O Espiritismo
Apresentação 
“O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica”. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações.
“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal.”
Allan Kardec
Origem
O Espiritismo segue as teorias codificadas por Allan Kardec.
Allan Kardec, pseudônimo de Léon-Hippolithe-Denizart Rivail, nasceu em Lyon a 3 de outubro de 1804 e morreu, em Paris, em 1869. De família católica, foi educado em país de religião protestante, onde sofreu intolerâncias religiosas que o motivaram a pensar, desde cedo, numa alternativa que visava à unificação das crenças. Estudou em Iverdum, Suíça, e foi professor de química, matemática, astronomia, fisiologia, física, retórica e anatomia comparada. Em 1850, ele começou a se dedicar a estudos mais profundos de fenômenos, que começaram a chamar a atenção, a partir de 1848, nos Estados Unidos. Essas primeiras manifestações espíritas consistiam em ruídos, batidas e movimentos de objetos sem causa conhecida, que ocorriam com freqüência. Uma vez controladas, percebeu-se que se tratava de fenômenos inteligentes. Os resultados dessas observações foram recolhidos nas seguintes obras: O Livro dos Espíritos, publicado em Paris, em 1857, e que tornou o texto base do movimento espírita Kardecista, em seu aspecto filosófico; O Livro dos Médiuns, publicado em 1861, para a parte experimental e científica; O Evangelho Segundo o Espiritismo, publicado em 1864 para a parte moral; O Céu e o Inferno, publicado em 1865 que trata da justiça de Deus segundo o Espiritismo; A Gênese, os Milagres e as Predições, publicado em 1868, que trata do princípio do mundo. A partir do Livro dos Espíritos, funda-se o Espiritismo, que até então se constituía apenas de elementos esparsos, sem coordenação, e cujo alcance não havia sido compreendido.
Definição
Tão logo surge do reino animal um ser diferenciado, que articula as primeiras palavras e esboça princípios de consciência, esse ser diferencia-se dos demais pela capacidade de pensar em Deus. O homem primitivo que agia como um animal, matava e escravizava com a finalidade única de preservar sua existência, passa a indagar sobre a causa dos acontecimentos e sente-se sozinho, esmagado pela grandeza do Universo.
A idéia de Deus, iniciando a Religião, a indagação prenunciando a Filosofia, a experimentação anunciando a Ciência, o instinto de solidariedade prefigurando o amor, eram pensamentos nebulosos que ecoavam entre os primeiros homens.
Surgem então, princípios religiosos nas comunidades, onde os fenômenos da Natureza então inexplicáveis, eram associados a divindades. Os deuses eram concebidos à semelhança dos homens, com virtudes e vícios.
Posteriormente um povo diferencia-se dos demais, o povo hebreu, por possuir conceitos mais avançados em relação à Deus. Criam no Deus único, na imortalidade da alma e tinham grande fé na justiça divina. Moisés, após libertar os hebreus da escravidão no Egito, torna-se seu condutor. Recebe a lei de Deus no Monte Sinai, contida nos dez mandamentos, estabelecendo a primeira grande revelação de Deus aos homens. Os dez mandamentos são leis de todos os tempos e de todos os povos, o que é demonstrado pela grandeza de seus ensinamentos. Porém, para disciplinar seu povo, Moisés criou várias outras leis, aplicáveis a situação em que se encontrava e para dar-lhes autoridade, atribuiu a origem dessas regras de conduta a Deus, tido como enérgico e inflexível.
A moral ensinada por Moisés era apropriada ao estado de adiantamento no qual se encontravam os povos que ela foi chamada a regenerar, e esses povos, semi-selvagens quanto ao aperfeiçoamento de sua alma, não teriam compreendido que se deve perdoar a um inimigo, ou amar ao próximo como a si mesmo. Sua inteligência notável sob o ponto de vista da matéria, e mesmo sob o das artes e das ciências, era muito atrasada em moralidade, e não se teriam convertido sob o império de uma religião inteiramente espiritual.
Outra grande revelação de Deus estava por vir, sendo ela predita por vários profetas na figura do Messias. Deus na sua infinita caridade permite então ao homem ver a verdade dissipar as trevas; era Jesus Cristo que vinha ao mundo para mostrar aos homens a extensão que deve ser dada ao amor e a consolação às aflições humanas, dizendo que aquele que perseverar até o fim será salvo.
