Os Judeus e o Judaísmo

As palavras Israel e hebreu foram encontradas pela primeira vez em inscrições egípcias por volta de fins do segundo milênio a.C., e designavam uma confederação de tribos nômades que habitavam as regiões montanhosas da Palestina.
O termo judeu, que provém do latim judaeus, o qual, por sua vez, deriva do gentilício hebreu yehudhi, significava pertencente à tribo e, posteriormente, ao Estado de Judá. Este termo, porém, somente foi aplicado às populações que viveram ao Sul da Palestina depois do cativeiro na Babilônia (
Existe uma ligação profunda entre judeus e judaísmo, pois, no curso da história judaica, o jogo de forças sociais e religiosas produziu uma ação recíproca. Os judeus desenvolveram uma maneira de viver própria, que abrange todos os aspectos da vida individual e coletiva e que é o resultado do processo dinâmico das interrelações sociais e espirituais dos judeus com os diferentes povos. Judaísmo é, portanto, o conjunto de todos aqueles elementos que constituem a cultura do povo judeu: religião, idioma, idéias, tradições, formas de organização social e costumes.
Desde aqueles tempos do cativeiro na Babilônia as tribos hebréias distinguiam-se de seus vizinhos pela crença numa única deidade - um Deus único - e compartilhavam a memória comum de três fatos: a ´chamada´ de Abraão, a libertação da escravidão do Egito e a idéia de constituírem um povo. Com Moisés, que surgira como um libertador nacional, fora-lhes transmitido um duplo encargo: nacional, com o território de Canaã, e universal, com uma série de regras de condutas religiosas e morais, contidas na Torá (Pentateuco), e que constituíam os princípios básicos de ética para todos os povos em todos os tempos. Com Saul estabeleceu-se a monarquia (
Davi (1055-
Entre 597 e
Nesse período surgem fatores de extrema importância para o posterior desenvolvimento do judaísmo: os profetas, que eram reformadores sociais e religiosos, e o refinamento e enriquecimento dos códigos de ética e moral. A justiça e a retidão, tais como eram praticados, vêm segundo os profetas, manifestadas no processo da história universal. A história ganha um inesperado significado. Mas associada à noção de salvação universal de toda a humanidade está o ideal messiânico. A restauração política de Israel permanece a pré-condição do messianismo. As referências messiânicas através das profecias hebraicas são essencialmente feitas para um futuro terrestre. O objetivo do messianismo é o estabelecimento de uma nova ordem social.
Simultaneamente com tais idéias desenvolveram-se, nesse tempo, as tradições éticas e morais herdadas do Sinai. A idéia do desterro aplicada ao povo judeu como castigo pelo não cumprimento da lei não significaria o seu desaparecimento e dissolução: uma parte dele teria de sobreviver sempre para levar ao mundo a mensagem do judaísmo.
No exílio, o ideal religioso continuou ligado ao ideal político. A Torá tornou-se parte principal de todas as normas e práticas judaicas: religiosas, morais, políticas, econômicas e domésticas.
Em 538 Ciro conquistou a Babilônia e permitiu o retorno dos exilados para a sua terra de origem. Estes passaram desde então a denominarem-se ´judeus´. O período que segue é de fundamental importância para a evolução futura da história dos judeus e do judaísmo. Adquiriram maior significado as práticas diárias das tradições, e criaram-se as sinagogas, lugar de culto e estudo.
No século IV a.C., com as conquistas de Alexandre, o helenismo penetrou também na Judéia. As classes privilegiadas embeberam-se na cultura grega, enquanto a massa do povo permaneceu fiel às tradições judaicas. Quando Antíoco IV Epifanes proibiu a prática dessas tradições, impondo um padrão helenístico a todos os seus súditos, um grupo de judeus revoltou-se contra as forças opressoras, organizando-se num movimento popular. Os rebeldes, que se tornaram conhecidos pelo nome de macabeus, venceram o inimigo e proclamaram o Estado independente em
Entre
As principais seitas era as seguintes: 1) a dos saduceus, que conheciam a Torá, porém atribuíam maior importância à nação; 2) a dos fariseus, que eram leais ao Estado, mas davam prioridade à Torá; 3) a dos essênios, ascéticos que pregavam uma vida de reclusão; a esta seita pertenciam os nazarenos, judeus cristãos que acreditavam ser Jesus de Nazaré o Messias esperado; 4) a dos zelotes, patriotas que procuravam uma solução imediata, alimentando-se no ideal messiânico em seu sentido social, político e nacional.
Estas seitas refletem os diferentes aspectos do judaísmo de então. A descoberta dos manuscritos do mar Morto, em 1947, trouxe nova luz ao estudo desse período.
Em 70 d. C., os romanos sitiaram Jerusalém e conquistaram a Judéia. Inflamados por suas esperanças messiânicas, os judeus, revoltados contra o governo de Roma, continuaram a luta e resistiram até o ano 73, quando foram liquidados os últimos remanescentes da rebelião.
