Giselda Medeiros: marcas de um lirismo

 

 

 

Em Ânfora de Sol a poetisa Giselda Medeiros não só confirma a legitimidade artística de sua poesia, já alcançada em livros como Alma Liberta (1986), Transparências (1989), Cantos Circunstanciais (1996) e Tempo das Esperas (2000), mas aprimora seus dotes de criadora e aprofunda sua mensagem

 

Isso ocorre apesar de, no presente livro, a autora desenvolver quase um só sentimento, o da solidão postulante ou da ansiosa disponibilidade para um ser amado sempre esperado e que, embora lhe alimentando a paixão, foge e refoge constantemente.

 

Inclinando-se para a elegia, a poesia de Giselda Medeiros segue a linha do sofrimento amoroso de uma Florbela Espanca e lembra em alguns aspectos a suavidade do poetar de uma Cecília Meireles, mas sempre mostrando a necessária criatividade, portando uma imagística criativa e impregnando-se de uma sensualidade entre contida e instigante. Encontra-se nessa poesia a construção de um "claro enigma", em que o hermético não se instaura, pois a autora acena com pistas clarificadoras de um sentido subjetivo. A dor causada por adversidades opõe-se, entre os versos, ao prazer amoroso, sempre implícito, pois esse apenas se vislumbra como desejo tormentosamente irrealizado.

 

Léxicos recorrentes

 

A linguagem dos poemas apresenta-se, em geral, verdadeiramente poética, deixando transparecer um eu lírico amadurecido no domínio artístico e na experiência existencial. Na construção dos versos encontra-se aquela riqueza conotativa que Paul Valéry classifica como "festa do intelecto", mas de modo que a consciência apolínea do fazer artístico não elimina a força da intuição nem anula a possibilidade de detectar-se, aqui e ali, a presença do onírico e do simbólico em camadas mais profundas da escritura esporadicamente tuteladas pelo dionisíaco. Disso tudo se apura uma visão do mundo formadora de um estilo, cujas palavras recorrentes seriam as seguintes: "medo", "silêncio", "azul", "paisagem", "espelho", "espinho" e "miragem". Esses Leitmotive revelam, respectivamente, contenção, distância inacessível, contemplação do ambiente, reflexão sobre si mesma, dor moral e desejo ilusório.

 

A disponibilidade amorosa do livro encontra-se a partir do título Ânfora de Sol, sintagma altamente expressivo, espalha-se por muitos textos, fixando-se de modo mais significativo em pontos como na última estrofe de "Instabilidade", em que a poetisa sente-se: (Texto I)

 

Ocorre no poema "Deixarei que me busques", em que o amado é esperado "como um cão a farejar-me o exercício dos dedos ardendo em círios de desejos"; no soneto "Doação", em que a autora, em seu "crisol", deseja "aprisionar-te o gesto de carinho com que te vi olhar o passarinho a voejar por sobre o girassol"; e na composição "Deuses do som", em que, sob um clamor à Cecília Meireles, escreve: "Apressa-te, pois, amor, que amanhã já é inverno". Esse último poema citado termina com a pretensão poética de, por sentirem-se endeusados, os amantes atingirem a singularidade no amor: "seremos deuses do sonho que os homens tolos da terra vivem doidamente a imitar."

 

Não admira que, revelando-se Giselda Medeiros uma poetisa com domínio pleno da técnica da arte poética, apresente em sua poesia uma abundância de conotações e de alusões mitológicas e de textos metapoemáticos, tudo dentro de uma coerência de dicção e sentimentos atuais. Assim é que "Madrugadas e Crepúsculos", parecendo a leitura de quadros representativos dessas situações da Natureza, constitui uma sucessão de apóstrofes prosopopéicas: (Texto II)

 

E vários poemas são alegorias como: "História", "Nuvem de Sândalo", "Horas Líquidas", "Cântico Outonal" e "Motivo III". Como metapoemas, textos que mais precisamente mostram consciência do fazer poético, contam-se "Conteúdo e Continente", "Canção Extraviada" e "Canção Póstuma", além de vários textos da parte denominada "Lições de Solidão", que trazem o subtítulo de "Motivos".

 

Fonte - DN





Exibir todas as matérias.