Jesus, que é o maior exemplo de perfeição que conhecemos e cuja autoridade provinha da natureza excepcional de seu espírito, ensinou aos homens que a verdadeira vida não está sobre a Terra mas no reino dos céus; mostrou o caminho que para lá conduz, os meios de se reconciliar com Deus, e nos preveniu sobre a marcha das coisas futuras para o cumprimento dos destinos humanos. Entretanto, não disse tudo, e sobre muitos pontos se limitou a depositar o germe de verdades que ele próprio declara não poderem ser ainda compreendidas; falou de tudo, mas em termos mais ou menos explícitos, para compreender o sentido oculto de certas palavras, seria preciso que novas idéias e novos conhecimentos viessem dar-lhes a chave, e essas idéias não poderiam vir antes de um certo grau de maturidade do espírito humano. Porém, Jesus afirmou que enviaria outro Consolador, a fim de que ficasse eternamente conosco: o Espírito de Verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê e acrescentou: "Tenho muitas coisas a dizer-vos, mas presentemente não podeis suportar. Quando vier esse Espírito de Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porquanto não falará de si mesmo, más dirá tudo o que tenha escutado e vos anunciará as coisas porvindouras. Ele me glorificará, porque receberá do que está em mim e vo-lo anunciará."
Conjuntamente com a vinda de Moisés e os dez mandamentos, e o advento da Boa-Nova trazida por Jesus Cristo, outros povos da Terra também tiveram missionários a lhes revelarem as leis divinas.
Podemos citar, por exemplo, Maomé com a sua missão entre os árabes; Buda cuja influência atingiu grande parte da Ásia e os filósofos Sócrates e Platão que viveram na Grécia, a grande dissiminadora de cultura nesta época. Baseadas em filosofias propostas pelos enviados de Deus, vários povos estabelecidos no Oriente, nas Américas e na África desenvolveram religiões espiritualistas que se apoiavam na reencarnação e no corpo espiritual e em algumas dessas religiões os fenômenos mediúnicos eram conhecidos e praticados. Porém a humanidade não havia ainda atingido o grau de conhecimento necessário e o espiritualismo era revestido pelo caráter de maravilhoso e de sobrenatural.
De outras vezes as manifestações dos Espíritos eram explicadas como obra demoníaca, por princípios religiosos que até hoje persistem, desencorajando e mesmo proibindo, através do poder religioso constituído, toda pesquisa e estudo que viesse esclarecer a causa dos referidos fenômenos.
Na idade média, quando a religião predominava, os valores da suposta fé prevaleciam sobre a razão. Foi necessário que o tempo passasse; que o homem amadurecesse e, como conseqüência, houvesse a libertação do conhecimento, para que a explicação racional desses fatos pudesse ser encontrada.
Como conseqüência da libertação do pensamento nos tempos modernos, o homem passou a questionar os princípios filosóficos impostos de forma dogmática, considerados incontestáveis e indiscutíveis. De um lado o ateísmo científico; de outro, a ilusão religiosa. O avanço alcançado pelas ciências, especialmente a química, a física e a astronomia, o surgimento dos grandes pensadores nos séculos XVIII e XIX, concorreram para mostrar a fragilidade de alguns princípios estabelecidos pela teologia. Da crença cega chegava-se a negação absoluta.
Foi nesse clima que surgiu a Revelação Espírita, trazendo ao mundo a explicação lógica para os grandes enigmas da vida, da morte, da dor, da felicidade, etc.
As bases da Doutrina Espírita foram estabelecidas por Allan Kardec através da análise e seleção das comunicações dos Espíritos, usando os critérios da universalidade e concordância do ensino dos Espíritos, à luz da razão.
Como não poderia deixar de ser, o Espiritismo é uma doutrina de livre exame, propugnando pela fé raciocinada. Nascia uma nova filosofia, apoiada na ciência, cujas conseqüências morais, do mais alto alcance, preparam a humanidade para uma nova era, onde os valores espirituais preponderarão sobre os valores materiais.
