Agora, ao artista cabe a compreensão do real como aquilo que pode ser captado pelos sentidos, constituindo a arte a reprodução fiel do que foi por ele observado e, naturalmente, analisado, conforme dos ditames do rigor científico. A compreensão desse quadro passa, naturalmente, pela consciência de que a sociedade do século XIX, em especial nesse último período, foi, essencialmente, influenciada pelo desenvolvimento científico e pelo avanço tecnológico, o que contribui para a vitória definitiva do capitalismo industrial sobre o mercantil, consolidando, assim, a ordem burguesa.
O Realismo-Naturalismo implica a produção artística desenvolvida nesse período, refletindo, em suas mais diversas manifestações, o novo quadro social, fruto do crescimento dos centros urbanos, da industrialização, do contraste entre burguesia e proletariado. Assim, fugindo ao subjetivismo romântico, o artista entende seu ofício como o retrato exato das manifestações do real; seu compromisso, pois, é com a verdade, daí primar pela descrição objetiva das cenas, concentrando-se em mínimos detalhes, como, por exemplo, na seguine passagem em destaque: (Texto I).
A partir da experiência da modernidade, o caráter ficcional que, durante largo tempo, foi considerado uma das características básicas do texto de literatura, entendida a ficção como fingimento, resultante do ato de fingir, tem sido posto
Professor e escritor
CARLOS ALBERTO DIAS MAURÍCIO*
Colaborador
FRASES
"Somente se consideram literários os textos que se proponham a específicos fins literários, vale dizer, o conto, a novela, o romance, a poesia, e o teatro - este, apenas enquanto texto, não enquanto representação".
Massaud Moisés.
Crítico literário
"O texto da literatura é um objeto de linguagem ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais e emocionais, mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um objeto estético".
Domício Proença Filho
Crítico literário
FIQUE POR DENTRO
O conceito de literatura e sua natureza múltipla
As diferentes artes se especificam por sua matéria, isto é, pelo que, a rigor, dá-lhes uma forma, diz, assim, de sua expressão. A matéria da literatura é, pois, a linguagem. Não uma linguagem qualquer, mas a que se revela inaugural, uma vez que se realiza a partir de estranhas alianças entre as palavras, abrindo caminho para o inaugural, para o que se inscreve no âmbito da singularidade. Assim, a escrita introduz um novo estilo nas relações humanas: ela já é um instrumento de comunicação, mas suplanta essa simples condição, já que coloca o leitor ou o ouvinte diante do então desconhecido. Tudo reside numa imagem que surge com uma grave beleza. Uma coisa é escrever: ´Quero dar fim a um desejo meu´; outra coisa é escrever, como o fez Cecília Meireles: ´Pus meu sonho num navio / e o navio em cima do mar; / depois, abri o mar com as mãos/ para o meu sonho naufragar´. A literatura parte do real para transfigurá-lo.
TRECHOS
TEXTO I
A população da cidade triplicava com a extraordinária afluência de retirantes. Casas de taipa, palhoças, latadas, ranchos e abarracamentos do subúrbio, estavam repletos a transbordarem. Mesmo sob os tamarineiros das praças se aboletavam famílias no extremo passo da miséria - resíduos da torrente humana que dia e noite atravessava a Rua da Vitória, onde entroncavam os caminhos e a estrada real, traçada ao lado esquerdo do rio Acaraú, até o mar. Eram pedaços da multidão, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da tétrica viagem através do sertão tostado, como terra de maldição ferida pela ira de Deus: esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automáticos dentro de fantásticos trajes, rendilhados de trapos sórdidos, de uma sujidade nauseante, empapados de sangue purulento das úlceras, que lhes carcomiam a pele, até descobrirem os ossos, nas articulações deformadas. E o céu límpido, sereno, de um azul doce de líquida safira, sem uma nuvem mensageira de esperança, vasculhado pela viração aquecida, ou intermitentes redemoinhos a sublevarem bulcões de pó amarelo, envolvendo, como um nimbo, a trágica procissão do êxodo.