O professor de idiomas

e o pensamento nacional

 

 

A incapacidade de anotar as aulas provém da incapacidade de entender e resumir o que ouvem. E isso é um grave problema de língua. Eles não sabem pensar, não sabem articular as idéias porque não têm língua. Eles podem até, em certos momentos, perceber algo que se assemelhe a uma idéia, mas são incapazes de dar corpo a ela. "A idéia busca a forma", diz o poeta; mas essa forma não existe, porque não existe a palavra, isto é, o logos, que é o pensamento feito palavra. Se não há palavra, logos, não há idéias, não há pensamento. Pensa-se com palavras, mas não com palavras desarticuladas, com expressões soltas, com "sintagmas", como se costuma dizer.

A propósito, queremos lembrar aqui um trecho da famosa entrevista dada por Guimarães Rosa a seu amigo Lorenz, em l965, em que ele diz: "Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. Devemos conservar o sentido da vida, devolver-lhe esse sentido, vivendo com a língua. Deus era a palavra e a palavra estava em Deus. Este é um problema demasiado sério para ser lançado nas mãos de uns poucos ignorantes com vontade de fazer experiências (o grifo é nosso). A língua serve para expressar idéias; mas a língua corrente expressa apenas clichês e não idéias; por isso está morta e o que está morto não pode engendrar idéias".

Guimarães Rosa nos revela aqui o sentimento profundo que tinha de que a língua é algo orgânico, vivo, que se elabora, que "engendra idéias". É a relação pensamento-palavra, ou noûs-logos do Evangelho de João; theós-logos, logos-theós.

A língua se vive e se ela se vive ela renova o mundo, o nosso mundo, como renovou constantemente o mundo de Guimarães Rosa.

Mas o que Guimarães Rosa chama de "língua corrente" não são os falares locais, as variantes do idioma nacional, expressivas, significativas, que ele conheceu tanto e que incorporou em suas obras. A "língua corrente" de que ele fala é uma mistura da "língua falada" muito na moda atualmente e o que podemos chamar de "comuniquês", que chega aos olhos e aos ouvidos pelos meios de comunicação.

Esse "comuniquês", veiculado pela televisão, pelas revistas especializadas em diversos esportes "radicais" da moda e sobretudo pelas letras simbólico-surrealistas das bandas e dos cantores de rock e assimilados, seria essa "língua corrente", que fala por clichês, que invade subliminarmente as cabeças de nossos jovens e os torna sem palavras, sem língua, sem idéias.

Basta presenciar um "diálogo" entre membros das inúmeras gangues e "tribos" que povoam nossas cidades. A desarticulação é total: são clichês superpostos, gestos simbólicos, trejeitos dos músculos da face e da boca, sons monossilábicos. Lembram muito a desarticulação gráfica dos pichadores que desfiguram nossas casas, nossos monumentos, nossas cidades. Tenho para mim que esses atos de vandalismo são expressões de cabeças vazias, de cabeças sem palavras, sem idéias, sem pensamento, portanto, sem articulação com o que existe, porque não compreendem o mundo em sua volta e não podem renová-lo. Se observarmos bem, poderemos ver nesses gestos e nessas atitudes uma ausência total de vínculos com o grupo familiar, com a sociedade, com a polis, com a nação a que pertencem. São incapazes de viver na polis.

Mas eu não estou fazendo um libelo condenatório contra os jovens. Seria ilógico. Seria condenar os efeitos e não as causas. Eles são vítimas do abandono da escola. Se a sociedade oferecesse escola em tempo integral a esses jovens, uma escola em que tivessem as aulas, fizessem seus deveres escolares e exercessem as práticas desportivas, todos os atos de vandalismo, a criminalidade infantil e juvenil, a prostituição infantil, a escravidão infantil, o tabagismo, o alcoolismo, o consumo de drogas se reduziriam a níveis próximos de zero. E seria muito mais barato para a sociedade, que gasta milhões para recuperar jovens criminosos e viciados.