Vemos agora, que o universo se define pela tríade Deus, Espírito, Matéria. A matéria, porém, não é somente o elemento palpável, havendo o fluido universal, intermediário entre o plano espiritual e o plano material. "Tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo", como vemos na questão nº 540 do Livro dos Espíritos. Para chegar a perfeição, temos que passar pelas provas da existência material, através do mecanismo das reencarnações, ao qual se associa a lei de causa e efeito, que permite ao Espírito quitar-se perante sua própria consciência dos débitos que contrai, à medida que seu progresso lhe permite estabelecer a diferenciação entre o bem e o mal.
As condições de vida após a morte do corpo físico são estudadas com detalhes, ressaltando desse estudo o processo natural de aprendizado do Espírito, através da experiência. A morte, simplesmente, não o liberta das paixões, dos vícios, da ignorância, como também não define o seu futuro, tal como ensinava até então a teologia. Cai por terra a falsa concepção de inferno, céu e purgatório.
O Espiritismo, não tendo formas exteriores e adoração, nem sacerdotes, nem liturgia, nem dogmas, não é entendido por muitos como religião. Todavia, tendo como exemplo o Cristianismo no seu nascedouro, reconhecemos que para uma doutrina ter o caráter religioso não é necessária nenhuma estrutura complicada, senão um conjunto de princípios capazes de transformar o homem para melhor.
Espiritismo: Filosofia, Ciência ou Religião?
Podemos dizer que a Doutrina Espírita se resume nos seguintes princípios fundamentais: Deus, o Espírito e sua imortalidade, a comunicabilidade dos Espíritos, a reencarnação, a pluralidade dos mundos habitados e as leis morais.
Espiritismo ou Espiritualismo? Espiritismo e espiritualismo são duas definições que não se confundem. Todas as religiões são espiritualistas, uma vez que acreditam na existência de algo além da matéria. Porém, o espiritualismo não implica necessariamente na crença nos espíritos e nas suas manifestações. A aceitação, compreensão e estudo metódico destes fenômenos é o Espiritismo.
O Espiritismo é, ao mesmo tempo, ciência experimental e doutrina filosófica de conseqüência religiosa. Como ciência prática, tem a sua essência nas relações que se podem estabelecer com os espíritos; como filosofia e religião compreendem todas as conseqüências morais decorrentes dessas relações.
Os Elementos Gerais do Universo
A MATÉRIA é o corpo palpável que retém o espírito. O espírito utiliza a matéria para agir e é sobre a própria matéria que recai a sua ação.
O ESPÍRITO é "o princípio inteligente do universo", independente da matéria. Não é de natureza palpável e a inteligência é o seu atributo essencial. Apenas a união da matéria e do espírito concede "inteligência” a matéria. Pode também ser chamado de Alma, quando utilizando a matéria.
O FLUÍDO UNIVERSAL é o intermediário entre o espírito e a matéria, possibilitando a união dos dois. Sem esse fluído, o espírito não exerceria seus efeitos sobre a matéria, condenando-a a um permanente estado de inércia. Podemos chamar esse envoltório fluídico de perispírito. É através deste corpo etéreo que os espíritos conseguem produzir fenômenos e chamar a atenção dos encarnados.
A TRINDADE UNIVERSAL é o princípio de tudo o que existe. É formada pela matéria, pelo espírito e, acima de tudo, por Deus, criador de todas as coisas. "Deus é eterno, é imutável, é imaterial, é único, é Todo-Poderoso e é soberanamente justo e bom".
O ESPAÇO UNIVERSAL é infinito, não existe o vazio, pois há sempre ocupação, mesmo que seja por matéria desconhecida aos nossos sentidos.
A Vida e a Morte
A morte, para nós os espíritas, é a exaustão dos órgãos, da matéria.
É necessária porque com a morte a matéria se decompõe, sendo possível formar novos seres. A vida é a matéria, animada pelo princípio vital que tem como fonte o fluído universal. É ele que dá atividade à matéria inerte. A quantidade deste fluído segundo as espécies e não é sempre igual em um mesmo indivíduo. Essas diferenças permitem um intercâmbio deste fluído entre os seres humanos, possibilitando, em casos especiais, o impedimento da morte de uma pessoa. Ao romperem-se os laços, a morte da matéria permite ao espírito recuperar a sua liberdade e sua identidade, conservada pelo perispírito, seu corpo etéreo.
