Os Judeus e o Judaísmo

 

 

 

 

As palavras Israel e hebreu foram encontradas pela primeira vez em inscrições egípcias por volta de fins do segundo milênio a.C., e designavam uma confederação de tribos nômades que habitavam as regiões montanhosas da Palestina.

 

O termo judeu, que provém do latim judaeus, o qual, por sua vez, deriva do gentilício hebreu yehudhi, significava pertencente à tribo e, posteriormente, ao Estado de Judá. Este termo, porém, somente foi aplicado às populações que viveram ao Sul da Palestina depois do cativeiro na Babilônia (538 a.C.) e, mais tarde, à população do Estado macabeano-herodiano (142 a.C.).

 

Existe uma ligação profunda entre judeus e judaísmo, pois, no curso da história judaica, o jogo de forças sociais e religiosas produziu uma ação recíproca. Os judeus desenvolveram uma maneira de viver própria, que abrange todos os aspectos da vida individual e coletiva e que é o resultado do processo dinâmico das interrelações sociais e espirituais dos judeus com os diferentes povos. Judaísmo é, portanto, o conjunto de todos aqueles elementos que constituem a cultura do povo judeu: religião, idioma, idéias, tradições, formas de organização social e costumes.

 

Desde aqueles tempos do cativeiro na Babilônia as tribos hebréias distinguiam-se de seus vizinhos pela crença numa única deidade - um Deus único - e compartilhavam a memória comum de três fatos: a ´chamada´ de Abraão, a libertação da escravidão do Egito e a idéia de constituírem um povo. Com Moisés, que surgira como um libertador nacional, fora-lhes transmitido um duplo encargo: nacional, com o território de Canaã, e universal, com uma série de regras de condutas religiosas e morais, contidas na Torá (Pentateuco), e que constituíam os princípios básicos de ética para todos os povos em todos os tempos. Com Saul estabeleceu-se a monarquia (1025 a.C.) e uniram-se as tribos rivais.

 

Davi (1055-1015 a.C.) organizou seu exército, ampliou seus domínios, e o povo emergiu numa nação unida. Jerusalém transformou-se num centro nacional e religioso. Após a morte de Salomão, sucessor de Davi, o país dividiu-se em duas partes: o reino de Israel ao Norte e o reino de Judá ao Sul, tendo Jerusalém como capital.

 

Entre 597 e 587 a.C., a Babilônia conquistou Judá, e os ´filhos de Israel´ (Benei-Israel), como eram também chamados os seus habitantes, perderam sua independência nacional.

 

Nesse período surgem fatores de extrema importância para o posterior desenvolvimento do judaísmo: os profetas, que eram reformadores sociais e religiosos, e o refinamento e enriquecimento dos códigos de ética e moral. A justiça e a retidão, tais como eram praticados, vêm segundo os profetas, manifestadas no processo da história universal. A história ganha um inesperado significado. Mas associada à noção de salvação universal de toda a humanidade está o ideal messiânico. A restauração política de Israel permanece a pré-condição do messianismo. As referências messiânicas através das profecias hebraicas são essencialmente feitas para um futuro terrestre. O objetivo do messianismo é o estabelecimento de uma nova ordem social.

 

Simultaneamente com tais idéias desenvolveram-se, nesse tempo, as tradições éticas e morais herdadas do Sinai. A idéia do desterro aplicada ao povo judeu como castigo pelo não cumprimento da lei não significaria o seu desaparecimento e dissolução: uma parte dele teria de sobreviver sempre para levar ao mundo a mensagem do judaísmo.

 

No exílio, o ideal religioso continuou ligado ao ideal político. A Torá tornou-se parte principal de todas as normas e práticas judaicas: religiosas, morais, políticas, econômicas e domésticas.

 

Em 538 Ciro conquistou a Babilônia e permitiu o retorno dos exilados para a sua terra de origem. Estes passaram desde então a denominarem-se ´judeus´. O período que segue é de fundamental importância para a evolução futura da história dos judeus e do judaísmo. Adquiriram maior significado as práticas diárias das tradições, e criaram-se as sinagogas, lugar de culto e estudo.

 

No século IV a.C., com as conquistas de Alexandre, o helenismo penetrou também na Judéia. As classes privilegiadas embeberam-se na cultura grega, enquanto a massa do povo permaneceu fiel às tradições judaicas. Quando Antíoco IV Epifanes proibiu a prática dessas tradições, impondo um padrão helenístico a todos os seus súditos, um grupo de judeus revoltou-se contra as forças opressoras, organizando-se num movimento popular. Os rebeldes, que se tornaram conhecidos pelo nome de macabeus, venceram o inimigo e proclamaram o Estado independente em 142 a.C. Com a guerra dos macabeus, a Judéia estendeu seus domínios e fronteiras quase até os limites alcançados por Davi e Salomão.

 

Entre 167 a.C. e 135 d. C., os judeus estiveram divididos em diversas seitas religiosas. A Torá, que havia sido a base da educação nacional durante quase três séculos, foi submetida às mais diversas interpretações.

 

As principais seitas era as seguintes: 1) a dos saduceus, que conheciam a Torá, porém atribuíam maior importância à nação; 2) a dos fariseus, que eram leais ao Estado, mas davam prioridade à Torá; 3) a dos essênios, ascéticos que pregavam uma vida de reclusão; a esta seita pertenciam os nazarenos, judeus cristãos que acreditavam ser Jesus de Nazaré o Messias esperado; 4) a dos zelotes, patriotas que procuravam uma solução imediata, alimentando-se no ideal messiânico em seu sentido social, político e nacional.