Mas o jovem que voltasse para casa depois de uma jornada de oito horas de trabalho na escola voltaria cansado e feliz por ter transformado em ato positivo todas as suas energias e potencialidades e não teria nenhuma vontade de ficar vagando pelas ruas, em bandos, descarregando em atos inúteis de vandalismo suas energias e frustrações.

Língua e pensamento

Bem, a abordagem que fiz até agora foi a da constatação de um problema social, que, como disse, é efeito e não causa.

E a causa é a escola. O jovem não tem língua porque não pensa e não pensa porque não tem língua. E se não tem língua e só tem clichês é porque não tem tradição, não tem cultura, não tem referências, não tem raízes. E onde ele poderá buscar tudo isso? Exatamente no pensamento nacional, na língua nacional. Nos textos dos autores nacionais. E é isto que nos faz falta.

Eu poderia até começar pela pré-escola, com as cantigas infantis. Sei que se cantam algumas delas, mas poucas, e cedem lugar às dos filmes de Disney. Creio que a pré-escola deveria aboli-las porque elas são ouvidas e vistas em casa com os programas locais de TV e por assinatura. É o início da globalização, mas a globalização deve respeitar a identidade nacional. E a língua nacional é a maior arma para isso. Os filmes em vídeo e os videogames desnacionalizam a criança. Ela não diz um jogo, mas um game, que é um substituto de rótulo ou de bula de remédio, ou legendas de filmes traduzidas com tanta incompetência. Nesses filmes de desenho animado dublados em português a criança ouve em português frases na ordem do inglês. É uma espécie de leitura esquizofrênica.

Poderíamos recuperar as fábulas, não só as tradicionais e bem traduzidas (Monteiro Lobato, por exemplo), mas as nacionais, muitas delas publicadas por escritores regionais, em que se recuperaria o folclore nacional, como as de Sílvio Romero e Luiz da Câmara Cascudo, entre outros. Lendas indígenas também são língua nacional; são identidade nacional.

Passemos para os programas do primeiro e segundo graus.

Não vamos fazer uma análise pormenorizada dos programas do primeiro grau. Ele encontra o que nós todos já sabemos: o enfoque lúdico do aprendizado; os métodos todos se preocupam em "amaciar" esse aprendizado, com exercícios, quando existem, os mais fáceis possíveis.

E começam a passar-lhes informações e "regras gramaticais" do que é certo e do que é errado, do que é substantivo, do que é adjetivo, e de todas as categorias gramaticais. Como se faz o plural dos nomes, o aumentativo, o diminutivo, os graus de comparação etc.

E vêm as regras de acentuação. Não há necessidade de explicá-las, nem por que existem os acentos. E a crase. O que é crase? E as funções do "que"; e os sons do "x"? E as conjunções subordinativas? E as conjunções coordenativas? O que são? Para que servem?

E, a partir da quinta série (primeiro ano ginasial antigo), a cada ano o programa repete as mesmas questões. Os programas são praticamente os mesmos. Finalmente o aluno recebe o certificado do segundo grau. E vem o cursinho. Esse resume tudo: primeiro e segundo graus em um ano só. Que mágica!

E vem o vestibular. Tenho uma experiência de mais de vinte anos, ora corrigindo as provas pela Fundação Carlos Chagas, como corretor e sobretudo como coordenador das correções de redação; ora sendo banca de português da Fuvest, ora sendo vogal (corretor) das provas de redação da Fuvest. Um trabalho duro. Extenuante. Redações péssimas. Sem pé nem cabeça. Fora do tema proposto. Frases sem nexo. Desarticuladas.

Mas, em 1989, aconteceu um fato significativo. A USP constituiu um grupo de trabalho para reestruturar o vestibular. Fui indicado para compor o subgrupo do exame de português.