Os Médiuns
Médiuns são todos que sentem, de alguma maneira, a presença dos espíritos, independente da intensidade e da diversidade dessas manifestações. Segundo a doutrina, essa faculdade é inerente ao ser humano e não constitui privilégio de ninguém, pois todas as pessoas possuem mediunidade mesmo que em "estado rudimentar".
Os médiuns mais desenvolvidos acabam se sobressaindo e recebem a denominação com mais freqüência, dando a falsa impressão de que são a minoria. Os médiuns tem, na sua maioria, faculdades especiais de captação das manifestações espirituais, fazendo que eles se tornem diferentes entre si ao se expressarem. As principais variedades dessas manifestações estão relacionadas a seguir:
Médiuns de efeitos físicos: produzem fenômenos materiais como movimentação de objetos, ruídos, batidas, etc.
Médiuns sensitivos ou impressionáveis: são capazes de sentir a presença dos espíritos através de arrepios ou de uma impressão da sua presença. Ao desenvolverem essa sensibilidade, podem até identificar se o espírito é bom ou ruim.
Médiuns audientes: são capazes de ouvir as vozes dos espíritos e de conversarem com eles. A boa conversa depende de uma presença boa; um "mau" espírito pode trazer transtornos ao seu ouvinte.
Médiuns videntes: possuem a faculdade de ver os espíritos. Raramente esse tipo de mediunidade se manifesta por um longo período. Essa visão não é propiciada pelos olhos, e sim pela alma, o que torna possível a alguns cegos desenvolverem esta sensibilidade.
Médiuns sonâmbulos: são dois tipos de sonâmbulos: os sonâmbulos propriamente ditos, que antecipam seu estado de espírito ignorando a matéria, e os médiuns que servem de instrumentos, nos quais as vontades manifestadas não são as vontades dos seus próprios espíritos.
Médiuns curadores: são capazes de curar com um simples toque, uma prece, um olhar e sem qualquer medicação. É uma faculdade espontânea, não havendo necessidade de o médium estar preparado por estudos de medicina ou formas de magnetização.
Médiuns pneumatógrafos: são aqueles que recebem diretamente dos espíritos mensagens por escrito. Essas mensagens podem ser frases completas, desenhos ou alguns poucos traços. Para o médium pneumatógrafo, o lápis é dispensável, o que o difere do médium escrevente. É uma mediunidade muito rara que requer oração e concentração.
Médiuns escreventes: são aqueles que recebem mensagens por escrito. A psicografia, mais comum, fornece uma vasta literatura e possibilita uma comunicação, entre os encarnados e os desencarnados, essencial ao estudo e formação espírita.
A Classificação dos Espíritos
TERCEIRA ORDEM - Espíritos Imperfeitos
Características gerais: Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão ao mal, ignorância, orgulho, egoísmo e todas as más paixões que lhes são conseqüentes. Tem a intuição de Deus, mas não o compreendem. Não são essencialmente maus. Em alguns há mais inconseqüência e malícia, do que maldade. Uns não fazem o bem, nem o mal, e por não fazerem o bem demonstram sua inferioridade. Outros, procuram a maldade, aliam sua malícia à inteligência e qualquer que seja seu desenvolvimento intelectual, suas idéias são pouco elevadas e seus sentimentos mais ou menos inferiores. Só podem nos dar impressões falsas e incompletas, pois o pouco que sabem se confunde com as idéias e os preconceitos da vida corpórea. O seu caráter se revela pela linguagem. Observam a felicidade dos bons e isso, para eles, é um tormento incessante, porque experimentam todas as angústias que a inveja e o ciúme podem produzir. Pode-se dividi-los em cinco classes especiais:
DÉCIMA CLASSE - Espíritos Impuros - São inclinados ao mal. Como espíritos, dão conselhos desleais, fomentam a discórdia, a desconfiança e se mascaram de todas as formas para melhor enganar. Ligam-se aos homens de caráter bastante fraco para cederem às suas sugestões, a fim de prejudicá-los, satisfeitos em poderem retardar o seu progresso e fazê-los sucumbir nas provas por que passam. Quando encarnados, são inclinados a todos os vícios das más paixões.
