Patativa do Assaré

 

 

 

 

Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu numa pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, em 05-03-1909. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada. O fato de ter passado somente seis meses na escola não impediu que sua veia poética florescesse e o transformasse em um inspirado cantor de sua região, de sua vida e da vida de sua gente. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor "honoris causa" por universidades locais. Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que "para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento".

 

O Releituras junta-se às comemorações pelos 100 anos de nascimento do grande poeta cearense, falecido no dia 08/07/2002, aos 93 anos.

 

O texto acima foi extraído do livro "Ispinho e Fulô", editado pela Universidade Estadual do Ceará/Prefeitura Municipal de Assaré - 2001, pág. 182.

 

Uma aproximação da poesia popular

 

A denominação “poesia popular” foi muitas vezes associada a um certo número de representações negativas que a situam no lado da literatura menor por oposição à Literatura.  As conotações mais correntes que lhe são conferidas são aquelas das simplicidade dos temas abordados e das idéias tratadas, facilidade de versificação e banalidade das rimas, ingenuidade dos sentimentos expressos, falta de originalidade e de criatividade, pobreza de vocabulário, riqueza estilística limitada, simbólica indigente.  É nestes termos que Arthur Rimbaud (1854-1891) confessa seu interesse pela arte popular:  “Eu amava as pinturas idiotas, estofos sobre portais, cenários, lonas de saltimbancos, tabuletas, estampas coloridas populares; a literatura fora de moda, latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossas avós, contos de fadas, livrinhos infantis, óperas velhas, estribilhos piegas, ritmos ingênuos”.  Esta concepção se inscreve numa tradição romântica que compara o povo e a expressão artística e popular a uma imagem errônea visto que idealizada, à imagem de um povo bom, bonachão, trabalhador e virtuoso.  De sua parte, o escritor e filósofo alemão J.G. Herder (1774-1803), um dos teóricos do movimento romântico “Sturm und Drang”, havia defendido, tanto de um ponto de vista filosófico quanto literário, uma concepção da história segundo a qual os diferentes tipos de civilizações e de culturas seriam a expressão da alma popular, opondo ao ideal clássico — resultado do respeito a regras claramente enunciadas e respeitoso dos modelos da Antigüidade greco-romana — o gênio popular, expressão natural e espontânea.  A poesia popular, segundo ele, é “a obra anônima do Homem Natural, irmão histórico do Bom Selvagem: ela é a “Naturpoesia” Nesta idéia, já estava presente a aproximação que havia proposto Montaigne (1553 - 1592), persuadido de que o povo era capaz de se exprimir espontaneamente: “A poesia natural e puramente natural possui ingenuidade e graça, por onde ela se compara à principal beleza da poesia perfeita segundo a arte:  como se vê em vilarejos da gasconha e nas canções que se nos relatam sobre nações que não possuem conhecimento de ciência alguma, tampouco de escrita”.  Em outros termos, a poesia popular existiria ao largo de toda aprendizagem ou respeito às regras acadêmicas e apresentaria êxitos dignos de serem reconhecidos.

 

No contexto nordestino, é preciso recordar que a poesia popular inscreve-se na tradição oral desta região do interior:  um de seus principais agentes, o cantador, proveniente do meio rural, em geral analfabeto, improvisa ou narra, graças à sua memória prodigiosa, “a história dos homens famosos da região, os acontecimentos maiores, as aventuras de caçadas e de derrubas de touros, enfrentando os adversários nos desafios que duram horas e noites inteiras, numa exibição assombrosa de imaginação, brilho e singularidade na cultura tradicional”.  A versificação utilizada, em geral a sextilha hexassilábica ou a décima heptassilábica de rimas contínuas, parece mais ser a expressão de uma técnica de memorização do que a expressão de uma forma poética erudita, a serviço da transmissão de um “saber simbólico: ciência, cultura popular, tradição”.  Daí, a escansão dos poemas propriamente é muitas vezes surpreendente pela sua falta de preocupação expressiva: “Nenhuma preocupação de desenho melódico, de música bonita.  Monotonia.  Pobreza.  Ingenuidade.  Primitivismo.  Uniformidade…  Não se guarda a música de colcheias, martelos e ligeiras.  A única obrigação é respeitar o ritmo do verso”.  A declamação se atém ao essencial: a narrativa dos acontecimentos.