Ao analisar o programa de português para o segundo grau, que ia ser implantado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, não encontrei uma só referência de leitura obrigatória dos chamados "textos clássicos". Ao cobrar isso da responsável pelo programa, ela respondeu: "Não adianta colocar, porque o vestibular não pede". Respondi-lhe de imediato: "Não seja por isso. Vamos cobrar esses textos no vestibular". E, imediatamente, fiz ao subgrupo a proposta, que, com alguma resistência, foi aceita.

Bem, isto vai fazer dez anos. A USP, por intermédio da Fuvest, passou a exigir a leitura de oito a dez obras para o vestibular. Imediatamente a Unicamp e a Unesp passaram a exigir o mesmo. E o resultado não se fez por esperar. Durante os quatro primeiros anos, por coincidência, fiz parte da banca de português da Fuvest e da equipe de corretores. Os resultados começaram a aparecer. Tanto nas provas de língua e literatura quanto na redação.

Durante cinco anos fiquei ausente das provas de vestibular. Ao ser convidado novamente, em janeiro de 1998, para participar da Fuvest como corretor, senti uma mudança fundamental. As redações passaram a ser mais coerentes, mais coordenadas, mais inteiras. O número de provas em branco se reduziu a 1% ou 2%. Todos tinham alguma coisa a dizer.

A mudança, que já foi sentida nos primeiros anos, agora é nítida. Tanto na redação quanto nas respostas às questões de língua e literatura. E também nas respostas às questões de geografia e de história. Ao colocar as questões aos professores de geografia e de história, todos foram unânimes ao afirmar que as provas mudaram muito, para melhor. E, ao informar-lhes sobre a proposta da leitura obrigatória de obras literárias em língua portuguesa, todos concordaram que era esse o motivo.

Eu não tenho a menor dúvida a esse respeito. Os alunos passaram a pensar melhor no que diziam; as frases eram mais bem construídas, mais coerentes, mais inteiras, mais compactas. Diziam coisas com coisas. O vocabulário era mais adequado ao tema proposto; mais claro, mais coerente.

O exemplo dos gregos

Façamos uma incursão ao século 5 antes de Cristo, em Atenas, e entremos num texto de Platão, no diálogo Protágoras, que eu traduzo. Protágoras diz o que o menino ateniense começa a aprender quando sai do âmbito familiar. Não vamos tratar disso com pormenores. Não é o tema deste trabalho. Mas não podemos furtar-nos a reproduzir a fala de Protágoras, quando explica a Sócrates a função da educação:

"Começando desde a tenra infância até o fim da vida [os pais] ensinam e exortam.

Assim que uma criança compreenda o que é dito, tanto a ama, quanto a mãe, o pedagogo e até o próprio pai discutem a respeito dele, de modo a que o menino seja o melhor possível; a cada gesto, a cada palavra eles dão lições, demonstrando que 'isto é justo, aquilo é injusto, isto é bonito, isto é feio e que isto é permitido, aquilo é proibido e faz isto, não faças aquilo'. E se não obedece de boa vontade, eles, com uma vara torta e curva, o endireitam com ameaças e com pancadas.

Depois disso, ao enviá-lo à escola, eles têm em vista o cuidado do bom comportamento das crianças mais do que o cuidado com as letras e com a cítara. Os mestres se encarregam dessas coisas e quando, por sua vez, as crianças entendem as letras e passam a entender os escritos, como antes a fala, eles, os mestres, dispõem sobre as carteiras para ler os poemas dos bons poetas e os obrigam a aprender de cor aqueles nos quais se encontram muitos preceitos, muitas digressões (narrativas), muitos conselhos e muitos elogios dos homens antigos bons, a fim de que o menino, por emulação, os imite e procure tornar-se igual a eles.

Os citaristas, por sua vez, empreendem outras coisas desse tipo; eles se preocupam com a moderação e para que os jovens não se dirijam para o mal. Além disso, quando os meninos aprendem a tocar cítara, eles ensinam poemas de outros poetas bons, os líricos, acordando-os ao som da cítara e condicionam as almas dos meninos a se habituarem com os ritmos e com a harmonia para que eles sejam mais calmos e para que, tornando-se mais bem ritmados e mais harmoniosos, eles se tornem aptos para a fala e para a ação; pois toda a vida do homem precisa de bom ritmo e de harmonia."