NONA CLASSE - Espíritos Levianos - São ignorantes, maliciosos, inconseqüentes e zombeteiros. Envolvem-se em tudo, respondem a tudo, sem se preocuparem com a verdade. Sentem prazer em causar pequenos desgostos e pequenas alegrias, atormentando, induzindo maliciosamente ao erro por meio de mistificações e travessuras. Nas comunicações com os homens, sua linguagem é algumas vezes espiritual e engraçada, mas , quase sempre, sem conteúdo. Compreendem os defeitos e o ridículo humanos, exprimindo-os em tiradas mordazes e satíricas. Se usam nomes supostos, é mais por malícia do que maldade.
OITAVA CLASSE - Espíritos Pseudo-Sábios - Seus conhecimentos são bastante amplos, mas crêem saber mais do que realmente sabem. Sua linguagem tem um caráter sério que pode iludir sobre suas capacidades e sua iluminação interior. Em geral, porém, isso não passa de um reflexo dos preconceitos e idéias sistemáticas da vida terrena. É uma mistura de algumas verdades ao lado dos erros mais absurdos, nos quais se percebe a presunção, o orgulho, a inveja e a obstinação das quais puderam se desvincular.
SÉTIMA CLASSE - Espíritos Neutros - Não são muitos bons para fazerem o bem, nem tão maus para fazerem o mal, inclinando-se tanto para um como para o outro. Apegam-se às coisas do mundo, cujas alegrias grosseiras não têm mais.
SEXTA CLASSE - Espíritos Batedores e Perturbadores - Esses espíritos não formam, propriamente falando, uma classe distinta, podendo pertencer a todas as classes da terceira ordem. Eles manifestam, freqüentemente, a sua presença por meio de efeitos sensíveis e físicos, tais como pancadas, o movimento e o deslocamento anormal dos corpos sólidos, agitação do ar, da água e do fogo. Reconhece-se que estes fenômenos não são devidos a uma causa fortuita ou física, quando tem um caráter intencional e inteligente.
SEGUNDA ORDEM - Bons Espíritos
Características gerais: Predominância do espírito sobre a matéria e desejo de fazer o bem. Suas qualidades e seu poder de fazer o bem estão relacionados com o adiantamento que atingiram: uns têm a ciência, outros a sabedoria e a bondade. Não estando ainda completamente desmaterializados, conservam, mais ou menos, segundo sua categoria, os traços da existência corpórea, seja na forma de linguagem, seja nos seus hábitos onde se descobrem mesmo algumas de suas manias; de outro modo, seriam Espíritos perfeitos. Compreendem Deus e o infinito e já desfrutam da felicidade dos bons; sentem-se felizes quando fazem o bem e quando impedem o mal. Todavia, todos ainda têm provas a suportar, até que alcancem a perfeição. Como suscitam bons pensamentos e desviam os homens do caminho do mal, neutralizam a influência dos Espíritos imperfeitos. A esta ordem pertencem os Espíritos designados pelas crenças vulgares sob o nome de gênios bons, gênios protetores e Espíritos do bem. Nos tempos de superstições e ignorância, foram considerados divindades benfazejas. Pode-se dividi-los em quatro classes principais:
QUINTA CLASSE - Espíritos Benevolentes - Sua qualidade dominante é a bondade. Alegram-se em prestar serviço aos homens e protegê-los, mas seu saber é limitado. Seu progresso é mais efetivo no sentido moral do que no sentido intelectual.
QUARTA CLASSE - Espíritos Sábios - São os que se destinguem, principalmente, pela extensão dos seus conhecimentos. Preocupam-se menos com as questões morais do que com as científicas, para as quais têm mais aptidão. Não consideram a Ciência senão pelo ponto de vista de sua utilidade, e não a misturam com nenhuma das paixões que são próprias dos Espíritos imperfeitos.
TERCEIRA CLASSE - Espíritos da Sabedoria - Caracterizam-se pelas qualidades morais de natureza mais elevada. Sem possuírem conhecimentos ilimitados, são dotados de uma capacidade intelectual que lhes possibilita um julgamento sadio sobre os homens.
