A Praça de Messejana

 

 

 

A praça é do povo como o céu é do condor, já dizia Castro Alves, poeta baiano que aos 24 anos, passou para o andar de cima. Na Grécia Antiga, as pessoas se reuniam na “ágora”, que é como eles chamavam a praça, para discutir problemas cotidianos e de Estado, contar histórias ou simplesmente colocar as fofocas em dia.

 

A instituição praça é secular, um pólo de convergência e interação, um dado social da maior relevância.

 

Curiosamente, as catedrais e igrejas matrizes sempre se situam nas praças. O ritual é sempre o mesmo-a missa e os rituais religiosos sempre ensejam encontros e articulações para o andamento da vida social.

 

Como desdobramento as feiras e mercados sempre se instalam nas praças, que levam até o nome afetivo de pracinha.

 

A PRACINHA DA MESSEJANA

 

A Praça Tristão de Alencar em Messejana chegou a ser uma vitrine exposta de agilização da vida social messejanense. Em tempos mais tranqüilos, décadas atrás a Praça da Messejana se transformava em uma imensa sala de visitas na qual todos conviviam como uma imensa família. As cadeiras ficavam postas nas calçadas ao redor da pracinha, de modo que praticamente cada casa tinha a sua roda de cadeirinha.

 

Enquanto isso na praça da igreja, os mais jovens se reuniam sentados nos degraus do patamar da igreja, ou então conversavam no pátio onde desfilavam as meninas devidamente arrumadas para a missa, ou então para algum evento posterior. O cheiro de perfume evolava no ar, como contraponto do bater do sino, e juntamente com a voz do sacerdote na amplificadora, compunham as marcas sensoriais impressas na lembrança de quem viveu o clima de uma pracinha tranqüila, aconchegante e sem sobressaltos, caracterizada pela expectativa da presença amiga.

 

A verdade é que todo mundo monitorava afetivamente todo mundo, a convivência era a tônica, ver gente era mais importante.

 

Após a missa, se combinava o evento da noite, uma tertúlia, um aniversário, uma festa no Balneário, ou que fosse.

 

Na outra ala da praça, se instalavam as quermesses, de modo que os badalar dos sinos da igreja faziam contraponto com a música da amplificadora, compondo assim a trilha sonora da pracinha. Todo era tranqüilo, convidativo e acolhedor. Ir a pracinha era o evento, e quando as pessoas se recolhiam o recanto ficava silencioso e solene com o farfalhar das folhas das mangueiras a dialogar com o vento, substituindo assim os sons rotineiros das horas de vigília.

 

O TOQUE DE RECOLHER DA TV

 

A influência crescente da televisão na vida das famílias foi tirando as cadeiras das calçadas, dando assim também o toque de recolher nas pracinhas.

O papo amistoso deu lugar ao silencio diante da telinha, a expressão atenta e receptiva deu lugar ao olhar hipnotizado diante da nova e fascinante mídia.

 

Mesmo assim, a pracinha da Messejana, no caso, ainda resistiu por muito tempo como reduto de convivência, acontece que a própria tecnologia se tornou um convite insistente ao sedentarismo.

 

A emergência de opções domésticas de lazer como vídeos e computadores com internet, passaram a criar uma via mais individualista para se passar o tempo. A rede virtual foi tirando o homem moderno, principalmente os mais jovens, das rodas de bate papo, para as telas brilhantes dos computadores, e o contato virtual passou a ser um dado novo no relacionamento das pessoas, como que criando uma nova e imensa pracinha eletrônica.

 

Outro dado preponderante na diluição das pracinhas tem sido a violência, criando assim o medo crônico de conviver, transformando o próximo em uma ameaça em potencial.

 

Encontrar gente na rua em horas ermas passa a ser um evento de risco, transformando assim o outro em motivo de paranóia pura e simples. Um ser humano que se encontrava antes era a possibilidade viva de uma nova amizade, hoje a desconfiança generalizada transformou as pessoas em ilhas cercadas por muralhas de medo e insegurança.

 

A praça como centro de convivência surgiu de um estado de espírito que se dissolveu na barbárie de uma sociedade de contrastes angulares e radicais.

 

Hoje a televisão e o medo transformaram as praças dos centros urbanos em espaços solitários e sombrios, rodeada de domicílios que cada vez mais se transformam em tristes áreas de confinamento e reclusão voluntária.

 

Nas cidades do interior, contudo ainda se preserva o fenômeno pracinha com casais namorando, crianças brincando e velhos desfiando preguiçosamente o seu rosário de recordações.

 

Já o crescimento das metrópoles, por outro lado, baniu o cidadão das pracinhas, e com Messejana não foi diferente. As madrugadas que antes envolviam com o aceno dos mangueirais, hoje indicam prudentemente o caminho de casa, já que o homem das grandes cidades se tornou um ser solitário, triste e assustado, e bem... As pracinhas se alimentam da presença de pessoas alegres, desarmadas e dispostas a saborear com serenidade o encanto das coisas simples no milagre da vida. Essas pessoas são realmente a cara das pracinhas.

 

 

Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico e jornalista

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