Iracema e Martim: as dores de amores
Martim Soares Moreno, personagem histórico, é mergulhado nas águas da ficção e emerge como o guerreiro branco, o estrangeiro que provoca fascínio, ira, medo. Todos os sentimentos contraditórios que os índios devem ter nutrido quando da chegada dos habitantes do velho mundo. Martim e Iracema, representantes de universos díspares, têm seu primeiro encontro já marcado pela dor. É interessante apontar que nesse primeiro encontro Martim está desorientado, perdido na floresta, e quem o orienta é Iracema: (Texto X)
A força onomástica está presente e representa uma das características da prosa alencariana. Se Iracema seria anagrama de América, conforme sugerido por Afrânio Peixoto, Martim remete-nos a Marte, o deus da guerra, símbolo da energia masculina, destruidora, conquistadora, bélica, sugerindo-nos o poderio do colonizador português em paragens inóspitas. Vejamos o que diz Lurker
Feições do alumbramento
A figura do guerreiro branco seduz Iracema, não no sentido da sedução intencional, deliberada, mas sim uma sedução sutil, diríamos natural, fruto do impacto e encantamento que o desconhecido exerce. Após dar ao estrangeiro a primeira prenda de seu contrariado amor - a haste da fecha que lhe feriu - oferece ao homem sua virgindade, seu segredo.
É interessante assinalar que Iracema vale-se de ´subterfúgios´, ´estratégias´, para seduzir o guerreiro. Franchetti (2006) diz que: (Texto XII)
Numa das passagens,
As dores de amores
A virgem de Tupã está consciente do papel social que desempenha para seu povo, mas isso não a impede de abandonar tudo e todos por Martim, o que nos sugere que em nosso passado histórico forjado nas letras o elemento estrangeiro dominou e conquistou o novo mundo pela paixão servil que inspirou. O estrangeiro mudou os valores da nação, engendrando na terra uma nova vida, pela qual Iracema pagou com sofrimento. Se Iracema abandona sua vida por amor, Martim, apesar de amar a virgem dos lábios de mel, ainda suspira por sua terra natal e, como suspeita Iracema, pela ´virgem branca´. No capítulo XXIV, Martim participa de um ritual, no qual ganha um novo nome - Coatiabo - o guerreiro pintado. Martim passa a levar em seu corpo as cores da nação, porém, é válido destacar com Silviano Santiago que esse ritual é superficial, restringindo-se tão somente à pele de Martim, uma vez que finalizada a cerimônia o português não assume a religião dos índios, nem tampouco muda seus gestos. O amor que a índia nutre pelo português é servil: (Texto XIII)
O trilho do sacrifício
A construção da identidade nacional em Iracema é marcada pelo sacrifício e sacrifício implica sofrimento. Iracema sofre. Martim sofre. É o que aponta Bosi em Dialética da Colonização: ´[...] a entrega do índio ao branco é incondicional, faz-se de corpo e alma, implicando sacrifício e abandono da sua pertença à tribo de origem. Uma partida sem retorno.´ Moacir, o primeiro cearense, aqui não permanece. E o narrador lança aos leitores a questão: ´Havia ai a predestinação de uma raça?´ O estrangeiro, após encanto inicial, é incorporado a terra - Iracema - deixando de ser elemento estranho e passando a constituí-la. Em Iracema, José de Alencar construiu poeticamente um passado em que a sedução do estrangeiro foi tão forte que arrebatou a virgem dos lábios de mel de seu povo, fazendo-a iniciar uma nova geração com Moacir, o filho da dor, símbolo dos primeiros brasileiros, frutoS do velho e do novo mundo: ´Tu é Moacir, o nascido de meu sofrimento.´ Desse modo, o guerreiro e a virgem dos lábios de mel são os personagens de um distante passado lendário, que se ancora a um passado real de uma nação que foi ´desbravada´ pela violência e construída mediante domínio. Mas tudo passa sobre a terra.
TRECHOS
TEXTO X
O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara. A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida; deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada. [...] - Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras..
TEXTO Xl
Na Astrologia [Marte] era considerado essência e símbolo cósmico do ainda hoje assim denominado ser ´marcial´ (agressividade, agudeza, dinamismo), provavelmente devido a seu brilho avermelhado ferruginoso [...] e seu aparente movimento retrógrado, dando a idéia de movimento autônomo. Na tradição astrológica Marte é considerado astro ameaçador (cf. ´Marte rege a hora´ no Wallenstein, de Schiller). Suas correspondências terrestres são, entre os homens, os violentos, os soldados e os carrascos; lobos, raposas e linces entre os animais. [...] A vesícula e órgãos genitais masculinos são atribuídos a Marte na medicina astrológica.
TEXTO XII
Iracema comete várias faltas contra o seu lugar religioso e contra a religião da tribo: ela profana o bosque, para lá levando o estrangeiro; profana o segredo da jurema, oferecendo o licor em situação não-prevista pelo ritual; profana o seu corpo de virgem consagrada; e, por fim, comete a profanação máxima, ao oficiar os ritos sabendo-se impura e, portanto, proibida de o fazer. Embora Martim também seja culpado de profanação, pois violou as regras da hospitalidade, da forma como as coisas se passam no romance cabe a Iracema toda a responsabilidade pelos atos que levarão ao seu afastamento da tribo e à perseguição de Martim.[...] É Iracema que surge como culpada de infração à sua lei, duplamente: por oferecer a Martim o licor sagrado e por entregar-se a ele, quando ele estava sob o efeito da droga e, portanto, sem condições de perceber a realidade do que acontecia.
TEXTO XIII
Desejava abrigá-lo contra todo perigo, recolhê-lo em si como em um asilo impenetrável. Acompanhando o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro e a apertavam ao seio. Mas quando passou a alegria de o ver salvo dos perigos da noite, entrou-a mais viva inquietação, com a lembrança dos novos perigos que iam surgir. - O amor de Iracema é como o vento dos areais: mata a flor das árvores, suspirou a virgem.