SEGUNDA CLASSE - Espíritos Superiores - Reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade. Sua linguagem, que só transpira benevolência, é sempre digna, elevada e freqüentemente sublime. Sua superioridade os torna, mais que os outros, aptos a nos proporcionar as mais justas noções sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites do que nos é dado a conhecer. Comunicam-se voluntariamente com os que procuram de boa fé a verdade, e cujas almas estejam bastante libertas dos laços terrenos para o compreender; mas afastam-se dos que são movidos apenas pela curiosidade, ou que , pela influência da matéria, desviam-se da prática do bem. Quando por exceção, se encarnam na Terra, é para cumprir uma missão de progresso, e então nos oferecem o tipo de perfeição a que a humanidade pode aspirar neste mundo.
PRIMEIRA ORDEM - Espíritos Puros
Características gerais: Não sofrem influência da matéria. Superioridade intelectual e moral absoluta em relação aos Espíritos das outras ordens.
PRIMEIRA CLASSE - Classe Única - Percorreram todos os graus da escala evolutiva e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Havendo atingido a soma de perfeições de que é suscetível a criatura, não tem mais provas nem expiações a sofrer. "Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpo perecíveis, vivem a vida eterna, que desfrutam no seio de Deus. Gozam de uma felicidade inalterável, porque não estão sujeitos nem às necessidades nem às vicissitudes da vida material, mas essa felicidade não é a de uma ociosidade monótona, vivida em contemplação perpétua. São os mensageiros e os ministros de Deus , cujas ordens executam, para a manutenção da harmonia universal. Dirigem a todos os Espíritos que lhes são inferiores, ajudam-nos a se aperfeiçoarem e determinam as suas missões. Assistir os homens nas suas angústias, incitá-los ao bem ou à expiação de faltas que os distanciam da felicidade suprema, é para eles uma ocupação agradável. São as vezes designados pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins. Os homens podem comunicar-se com eles, mas bem presunçoso seria o que pretendesse tê-los constantemente às suas ordens." (O Livro dos Espíritos)
Anjos e Demônios
Os anjos e os demônios estão presentes em todas as crenças, recebendo os mais diferentes nomes e causando os mais diferentes efeitos entre seus seguidores. Para o Espiritismo, trata-se de uma evolução espiritual. Nem os anjos nem os demônios são anteriores à humanidade, porque Deus criou todos os espíritos puros e bons e criou também uma lei de conduta voltada para o bem. Como os espíritos tem o direito de exercer o livre arbítrio, é a aproximação ou o distanciamento em relação às essas leis que determinam a condição da espiritualidade, popularmente denominada angelical ou demoníaca. Essa condição não é permanente, pois o espírito tende sempre à evolução, com maior ou menor rapidez, porém constante, porque o efeito do aprendizado é cumulativo e tem como alvo a perfeição. Essa evolução segue a escala espírita de classificação dos espíritos, na qual os espíritos imperfeitos, identificados popularmente por "demônios", estariam na terceira Ordem e os espíritos puros, ou "anjos” na Primeira Ordem.
Penas Futuras
O Espiritismo não se apóia numa teoria preconcebida para apresentar o seu "código penal da vida futura". As leis que compõem esse código não são frutos da imaginação e nem de imposições dogmáticas, mas sim, relatos de espíritos desencarnados, manifestados através de médiuns, em diferentes partes do planeta. Esses espíritos relataram suas aflições e alegrias decorrentes de suas vidas terrenas. Compiladas, essas manifestações geraram um "código penal da vida futura". Essas leis podem ser resumidas em:
3. Não há uma só imperfeição da alma que não acarrete conseqüências desagradáveis, inevitáveis, e não há uma só qualidade boa que não seja fonte de ventura. A soma das penas é assim proporcional à soma das imperfeições, como a dos gozos é proporcional à soma das boas qualidades.
4. Em virtude da lei de progresso, tendo cada alma a possibilidade de conquistar o bem que lhe falta e libertar-se do que possui de mal, segundo os seus esforços e a sua vontade, resulta que o futuro está aberto para qualquer criatura. Deus não repudia nenhum dos seus filhos. Ele os recebe em seu seio à medida que eles atingem a perfeição, ficando assim a cada um o mérito das suas obras.
