O Balneário Clube de Messejana
Os anos 60 e 70 e o Conjunto Big Brasa
(Parte I)
(*) João Ribeiro da Silva Neto
O BALNEÁRIO CLUBE DE MESSEJANA

Falar sobre o saudoso Balneário Clube de Messejana não é tão simples, pois o Clube atravessou vários períodos distintos, portanto temos que abordar as características da sociedade local e dos comportamentos de cada época. Nessas considerações irei comentar de uma forma geral o que vivenciei desde 1963, ano que cheguei a Messejana, particularmente o que conheci do Balneário como sócio-proprietário e depois como músico fundador do Conjunto Musical Big Brasa, a partir de 1967, que marcou um período inesquecível para o Clube, como para o Ceará inteiro tendo em vista sua presença na televisão cearense (TV Ceará, Canal 2).
É necessário fazer uma breve análise sobre a Messejana na década de 60, quando era um distrito plenamente residencial, tanto é que a pracinha da matriz, a Praça Tristão de Alencar, parecia uma enorme sala de visitas, com todos morando nas proximidades, as pessoas se encontrando na praça, e as famílias sentadas nas rodas de calçada, de modo que todo mundo convivia no mesmo espaço, partilhava das mesmas novidades e experiências. As amplificadoras, as tradicionais irradiadoras, faziam parte do cotidiano sem incomodar ninguém, uma vez que todo mundo estava mesmo acostumado. Quem morava na praça, era despertado pela irradiadora da paróquia, pois de manhã bem cedo, quando o dia começava a despontar de leve, o vigário local, Padre Francisco Pereira, jogava música sacra a todo volume para quem quisesse ouvir, e convidava com insistência a população para a primeira missa a ser celebrada.
Fundado em 1960, o Balneário ocupava uma estrutura simples, às margens da Lagoa de Messejana e oferecia como opção os banhos de lagoa, jogos de voleibol e futebol e as festas e tertúlias ao som de uma radiola com os discos de vinil rodando e duas caixas de som, executando Ray Conniff e sua orquestra, Perez Prado, Poly e sua Guitarra e outros itens orquestrados. O salão principal de dança ainda não tinha sido construído.
O Balneário Clube de Messejana era o centro das badalações e onde aconteciam as tertúlias e matinais. Muito bem frequentado pela sociedade messejanense, foi palco de inúmeras festividades marcantes. As festas e tertúlias geralmente aconteciam aos sábados e domingos.
A sede do Balneário Clube de Messejana ficava às margens da Lagoa de Messejana, na qual, segundo a lenda, e o escritor José de Alencar, Iracema, a "virgem dos lábios de mel", tomava banho e saía correndo até a Praia de Iracema, chegando a seu destino ainda com os cabelos molhados, tal a sua rapidez.
Ainda sobre o Balneário Clube de Messejana vale à pena frisar que nos anos iniciais de existência do Clube praticamente todos os seus frequentadores, com raras exceções, moravam em Messejana. Algumas famílias iam para as festas em seus carros e os estacionavam na frente do Balneário e os mais jovens em sua maioria iam para o clube a pé mesmo, tendo em vista à proximidade da Praça da Matriz. Messejana era pequena, muito calma e tranquila. Um clima excelente.
A vista do Balneário era muito bonita, tendo como cenário a belíssima Lagoa de Messejana, que às tardes nos proporcionava um pôr-do-sol magnífico, com cintilantes reflexos em suas águas. O Balneário Clube de Messejana tinha uma extensa área verde ao redor do salão, bem arborizada, formando um espaço muito agradável para seus frequentadores.
O clube possuía uma arquitetura simples, sendo amplo e bem estruturado, no que se refere ao salão de dança e palco. Deixava muito a desejar pela precariedade de suas instalações de secretaria, bar e da própria fachada.
As festas na primeira metade da década de 60 reuniam a pequena comunidade de Messejana, então distrito, e nelas compareciam os homens, trajados de terno e as mulheres com vestido de festa. Os primeiros com brilhantina e as últimas com laquê no cabelo, substância que mantinha o mesmo penteado impecável a noite inteira.