No início do século II, o povo judeu, governado por Barcocheba, levantou-se novamente contra Roma. Os rebeldes resistiram por dois anos até serem completamente destruídos em 135.
O país recebeu definitivamente a denominação de Palestina. Com o fracasso político, os ideais messiânicos do povo judeu foram momentaneamente substituídos por um renascimento religioso. A Torá continuou a ser estudada e interpretada em dois centros principais: Palestina e Babilônia. Os judeus dedicaram-se fervorosamente ao estudo - ao que lhes havia sido transmitido por Moisés e, mais ainda, àquelas tradições orais que lhes foram paralelamente legadas de geração a geração. Essas tradições orais tornaram-se conhecidas pelo nome de Talmude.
Depois de dispersos, os judeus procuraram viver concentrados, a fim de poderem guiar-se pelas leis talmúdicas. Sua maneira de viver própria foi utilizada pela propaganda anti-semita medieval como pretexto para perseguições, quando crises de ordem social e econômica abalavam a sociedade cristã. A partir das cruzadas, a história registra severas perseguições contra a população judaica, e a sua expulsão de alguns países das Europa ocidental.
Durante várias gerações os judeus foram obrigados a viver, em certos países, em bairros separados, chamados guetos, proibidos de participar da vida econômica e cultural.
Com a vitória do islamismo (711), a história dos judeus se deslocou gradativamente do Oriente para o Ocidente, sem perder a sua continuidade. Os judeus tiveram na Espanha a sua idade de ouro, primeiro sob domínio dos califas, depois sob o dos reis cristãos. Viviam em comunidades independentes, dirigindo-se autonomamente e seguindo suas práticas religiosas, mas em contínuas e estreitas relações com a população cristã.
Foram produto do judaísmo ibérico pensadores como Ibn Gabirol, Judah Halevi e Maimônides. Em 1492, os judeus foram expulsos da Espanha e, em 1496, D. Manuel ordenou a conversão forçada de todos os judeus de Portugal.
Estas medidas deram origem a um fenômeno conhecido como ´cristão-novo´ e que durante três séculos marcou a história social e econômica de Portugal e Espanha. Os cristãos-novos tiveram um papel considerável na colonização da América, principalmente do Brasil, onde se dedicaram à agricultura e ao comércio açucareiro.
As sucessivas expulsões e degradações a que estiveram sujeitos os judeus no mundo ocidental durante os últimos séculos da Idade Média reavivaram o velho ideal messiânico que se havia manifestado de diversas maneiras, no decurso de sua história.
O fundamento de sua concepção messiânica era a crença numa idade messiânica a ser alcançada pela ação humana e não por intervenção sobrenatural. O surgimento do pseudo-messias, como David-Rubeni, no século XVI, e Sabbatai Zebi, no século XVII, provocou sérios conflitos nas comunidades judaicas. Esses movimentos messiânicos tinham como objetivo essencial, em seu caráter nacional, a volta dos judeus à terra dos seus ancestrais, e, em seu caráter universal, a implantação de uma sociedade de paz e justiça. Tais idéias continuarão a desenvolver-se e servirão, do ponto de vista ideológico, como base para a identificação dos judeus com os movimentos de libertação nacional e política dos povos oprimidos nos séculos XIX e XX.
A partir da Revolução Francesa (1789) os judeus passaram a gozar, pouco a pouco, de igualdade jurídica na sociedade ocidental. Isso levou muitos a julgar que a emancipação havia resolvido o problema judeu. Mas, quando se abriram novos campos de colaboração no terreno das ciências e artes, verificou-se um recrudescimento do anti-semitismo. Paralelamente à idealização democrática e liberal do homem, progrediu um nacionalismo intolerante, que alcançou sua expressão máxima no nacional-socialismo alemão.
Os movimentos de emancipação dos povos no século XIX e a intensificação do anti-semitismo deram ao ideal messiânico do retorno uma nova expressão - o sionismo, cujo expoente mais remoto, Moses Hess, desenvolveu a tese de que os judeus tinham um papel vital a desempenhar no desenvolvimento da história mundial.
O judaísmo expressa uma filosofia social que visa à perfeição da sociedade humana, mas os judeus somente poderiam desenvolver essa idéia se vivessem livres em sua velha pátria. Segundo Ahad Ha-am (pseudônimo de Asher Ginzberg), que foi a consciência espiritual do nacionalismo judeu, a missão do sionismo não era apenas salvar os judeus, mas também o judaísmo.
Em 1897, foi fundada a Organização Sionista Mundial, com a finalidade de estabelecer na Palestina um ´lar nacional judaico´. O principal líder do sionismo foi Theodor Herzl. O século XX presenciou dois acontecimentos de grande importância par a história dos judeus: o extermínio de dois quintos do povo judeu pelos nazistas e o renascimento nacional desse mesmo povo em sua terra de origem. Com a fundação do Estado de Israel (1948) inicia-se uma nova etapa na história dos judeus e do judaísmo.