5. O sofrimento sendo inerente à imperfeição, como a felicidade é inerente à perfeição, a alma leva em si mesma o seu próprio castigo onde quer que se encontre. Não há pois, necessidade de um lugar circunscrito para ela. O inferno está assim por toda a parte, onde quer que existam almas sofredoras, como o céu esta por toda a parte, onde quer que as almas estejam felizes.
6. O bem e o mal que praticamos são resultados das boas e das más qualidades que possuímos. Não fazer o bem que se pode fazer é uma prova de imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não só por todo o mal que tenha feito, mas também por todo bem que podia fazer e que não fez durante a sua vida terrena.
7. O Espírito sofre segundo o que fez sofrer, de maneira que sua atenção estando incessantemente voltada para as conseqüências desse mal, ele compreende melhor os inconvenientes, do seu procedimento e é levado a se corrigir.
9. Toda falta que se comete, todo mal praticado é uma dívida contraída e que tem que ser paga. Se não for nesta existência, será na próxima ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquilo que se paga na existência presente não será cobrado na seguinte.
10. O Espírito sofre de acordo com as suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no corporal. Todas as misérias, todas as dificuldades que ele enfrenta na vida corpórea são as conseqüências de suas próprias imperfeições, as expiações de faltas cometidas nesta mesma existência ou nas existências anteriores. Pela natureza dos sofrimentos e das dificuldades que ele enfrenta na vida corpórea, podemos julgar a natureza das faltas cometidas numa existência anterior e quais as imperfeições que as causaram.
12. Não há, no tocante à natureza e a duração do castigo, nenhuma regra absoluta e uniforme. A única lei geral é a que toda falta recebe uma punição e toda a boa ação tem a sua recompensa segundo o seu valor.
15. Uma condição que inerente à inferioridade dos Espíritos é a de não ver o fim de sua situação e acreditar que sofrem para sempre. Isso faz que para eles o castigo pareça eterno.
16. O arrependimento é o primeiro passo para o melhoramento. Mas ele apenas não basta, sendo necessárias ainda a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e as suas conseqüências. O arrependimento suaviza as dores da expiação, porque desperta esperança e prepara a reabilitação, mas somente a reparação pode anular o efeito ao destruir a causa. O perdão seria uma graça e uma anulação da falta.
17. O arrependimento pode ocorrer em qualquer lugar e tempo. Se ele for tardio, o culpado sofre por mais tempo. A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que são a conseqüência da falta cometida, seja desde a vida presente ou seja após a morte, na vida espiritual, ou ainda numa nova existência corpórea, até que os traços da falta tenham desaparecido. A reparação consiste em praticar o bem para aquele mesmo a quem se fez o mal. Aquele que não repara os seus erros nesta vida, por fraqueza ou má vontade, tornará a encontrar-se , numa outra existência, com as mesmas pessoas que ofendeu, e em condições escolhidas por ele mesmo para poder provar-lhes o seu devotamento, fazendo-lhes tanto bem quanto o mal que havia feito. É dessa maneira que o Espírito progride, tornando proveitoso seu passado.
18. Os Espíritos imperfeitos são afastados dos mundos felizes porque perturbariam a sua harmonia. Permanecem nos mundos inferiores onde expiam as suas faltas pelas tribulações da vida e se libertam das suas imperfeições, até merecerem encarnar-se em mundos moral e fisicamente mais adiantados. Se podemos conceber um lugar de castigo determinado é precisamente nos mundos de expiação, pois é ao redor desses mundos que multiplicam-se os Espíritos imperfeitos desencarnados, esperando uma nova existência que permitindo-lhes a reparação do mal que fizeram, os ajudará a progredir.
19. Como o Espírito conserva sempre o seu livre arbítrio, melhora às vezes de maneira lenta e sua obstinação no mal é bastante tenaz. Pode persistir nessa situação durante anos e séculos, mas chega sempre o momento em que sua teimosia em desafiar as Leis Divinas se abate diante do sofrimento, é então, ele reconhece o poder superior que o domina. Nenhum espírito está na condição de nunca se melhorar. Se assim fosse ele estaria fatalmente destinado a uma eterna situação de inferioridade e escaparia a lei da evolução que rege providencialmente todas as criaturas.