 

Patativa do Assaré, um poeta da oralidade

 

Na condição de herdeiro da tradição nordestina, os primeiros esboços da obra de Patativa do Assaré, improvisações e encomendas, conforme ressaltamos, são marcados pelo aspecto lúdico e comemorativo:  poemas de circunstância, ligados aos acontecimentos sociais, religiosos, em relação direta com o presente, únicos e efêmeros:  festas de Santos, casamentos, aniversários.  Poesia improvisada a partir de um esboço tradicional, poesia repetitiva por suas formas e temas, personalizada em função de seu destinatário.  Poesia declamada ou cantada, ela participa plenamente da vida da comunidade: “age falando, cantando, representando, dançando no meio do povo, nos terreiros das fazendas, nos pátios das igrejas nas noites de “novena”, nas festas tradicionais do ciclo do gado, nos bailes do fim das safras de açúcar, nas salinas festas dos “padroeiros”, potirum, ajudas, bebidas nos barracões amazônicos, espera de “Missa do Galo”; ao ar livre, solta, álacre, sacudida, ao alcance de todas as críticas de uma assistência que entende letra e música, todas as gradações e mudanças do folguedo” .  Convém ressaltar que Patativa do Assaré entregando-se sempre a este gênero de improvisações, uma parte importante da obra não foi nem será, nunca portanto, transcrita.  Este aspecto efêmero e circunstancial é, com efeito, uma das características da poesia oral tradicional.

Quando se descobre a transcrição dos poemas de Patativa do Assaré, o primeiro elemento determinante da oralidade da obra é o recurso sistemático do emprego de uma língua falada, que retoma o estilo e a pronúncia popular, a saber, a utilização do que José Arraes de Alencar definiu como a língua cabocla: “a linguagem sertaneja, de tonalidade própria, fértil em metafonias e metáteses, avessa aos esdrúxulos, com freqüente abrandamento ou amolecimento e vocalização de consoantes e grupos consonantais, com a eliminação das letras e fonemas finais”.  Assim, os primeiros versos de Coisas do meu sertão são transcritos conforme seguem:

 

“Seu dotô que é da cidade                                       

 

 por   “Senhor Doutor que é da cidade

 

Tem diproma e posição

 

Tem diploma e posição

 

E estudou derne minino   

E estudou desde menino

 

 

Sem perdê uma lição”

 

Sem perder uma lição”

 

Conclusão

 

O que faz a força e o sabor da poesia de Patativa do Assaré é, sem dúvida, este vínculo indestrutível entre o poeta, o sertão e o público.  O canto só pode nascer da repetição do quotidiano, com seu labor, suas alegrias e sofrimentos.  O canto só pode ser plenamente compreendido por aqueles que comungam desse quotidiano e dessas mesmas experiências.  Testemunhando a afeição com que é tratado pelos habitantes do sertão que vêm visitá-lo e que pedem que lhes recite o seu poema preferido; o sucesso que ele encontra durante suas excursões e, notadamente junto às comunidades sertanejas do Sul; os cordéis escritos em sua homenagem, prova irrefutável de que ele se tornou , por sua vez, um personagem-chave do Panteão nordestino. Patativa do Assaré é um poeta popular que, mesmo se no início cantou o sertão de forma essencialmente nostálgica e lírica, tomou consciência das possibilidades de mudança e do impacto que podia ter a sua voz.  Embora sendo recebido pelos responsáveis políticos e honrado por sua obra, ele não cessa de lhes recordar a realidade de onde ele extraiu a sua principal fonte de inspiração.  Uma de suas maiores preocupações é um futuro melhor para as gerações que virão.  Este objetivo não pode ser alcançado sem passar por uma melhor educação e Patativa do Assaré vê no livro o seu auxiliar indispensável: “É por meio da leitura Que poderá a criatura Na vida desenvolver, O livro é companheiro Mais fiel e verdadeiro Que nos ajuda a vencer”(Ao meu afilhado Cainã).  É notável que aquele que representa hoje a tradição oral da forma mais monumental, sonhe em continuar sua ação através da tradição escrita: sinal dos tempos, evolução das tradições?  Pesquisadores e universitários têm lamentado, há alguns anos, o fim da literatura de cordel, avaliando que este modo de transmissão de conhecimentos não resistirá mais diante dos novos meios de comunicação.  Talvez fosse preciso formular diferentemente o problema diante do lugar ocupado por Patativa do Assaré:  herdeiro de uma forte tradição logrou transformar seu papel e sua mensagem. O que é, sem nenhuma dúvida, o objeto de uma evolução, é a função do poeta popular e não sua arte propriamente dita.

 





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