Estátuas de Iracema em Fortaleza têm estruturas quebradas e pichadas

 

 

 

É uma questão que remonta a longo tempo. O vandalismo atua de forma impune em Fortaleza, atacando muros, estátuas, patrimônios históricos e tudo o que encontram. O Portal Messejana já levantou essas questões para a opinião pública e tem acompanhado grupos de pessoas que lutam por melhorias neste sentido.

 

A Prefeitura afirma que um relatório será feito sobre as manutenções necessárias na Iracema Guardiã. Secretarias não responderam sobre restauração das outras duas estátuas da personagem,

 

Pontos turísticos, as estátuas da indígena Iracema espalhadas pela Capital nem sempre têm condições ideais de conservação. As mais conhecidas, localizadas na Praia de Iracema e na Lagoa de Messejana, apresentam pichações, e o entorno delas é prejudicado por falta de manutenção. Já a mais antiga, na Praia do Mucuripe, tem partes quebradas.                               

                           

Fortaleza ainda tem outras duas estátuas da personagem. Uma, de posse do Rotary Club Fortaleza, mostra Iracema em cima de um globo e fica próxima ao Marina Park Hotel, na avenida Presidente Castelo Branco, mais conhecida por Leste Oeste. A outra fica dentro do Palácio Iracema, prédio do Governo do Ceará.

 

A Iracema Guardiã, estátua mais popular da personagem do livro de José de Alencar, localizada no calçadão da Praia de Iracema, está com a base pichada e partes enferrujadas. O banco de concreto que rodeia o local da estátua está deteriorado, com partes de ferro da estrutura à mostra. A obra é do artista Zenon Barreto e foi inaugurada em 1995.                           

 

A Iracema de Messejana, feita pelo artista Alexandre Rodrigues em 2004 e esculpida com base no corpo da ex-BBB cearense Natália Nara, também foi manchada por pichações e pela ação do tempo na tinta verde. O entorno da Lagoa próximo à estátua não é convidativo. O calçamento quebrado, o guarda-corpo enferrujado e a quantidade de lixo e mato presente mostram o descuido com o local. “Isso foi um investimento da Prefeitura, mas aí deixaram de lado. Aqui tinham bancos, era iluminado, mas já faz muitos anos da última reforma”, relata Gilson Ribeiro, 53, músico morador do bairro há 14 anos.

 

Em 2020, o ex-prefeito Roberto Cláudio (PDT) autorizou o início de obras de requalificação no local. No entanto, segundo o titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf), Samuel Dias, a obra precisou ser interrompida devido à pandemia e por causa de um “problema de financiamento”.

“Muito em breve, ainda este ano, ainda no primeiro semestre deste ano, a gente deve ter o reinício das obras de requalificação da lagoa”, prometeu o secretário. De acordo com Samuel, a Prefeitura refez o projeto de requalificação com pequenas modificações e deve lançar uma nova licitação.

 

No caso da estátua que fica dentro do Palácio Iracema, a manutenção é de responsabilidade da Procuradoria-Geral do Estado (PGE-CE). Em nota, a PGE-CE informou que ano passado solicitou à Secretaria de Cultura do Estado um parecer técnico avaliando as condições e providências das obras de arte existentes no Palácio.

Segundo a PGE-CE, o "parecer apontou que a Estátua tem avarias referentes ao revestimento de cristal, está com uma ruptura em um dos braços e precisa de recolocação de uma esfera de cristal em suas mãos, conforme a obra original. O orçamento, à época, estimou a restauração em R$35 mil". Assim, a Procuradoria informa que, como o autor da obra já faleceu, tem buscado artistas plásticos que trabalhem nesse tipo de restauro, "devendo iniciar as obras de recuperação no segundo semestre deste ano".

 

Manutenção das estátuas

Questionada se a restauração da estátua de Iracema da Lagoa da Messejana entrará no planejamento da obra de revitalização do local, a Seinf informou que a manutenção é de responsabilidade da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor).

 

A Secultfor juntamente com a Secretaria de Gestão Regional (Seger) foram questionadas sobre a manutenção das três estátuas. Não houve repasse de informações sobre ações planejadas para as estátuas de Iracema do Mucuripe e nem da localizada na Lagoa de Messejana. Em nota, a Prefeitura afirma que executa um trabalho de mais amplo de identificação e verificação do estado de conservação das esculturas públicas da Cidade. Não foi informado o estágio do trabalho e o prazo de ações. 

 

Já em relação a Iracema Guardiã, a Regional 2 enviou equipe para realização de relatório sobre o estado de conservação do entorno. Neste relatório deverão ser apresentados os reparos necessários e o orçamento para realizá-los. “Vale lembrar que a última manutenção do equipamento foi realizada no final de 2020, porém, ações de vandalismo e depredação do espaço público contribuíram para a danificação do monumento”, dizem as secretarias em nota conjunta enviada à reportagem.

 

Ainda através de nota, a Prefeitura destaca que duas esculturas localizadas na Beira Mar, o Interceptor Oceânico e o Monumento ao Jangadeiro, ambas do artista plástico Sérvulo Esmeraldo,  estão em processo de restauro pela Secultfor. Há ainda o restauro de 14 esculturas do Passeio Público, devolvidas recentemente à Cidade, além das esculturas integradas ao Parque da Liberdade, inaugurado no fim de 2021. 

Símbolo é questionado

 

Em 1965, Castelo Branco inaugurava a primeira estátua de Iracema em Fortaleza no centenário do livro de José de Alencar. O ditador cearense, segundo o doutor em Memória Social Tiago Coutinho, afirmava ser um parente distante de Alencar. Naquela época, uma série de políticas foram estimuladas para divulgar a imagem da personagem. Hoje, há pelo menos cinco Iracemas espalhadas pela Capital.

 

Para ele, a elite econômica e cultural fortalezense abraçou o símbolo criado no mito de José de Alencar. Tiago explica ainda que o livro foi feito em uma época em que era de interesse do Império do Brasil a exploração de terras indígenas. “O livro é muito estratégico porque coaduna com a teoria que foi desenvolvida durante o Império de que não havia mais povos indígenas no Ceará”, explica Coutinho. O livro passa uma visão romantizada da colonização portuguesa no Brasil e mostra indígenas como submissos.

 

As estátuas impõem uma memória fixa que não permite questionamentos, segundo Coutinho. “Tem uma tentativa de fazer um culto a uma personagem. Só que é extremamente controverso. Como a gente pode fazer um culto a uma mulher que sofreu tanto?”, questiona. No livro, Iracema acaba morrendo após dar à luz ao filho com o colonizador Martim.

Por isso, Tiago argumenta que há possibilidades de ressignificar as estátuas tão presentes em Fortaleza. A pesquisadora Joceny Pinheiro, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), apresenta em um artigo científico que, mesmo com a representação controversa de povos indígenas nas páginas de José de Alencar, muitos deles ainda têm identificação com a figura literária de Iracema.

 

Fonte: O Povo

 





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