20. Sejam quais forem as inferioridades e a perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos tem o seu espírito protetor que vela por eles, vigia as expansões de sua alma e se esforça para despertar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e de reparar numa nova existência o mal que tenham feito. Não obstante o guia ou protetor age na maioria das vezes de maneira oculta, sem exercer nenhuma pressão. O Espírito deve agir bem ou mal em virtude de seu livre arbítrio.
21. Cada um só é responsável pelas suas próprias faltas. Ninguém sofre penalidades pelas faltas alheias, a menos que para isso tenha dado algum motivo, seja provocando-as pelo seu exemplo, seja deixando de impedi-las quando podia fazê-lo. É assim, por exemplo, que o suicida é sempre punido, mas aquele que, por sua dureza de coração, leva um indivíduo ao desespero e daí ao suicídio, sofre uma pena ainda maior.
22. Embora a diversidade de punições seja infinita, existem as que são inerentes à inferioridade dos Espíritos e cujas conseqüências, salvo algumas diferenças, são mais ou menos idênticas. A punição mais comum, entre os que são sobretudo apegados à vida material e negligenciam o progresso espiritual, consiste na lentidão que com que se processa a separação da alma e do corpo, e portanto nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na duração das perturbações que podem então durar desde meses até anos. Entre os que, pelo contrário, tendo uma consciência pura, identificam-se durante a vida corpórea com a vida espiritual e libertam-se das coisas materiais, a separação é rápida, sem dificuldades, e o despertar aprazível, sendo a perturbação quase inexistente.
23. Um fenômeno muito freqüente entre os Espíritos de um certo grau de inferioridade moral consiste em se acreditaram ainda vivos após a morte, e essa ilusão pode se prolongar durante anos, através dos quais eles experimentam todas as necessidades, todos os tormentos e todas as perplexidades da vida.
24. Para o criminoso, a visão incessante de suas vítimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel.
25. Alguns Espíritos são mergulhados em trevas espessas. Outros são postos num isolamento absoluto, no mundo espiritual, atormentados pelo fato de não saberem qual a sua condição e o seu destino. Muitos ficam privados de verem os seus entes queridos. Todos, em geral, passam por sofrimentos cuja intensidade é relativa aos males que praticaram, às dores e necessidades que fizeram os outros sofrer, até que o arrependimento e o desejo de reparação venham trazer-lhes um abrandamento de fazê-los entrever a possibilidade de dar, por si mesmos, um fim a essa situação.
26. É um suplício para o orgulhoso ver acima dele, gloriosos e radiantes de alegria, os que ele havia desprezado na Terra, ao mesmo tempo em que ele é relegado aos últimos lugares. Para o hipócrita, ver-se trespassado pela luz que revela os seus mais secretos pensamentos, que todos podem ler, não havendo para ele nenhum meio de esconder ou se disfarçar. Para o sensual é um suplício passar por todas as tentações, todos os desejos, sem poder satisfazê-los. Para o avarento, ver o seu ouro desperdiçado e não poder retê-lo. Para o egoísta, ser abandonado por todos e sofrer tudo aquilo que os outros sofreram dele, pois ele só pensou em si durante a vida e ninguém agora pensa nele nem o lamenta após sua morte.
27. O meio de evitar ou atenuar as conseqüências de suas faltas na vida futura é desfazer-se o mais possível dos seus defeitos na vida presente, reparar aqui mesmo o mal para não ter de repará-los mais tarde e de maneira mais terrível. Quanto mais demorarmos a deixar os nossos defeitos, mais as suas conseqüências se tornarão penosas e mais rigorosas será a reparação que tivermos que fazer.
30. As penas sendo temporárias e subordinadas ao arrependimento e à reparação, que dependem da livre vontade do homem, acontece o mesmo com os castigos e os remédios que devem ajudar a curar as feridas do mal. Os Espíritos em punição não se encontram na situação dos antigos condenados às galeras, mas como os doentes no hospital. Sofrem a doença que freqüentemente decorre de suas próprias faltas e passam por meios dolorosos de cura de que necessitam, mas tem a esperança de ser curados e se curam mais rapidamente se observarem com exatidão as prescrições do m&e