Provavelmente o Balneário Clube de Messejana estabeleceu um Estatuto, do qual nunca tive conhecimento, mas, no entanto, muitas pessoas chegaram a adquirir ações de Sócio-Proprietário do Clube. Em toda sua existência o Balneário possuiu várias diretorias, sendo que nos anos finais há indícios de que o Clube, em razão de mudanças na sociedade e novos hábitos, houve dificuldade em quem quisesse assumir o Clube, administrando sua estrutura administrativa.
Frequentavam o Balneário Clube de Messejana, nos meados dos Anos 60 até início da década de 70, famílias de Messejana, com suas crianças, jovens e adultos. Nas ocasiões festivas todo mundo se conhecia e havia um ambiente muito saudável em tudo. E nós conhecíamos as pessoas da comunidade, os garçons pelo nome, os diretores, enfim estávamos praticamente em casa. Os sócios-proprietários não pagavam na maioria dos eventos, bastando para isso estarem quites com suas mensalidades. Os demais pagavam entradas normais, bem relativas ao poder aquisitivo de todos. Quanto à entrada no Balneário para os banhos na Lagoa e para os encontros matinais entre os frequentadores a entrada era gratuita.
As diversões se realizavam aos sábados e domingos, com jogos de pingue-pongue, banhos na Lagos de Messejana e posteriormente também jogos de futebol de salão, alguns anos depois quando foi construída uma quadra em sua lateral.
AS MÚSICAS DO BALNEÁRIO DE MESSEJANA
Em seu início o Balneário Clube de Messejana tinha uma programação com tertúlias ao som de vitrola, ou radiola como chamavam, com os discos de vinil rodando, com as festas com os conjuntos da época. No repertório músicas de Ray Conniff e sua orquestra, e Poly e sua Guitarra havaiana.
Ainda nas festas da primeira metade dos anos 60, bandas como Alberto Mota, Ivanildo e seu Conjunto (conhecido como o Sax de Ouro), Canhoto, Paulo de Tarso animavam os bailes a rigor, nos quais as famílias tradicionais da sociedade local usavam paletós e vestidos da moda daquela época e ali os pares demonstravam suas habilidades ao dançar boleros, valsas e os clássicos sucessos. Assim, a formação desses conjuntos era montada em cima de instrumentos de sopro (os metais como se costuma chamar), um violão elétrico que fazia uma marcação e o contrabaixo, que era acústico daqueles bem grandes. Às vezes um piano completava a harmonia. E o pessoal daquela época gostava mesmo dos merengues, mambos, rumbas, boleros, sambas e outros ritmos latinos em voga naqueles anos inocentes e serenos. Guitarra elétrica ainda estava por chegar, isso nos idos de 1963, 1964.
AS TERTÚLIAS DE RADIOLA
Na ausência das festas ocorriam as tertúlias, geralmente aos sábados ou domingos à noite após a missa, a velha radiola com duas caixas de som voltadas para o salão jogava na brisa da lagoa, Poly e sua guitarra havaiana e Ray Conniff e sua orquestra, que eram os long-plays de vinil mais executados, com uma radiola de boa qualidade as tertúlias corriam românticas. As indumentárias festivas neste período eram terno e gravata para os homens com toda brilhantina no cabelo a que tinham direito, e vestido de festa e muito laquê no cabelo que deixava o penteado duro e armado, com um cheiro bem característico.
UMA PLANTA BAIXA DO BALNEÁRIO
O Balneário Clube de Messejana ficava localizado a uns dois quarteirões da Praça da Matriz, na Rua Capitão Afrânio, às margens da Lagoa de Messejana.
Com a escassez praticamente total de fotografias, algumas das quais estão no acervo de nosso Conjunto Big Brasa, eu cheguei a escrever diversos artigos sobre o Balneário e a desenhar uma planta baixa de suas instalações com o objetivo facilitar ou mesmo de dar conhecimento aos mais novos. O restante ficará pela lembrança de todos aqueles que conheceram o Clube.
