A prática de Yoga pode ter riscos? Professor desmistifica o assunto

 

 

 

Muitas pessoas confundem e relacionam o Yoga à prática de uma atividade física, principalmente no Ocidente, onde ele está associado à prática das posturas (asanas). No entanto, o Yoga é um complexo cultural e filosófico que envolve o praticante como um todo, conduzindo-o na direção do sagrado e da união do ser individual com o ser universal.

 

"Para atingir o seu objetivo, o Yoga utiliza técnicas de meditação, exercícios de respiração, posturas, o estudo de textos sagrados, o autoestudo, rituais, etc. Dessa forma, as posturas representam menos do que a ponta do iceberg do Yoga, mas para muitos, infelizmente, a parte é tida como o todo", opina o especialista em Fisiologia do Exercício, Rui Ferreira Afonso.

 

Da mesma forma que os riscos de uma atividade física dependem de como ela é feita, as posturas também, afinal o corpo é usado como instrumento e, por isso, estamos sujeitos às suas leis. Porém, em geral, os riscos de uma atividade física são muito baixos e, no caso do Yoga, eles são menores ainda.

 

"Algumas linhas de Yoga, como o Ashtanga Vinyasa Yoga, são mais vigorosas e intensas. Portanto, se feita sem critério, pode, sim, gerar lesões. No entanto, há princípios que protegem o praticante e as posturas devem ser feitas levando-se em consideração o conforto e a estabilidade, sendo que não há busca pela performance", explica Rui.

 

 

 

No corpo humano, existe uma série de princípios básicos que devem ser considerados, como os anatômicos, os fisiológicos e os biomecânicos. Ao ensinar as posturas, além dos princípios do próprio Yoga, os princípios básicos que regem as articulações, os músculos e os sistemas do corpo também são muito importantes, o que minimiza os riscos.

 

Riscos do Yoga são relatados em livro

 

Muito se fala sobre os benefícios do Yoga para o corpo e para a mente, porém não são todos que concordam com isso. Em sua obra "Moderna Ciência do Yoga - Os Riscos e as Recompensas", o autor William Broad traz uma espécie de "Lado B" do assunto e expõe alguns riscos que ele pode trazer para a saúde.

 

Chamado por muitos profissionais do meio de "inimigo número um do Yoga", William traz em seu livro relatos bastante sérios de lesões em todo o corpo e que teriam sido causadas pela atividade. O mais impressionante desses relatos é o de uma mulher de 28 anos, que teria tido um acidente vascular cerebral após executar a postura do arco elevado.

 

Por não gostar de literatura sensacionalista, Rui Afonso revela que não leu o livro, mas que tomou conhecimento do caso por uma reportagem. Para o especialista, houve exagero em alguns dos relatos apresentados, pois, quando algo novo e inusitado acontece, normalmente os pesquisadores e as equipes médicas investigam e publicam como um relato de caso, o que não ocorreu desta vez.

 

 

 

"Em anos de experiência, é a primeira vez que ouço um caso de AVC relacionado à prática. E, mesmo assim, me faltam elementos para saber se, de fato, o AVC foi devido à postura. Porém, a princípio, a postura do arco elevado não tem nem compressão nem extensão da coluna cervical que possa justificar tal acidente", destaca Rui.

 

No livro do autor americano, há também relatos sobre as chamadas "posturas perigosas" que seriam responsáveis por lesões. No entanto, para o especialista, o verdadeiro foco da questão deve ser a atitude perigosa, pois essa sim pode ser decisiva. "Por si só, as posturas não causam lesões, mas a forma com que se pratica, sim, pode causar danos aos praticantes", ressalta.

 

Para esclarecer definitivamente sobre o assunto, o educador físico trouxe respostas para algumas das dúvidas mais freqüentes.

 

Dúvidas freqüentes

 

Quais riscos reais o Yoga pode oferecer?

 

Para que haja uma lesão durante a prática, uma série de situações deve se suceder, desde a não observação dos preceitos do Yoga até a má orientação ou o excesso de repetições ou alta intensidade. Nesse caso, há o risco de contusões, estiramento muscular ou distensão e entorses. Há casos em que essa lesão pode ser provocada. Por exemplo, na postura de lótus, se não há flexibilidade suficiente no quadril e o praticante insiste em cruzar as pernas, pode haver lesão de menisco. Em outros casos, em posturas com flexão de quadril, se há também flexão da coluna lombar com carga, pode haver compressão de disco. Se o sujeito já tem uma hérnia, pode-se dar o início a uma crise.

 

O Yoga é contraindicado para algumas pessoas ou pode ser praticado por qualquer um?

 

Há uma frase famosa de um grande professor de Yoga, que eu compartilho: "Se você tem um corpo, então o Yoga é para você" (B.K.S. Iyengar). Não há contraindicações para a prática de Yoga, e sim, dependendo do problema ou limitação, a contraindicação vale para algumas posturas ou algumas formas de se fazer certas posturas. Por exemplo, pessoas com hérnia na coluna não são impedidas de praticar, mas fazem as posturas com um cuidado a mais em função desse problema. Particularmente, já dei aulas para pessoas com amputação de membros, paraplegia, deficiência visual. Se o cadeirante não pode ficar em pé, não há problemas. As posturas podem ser adaptadas, no chão, por exemplo. Não só as posturas, mas podemos explorar outras técnicas, como respiração e meditação. Aliás, o mesmo professor da citação anterior desenvolveu um método muito interessante de se praticar as posturas. Considerando que o corpo humano pode apresentar limitações, ele criou uma série de acessórios (blocos, cintos, cadeiras, etc.) que pudessem facilitar a execução das posturas. Hoje, existem programas de Yoga em hospitais, onde os pacientes fazem as técnicas no leito.

 

 

 

Quais recomendações você pode dar para as pessoas que ficaram assustadas com as lesões e problemas mais graves que poderiam ser causados pelas posturas do Yoga?

 

Nós temos mecanismos de proteção natural que avisam quando um problema ou uma lesão está prestes a acontecer, como a sensação de dor. Se pensarmos bem, a dor é um sinal de aviso que protege o praticante. Há também outros mecanismos de proteção mais subjetivos e o bom senso é um deles. Certamente, as situações que levaram as personagens do livro a se lesionarem foram muito singulares. Além do mais, me parece sensacionalismo e vários professores comentaram que nunca haviam presenciado tais lesões. Não só minha experiência, mas de vários colegas, mostra que são raros os acidentes durante a prática. Aliás, há uma frase que faz muito sentido neste contexto: "Os acidentes não acontecem, são provocados". Por isso, ouça o seu corpo. As informações que surgem durante a prática são importantes para que você possa se proteger e praticar com o máximo de segurança. Assim o Yoga cumpre com um dos seus papéis: conduzir o praticante a um estado melhor, mais pleno.

 

 

Fonte – Idmed

 

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