 

Estas seitas refletem os diferentes aspectos do judaísmo de então. A descoberta dos manuscritos do mar Morto, em 1947, trouxe nova luz ao estudo desse período.

 

Em 70 d. C., os romanos sitiaram Jerusalém e conquistaram a Judéia. Inflamados por suas esperanças messiânicas, os judeus, revoltados contra o governo de Roma, continuaram a luta e resistiram até o ano 73, quando foram liquidados os últimos remanescentes da rebelião.

 

No início do século II, o povo judeu, governado por Barcocheba, levantou-se novamente contra Roma. Os rebeldes resistiram por dois anos até serem completamente destruídos em 135.

 

O país recebeu definitivamente a denominação de Palestina. Com o fracasso político, os ideais messiânicos do povo judeu foram momentaneamente substituídos por um renascimento religioso. A Torá continuou a ser estudada e interpretada em dois centros principais: Palestina e Babilônia. Os judeus dedicaram-se fervorosamente ao estudo - ao que lhes havia sido transmitido por Moisés e, mais ainda, àquelas tradições orais que lhes foram paralelamente legadas de geração a geração. Essas tradições orais tornaram-se conhecidas pelo nome de Talmude.

 

Depois de dispersos, os judeus procuraram viver concentrados, a fim de poderem guiar-se pelas leis talmúdicas. Sua maneira de viver própria foi utilizada pela propaganda anti-semita medieval como pretexto para perseguições, quando crises de ordem social e econômica abalavam a sociedade cristã. A partir das cruzadas, a história registra severas perseguições contra a população judaica, e a sua expulsão de alguns países das Europa ocidental.

 

Durante várias gerações os judeus foram obrigados a viver, em certos países, em bairros separados, chamados guetos, proibidos de participar da vida econômica e cultural.

 

Com a vitória do islamismo (711), a história dos judeus se deslocou gradativamente do Oriente para o Ocidente, sem perder a sua continuidade. Os judeus tiveram na Espanha a sua idade de ouro, primeiro sob domínio dos califas, depois sob o dos reis cristãos. Viviam em comunidades independentes, dirigindo-se autonomamente e seguindo suas práticas religiosas, mas em contínuas e estreitas relações com a população cristã.

 

Foram produto do judaísmo ibérico pensadores como Ibn Gabirol, Judah Halevi e Maimônides. Em 1492, os judeus foram expulsos da Espanha e, em 1496, D. Manuel ordenou a conversão forçada de todos os judeus de Portugal.

 

Estas medidas deram origem a um fenômeno conhecido como ´cristão-novo´ e que durante três séculos marcou a história social e econômica de Portugal e Espanha. Os cristãos-novos tiveram um papel considerável na colonização da América, principalmente do Brasil, onde se dedicaram à agricultura e ao comércio açucareiro.

 

As sucessivas expulsões e degradações a que estiveram sujeitos os judeus no mundo ocidental durante os últimos séculos da Idade Média reavivaram o velho ideal messiânico que se havia manifestado de diversas maneiras, no decurso de sua história.

 

O fundamento de sua concepção messiânica era a crença numa idade messiânica a ser alcançada pela ação humana e não por intervenção sobrenatural. O surgimento do pseudo-messias, como David-Rubeni, no século XVI, e Sabbatai Zebi, no século XVII, provocou sérios conflitos nas comunidades judaicas. Esses movimentos messiânicos tinham como objetivo essencial, em seu caráter nacional, a volta dos judeus à terra dos seus ancestrais, e, em seu caráter universal, a implantação de uma sociedade de paz e justiça. Tais idéias continuarão a desenvolver-se e servirão, do ponto de vista ideológico, como base para a identificação dos judeus com os movimentos de libertação nacional e política dos povos oprimidos nos séculos XIX e XX.

 

A partir da Revolução Francesa (1789) os judeus passaram a gozar, pouco a pouco, de igualdade jurídica na sociedade ocidental. Isso levou muitos a julgar que a emancipação havia resolvido o problema judeu. Mas, quando se abriram novos campos de colaboração no terreno das ciências e artes, verificou-se um recrudescimento do anti-semitismo. Paralelamente à idealização democrática e liberal do homem, progrediu um nacionalismo intolerante, que alcançou sua expressão máxima no nacional-socialismo alemão.

 

Os movimentos de emancipação dos povos no século XIX e a intensificação do anti-semitismo deram ao ideal messiânico do retorno uma nova expressão - o sionismo, cujo expoente mais remoto, Moses Hess, desenvolveu a tese de que os judeus tinham um papel vital a desempenhar no desenvolvimento da história mundial.

 

O judaísmo expressa uma filosofia social que visa à perfeição da sociedade humana, mas os judeus somente poderiam desenvolver essa idéia se vivessem livres em sua velha pátria. Segundo Ahad Ha-am (pseudônimo de Asher Ginzberg), que foi a consciência espiritual do nacionalismo judeu, a missão do sionismo não era apenas salvar os judeus, mas também o judaísmo.

 

Em 1897, foi fundada a Organização Sionista Mundial, com a finalidade de estabelecer na Palestina um ´lar nacional judaico´. O principal líder do sionismo foi Theodor Herzl. O século XX presenciou dois acontecimentos de grande importância par a história dos judeus: o extermínio de dois quintos do povo judeu pelos nazistas e o renascimento nacional desse mesmo povo em sua terra de origem. Com a fundação do Estado de Israel (1948) inicia-se uma nova etapa na história dos judeus e do judaísmo.





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