A fachada do Balneário ficava praticamente escondida atrás de um grande muro, no qual se avistava apenas a entrada. No início do Clube apenas uma casa, com um corredor central que dava acesso à frente da Lagoa de Messejana. Do lado esquerdo víamos uma sala da Diretoria e uma dependência de acesso interno ao bar e à direita o banheiro feminino. Tudo muito simples. Posteriormente, na segunda metade da década de 60 foi construído um amplo salão de dança, defronte à Lagoa de Messejana, com um palco grande no qual nós nos apresentávamos sempre. A vista desse salão era magnífica! Praticamente localizado bem na margem da Lagoa de Messejana e protegido por grades, por ser bem mais alto do que o nível da água. O salão de dança era circundado por árvores e bem agradável. Pela planta baixa que eu desenhei certamente dará para ter uma ideia mais precisa do que eu descrevi.
Na entrada podíamos avistar um muro grande, com um portão central pequeno e uma portaria. Do lado de fora pouco dava para imaginar como era o clube. Ao entrar (ver a planta baixa que eu desenhei), o clube, propriamente dito. Inicialmente apenas uma construção com quatro compartimentos e um corredor central, sendo que do lado esquerdo ficavam uma sala da Secretaria e outra que era e entrada para o bar e restaurante, que atendia os frequentadores por uma janela lateral. Do lado direito um pequeno escritório e, depois do corredor, à direita ficava o sanitário para as mulheres. O dos homens ficava em um espaço mais para fora, perto da margem da Lagoa mesmo. Pois bem, depois de alguns anos, entre 1965 e 1967, os messejanenses se reuniam lá nos finais de semana, jogavam pingue-pongue e se divertiam com os banhos na Lagoa de Messejana, bem limpa naquele tempo.
Já em
Ao lado esquerdo deste salão uma área descoberta muito agradável, com mangueiras e do lado esquerdo do clube, posteriormente foi construída uma quadra de futebol de salão. As imagens que consultei através do Google Maps fornecem uma ideia precisa da localização do Balneário.
IMAGENS DO CLUBE, FOTOS E VÍDEOS
O acervo do Conjunto Big Brasa se preocupou em disponibilizar para todas as imagens de festas no Balneário, fotos do palco, através de um Canal no Youtube. São vários vídeos. E, ao mesmo tempo, no Portal Messejana, que administramos, existem muitas matérias, fotografias e vídeos sobre Messejana e o Balneário Clube de Messejana.
A vista do Balneário era muito bonita, tendo como cenário a belíssima Lagoa de Messejana, que às tardes nos proporcionava um pôr-do-sol magnífico, com cintilantes reflexos em suas águas. Nas manhãs dos sábados e domingos, podíamos ver algumas velozes lanchas circulando a lagoa, em passeios que deviam ser muito agradáveis. Naquela época, como ainda hoje, aquilo era privilégio de gente rica. O Clube chegou a realizar grandes festas com orquestras do sul do país, renomadas. As tertúlias e as matinais também deixaram saudades. Chegamos a tocar quatro bailes de carnaval no Balneário com o Conjunto Big Brasa, além das centenas de matinais e tertúlias e outras comemorações. Nossa turma frequentava o Balneário para jogar pingue-pongue, tomar banho de lagoa, jogar bola, paquerar e dançar nas tertúlias. Praticamente toda a pequena comunidade de Messejana se encontrava no Balneário. Todo mundo se conhecia. Vivemos, sem sombra de dúvidas, a fase áurea do Balneário de Messejana.
Nessa época tínhamos uma Comunidade, na verdadeira acepção da palavra!
(*) Sobre o autor - João Ribeiro da Silva Neto (Beiró) foi guitarrista-solo e fundador do Conjunto Big Brasa. É Analista de Informações do Ministério do Trabalho, aposentado. Atualmente é Diretor do Instituto Portal Messejana. Escreve também em seu blog, o Blog do João Ribeiro, no qual aborda assuntos de interesse geral da comunidade. Escreveu três livros sobre a Música nos Anos Dourados em Fortaleza e sobre o Conjunto Musical Big Brasa. Participa ativamente de canais das redes sociais.