Iracema: a sedução do estrangeiro

 

 

 

Este ensaio visa, sobretudo, ao estudo da obra Iracema - Lenda do Ceará, romance do escritor cearense José de Alencar, publicada, pela primeira vez, em 1865, e que constitui um dos elementos-chave do Romantismo brasileiro. Sendo a obra de arte aberta, permitindo, desse modo, múltiplas leituras, um só caminho será delimitado, conforme o Texto I, em destaque. Iracema, Martim e os jogos de sedução são o motivo central dessa edição

 

O objetivo, pois, é o de analisar o encantamento e a sedução que o personagem Martim, português e cristão, representante do ´velho´ mundo, desperta sobre o elemento indígena, encarnado na índia tabajara Iracema, personificação da América, do Brasil, do ´novo´ mundo, exótico e misterioso, que se entrega com medo e desejo ao estrangeiro, sacrificando-se pelo amor, uma vez que a virgem do deus Tupã padece e, assim, prostra-se de saudades.

 

Nesse sentido, para a realização dessa empreitada, pontuaremos o caráter exótico da América, dissertaremos acerca do projeto estético-literário de Alencar e destacaremos algumas passagens do romance que julgamos relevantes para apontar a ´sedução´ do estrangeiro e a construção da identidade nacional. Julga-se importante elucidar que ao falarmos em sedução do estrangeiro não estamos afirmando que Martim seja o sedutor da narrativa alencariana, pois sabemos que esse papel de sedutora cabe à Iracema. Compreendemos o guerreiro, modelo de masculinidade branca dominadora, como um ´gatilho´ para as estratégias de sedução que Iracema exerce.(texto I)

 

A visão edênica

 

A América, continente desconhecido até início do século XVI, inspirava fantasias exóticas. Cristóvão Colombo, em suas Cartas, indica que os desbravadores não conseguiram, inicialmente, separar o americano do asiático. Acreditava-se na Europa que finalmente os homens haviam descoberto o caminho para a Índia. Ao passo que o novo mundo é conhecido, surgem produções intelectuais que intentam investigá-lo, impulsionadas pelo interesse de penetrar num universo primitivo, como a obra de Girolano Benzoni, intitulada A História do mundo novo, os Ensaios, de Montaigne, autor que se alimentou dos textos que versavam sobre a atração que a América exerceu sobre os habitantes do então velho mundo. Tal interesse é que Núñez, (1972) em O Elemento Latino-Americano em Outras Literaturas, aponta como o fenômeno de incorporação do elemento americano, consoante o fragmento: (Texto II).

 

A construção da identidade

 

O processo de independência política dos países latino-americanos no século XIX constitui um dos marcos transformadores da História, uma vez que alçou a América a um novo patamar. De inicial palco de aventuras pitorescas, nosso continente assume caráter actancial, pois não é mais somente fonte de inspiração ou um objeto passível de estudos científicos, mas também paisagem que quer se construir como nação, detentora de status identitário e discurso próprio, com dramas pertinentes e característicos de um mundo nascente. Neste contexto, o escritor romântico foi de importância fundamental à tentativa de afirmação do continente, ou melhor, para a audição da voz que emergia da América, para a retirada do véu que a encobria. Isso porque há no cerne do Romantismo o conceito de missão do escritor. O romântico não escreve por um impulso diletante, mas, sobretudo, em obediência a um destino maior, digno de um Prometeu, o herói civilizador, aquele que usurpou o fogo divino para dá-lo à humanidade. Vejamos o que diz Candido a respeito do conceito de missão: A contribuição típica do Romantismo para a caracterização literária do escritor é o conceito de missão. [...] para todos, a nítida representação de um destino superior, regido por uma vocação superior (p. 25b).

 

A visão épica

 

Moraes, (2005) em José de Alencar e a organização do campo intelectual do Segundo Império, faz uma reflexão acerca do quadro que se inscreve a partir de nossa independência política: (Texto III)

 

O projeto estético-literário alencariano estava imbuído do propósito de oferecer a nossa terra um passado histórico infiltrado de glória, romance e lances heróicos. Veja-se o Romantismo. Os primeiros ecos do movimento romântico em nossas letras coincidem com a ebulição sócio-histórica que a Independência política provocou em alguns setores da sociedade brasileira.

 

*SARA FORTE

 

Colaboradora

 

*Mestranda em Letras pela UFC

 

TRECHOS

 

TEXTO I

 

Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. [...] - Venho de bem longe, filha das florestas.

 

TEXTO ll

 

Nesta primeira fase da difusão do específico da América no mundo europeu, pode-se apreciar uma idealização inicial do elemento americano, com base em algumas notícias certas ou falsas, desconexas ou isoladas. Revela-se nesta idealização uma ânsia européia de superar sua própria realidade e forjar um mundo ideal na realidade distante, talvez uma espécie de refúgio contra suas próprias misérias e restrições. É a etapa em que paulatinamente se forja um conjunto de testemunhos sobre o elemento americano, que enriquece a curiosidade e o afã expansivo do homem europeu, mas em que o verossímil não cede ainda lugar ao real.

 

TEXTO llI

 

Na América Latina e, particularmente, no Brasil, os princípios da Ilustração e do Liberalismo condensaram-se, sobretudo, em torno dos movimentos independentistas. A necessidade de criar uma identidade brasileira foi a principal tarefa em que intelectuais e artistas investiram; acreditavam que tinham a missão de construir uma pátria pela arte, da ciência e da política. Era preciso descobrir valores que pudessem dar sustentação a essa identidade: a natureza, o índio, a idealização de um passado heróico mostram como as imagens brasileiras, podem ser entendidas como objetivação desse ideário.

 

FRASES

 

"Iracema é um esplêndido monumento da língua portuguesa, monumento que revela suas formas deslumbrantes no léxico, na sintaxe e no estilo. É, também, uma delicada e comovente história de amor e de rejeição".

 

José Hildebrando Dacanal

Ensaísta

 

"Ao chegarmos ao fim do romance-poema de Alencar, nos surpreendemos com a impressão de que elementos dispersos da paisagem conjuntamente com o quadro do desfecho da cão recompõem o seu painel de abertura".

 

José Aderaldo Castello

Crítico literário

 





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