Rachel de Queiroz: a imortal
Se estivesse viva, Rachel de Queiroz, neste ano, iria completar 100 anos de idade. Grande dama da literatura nacional, Rachel de Queiroz era uma mulher de fibra que quebrou muitos tabus. Um deles foi ter vencido o machismo da Academia Brasileira de Letras, sendo a primeira mulher a vestir o fardão dos imortais. Com apenas 20 anos, a escritora cearense - nascida em 17 de novembro de 1910 - projetou-se na vida literária do País, agitando a bandeira do romance de cunho social - O Quinze -, seu primeiro livro, profundamente realista na sua dramática exposição da seca. Seu último romance - Memorial de Maria Moura, traduzido para o inglês, francês e alemão - se tornou um best-seller e virou seriado de tevê de grande audiência. Tinha também veia poética, sendo a poesia "Telha de Vidro" uma das mais conhecidas dos leitores.
Mesmo famosa, com prêmios no exterior, nunca esqueceu as raízes sertanejas e sempre que vinha ao Ceará visitava sua fazenda "Não Me Deixes", a
Dividiu a sua carreira com dois casamentos e com a militância política. Casou-se, pela primeira vez, em 1932, com o poeta José Auto, mas não foi feliz e logo separou-se. Anos mais tarde, casou-se novamente com o médico Oyama Macedo, uma relação de 42 anos interrompida pela morte dele. Na política, durante os anos da repressão, foi militante de esquerda, tendo sido, uma vez, presa em Pernambuco como agitadora comunista.
Se na política levantou bandeiras, de outro lado, no feminismo nunca se afinou com o movimento das luluzinhas extremistas. Habilidosa na arte culinária, escreveu, em 2000, o livro "Não me Deixes - Suas histórias e sua cozinha", em colaboração com sua irmã, Maria Luiza, com receitas da gastronomia regional. Ela faleceu, dormindo em sua rede, no dia 4 de novembro de 2003, no Rio de Janeiro. Deixou, aguardando publicação, o livro "Visões: Maurício Albano e Rachel de Queiroz", uma fusão de imagens do Ceará fotografadas por Maurício com textos de Rachel de Queiroz. Ela se tornou literalmente uma imortal porque seu valioso legado literário será eterno.
Telha de Vidro
Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...
A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...
Agora, o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos, que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia no espelho onde a moça se penteia.
Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!