Pelo que se vê, a língua era aprendida nos textos e pelos textos.

Essa passagem de Protágoras nos dá ainda outra idéia: o menino ateniense, depois de aprender muitos textos dos poetas épicos (Homero e Hesíodo) e dos poetas líricos, que eram de toda a Grécia, ao passar para as aulas de ginástica não é mais um menino ateniense; ele é um menino grego! A unidade da Grécia, desde o Ponto Euxino até Marselha, e mesmo às Colunas de Heracles, se fez pela língua. Os Jogos Olímpicos, a cada 50 lunações, eram a expressão dessa Grécia. Foi essa a "gramática" de Platão, Aristóteles, Lísias, Demóstenes, Górgias e outros.

Mas a gramática pensada para os estrangeiros passou também a ser empregada nas escolas, e os meninos do período alexandrino, aos poucos, passaram a ter que aprender, além dos textos dos poetas, também as regras de gramática. É essa a origem da gramática descritiva e impositiva, prescritiva. Ela se manteve intocável durante séculos, até agora mesmo. Como exemplo poderíamos citar Konstantinos Laskaris, um dos intelectuais bizantinos que emigraram para Nápoles por ocasião da tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453. Convidado por um nobre milanês para ensinar a língua grega para suas filhas, escreveu uma gramática, em 1476. A base dela é a de Dionísio Trácio, com alguns acréscimos, mas sem aprofundar nada. Até os paradigmas são os mesmos.

É o primeiro ponto importante. A gramática da língua grega foi construída não para os gregos aprenderem a língua grega, que a aprendiam pelos textos, mas para os bárbaros aprenderem a língua grega. É essa a origem da gramática expositiva, descritiva, prescritiva.

Mas os gregos não aprendiam a língua assim. Eles a aprendiam nos textos, nos melhores textos, de todas as épocas, de todas as regiões onde se falava a língua grega. Aprender grego era saber extensos trechos, cantos, da Ilíada e da Odisséia, da Teogonia, de Os Trabalhos e os Dias, em dialeto jônico, em dialeto jônico-eólico, no dialeto dórico de Píndaro. Não perturbava o menino ateniense que ouvia os discursos de Demóstenes, de Lísias, de Isócrates; que ouvia as tragédias de Ésquilo, de Sófocles, de Eurípides; que ouvia as comédias de Aristófanes.

Essas variantes dialetais não conseguiam ofuscar o brilho da unidade da língua grega, da unidade do pensamento grego.

Mas, e isso é importante: não é a língua grega falada, que é passageira, contingente, limitada, que fala por clichês. O que fez a unidade do pensamento nacional grego foram os autores, foram os seus textos que geraram idéias e não a língua corrente, a língua falada, que está morta, segundo Guimarães Rosa. Eu diria mais: ela é natimorta, na medida em que não tem continuidade, na medida em que é contingente, limitada no tempo e no espaço, enquanto duram certos modismos e opções.

E para terminar, gostaria de transcrever um poema de um dos maiores poetas da língua portuguesa, na expressão brasileira: Carlos Drummond de Andrade, com toda sua ironia, vociferando contra os que transformam a língua portuguesa em mero laboratório de experiências, complementando o que disse Guimarães Rosa.

ala-se muito da má qualidade do ensino do português, da má formação dos alunos que recebemos nas universidades e da péssima expressão em português de nossos executivos. O nível de leitura e de entendimento dos textos dos nossos alunos é sofrível ou ruim. Os alunos têm dificuldade de acompanhar nossas aulas; não têm o costume dos estudantes europeus de terem um caderno para cada matéria e acompanharem as aulas com o caderno aberto e lápis na mão. Confiam exclusivamente na memória, que não é cultivada, e, depois, nas apostilas confeccionadas pelos professores ou alunos mais espertos.

 





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