Testemunhos de cripto-judaísmo no semi-árido paraibano

 

 

 

O semi-árido dos estados setentrionais nordestinos, como Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, se notabilizou por abrigar refugiados cripto-judeus que fugiam desesperadamente da fúria implacável que caracterizou a ação da inquisição em boa parte da zona litorânea nordestina.

 

Os ermos esquecidos de domínio da caatinga, bem como diversas zonas serranas, apresentam populações com sobrenomes cristão-novos e características étnicas aproximadas do biótipo dos antigos sefaradis.

 

A professora doutora Anita Novinsky descobriu em Portugal processo datado de 1731, no qual há acusação de cripto-judaísmo provenientes de um marrano de nome Ignácio Cardoso. A respeitada pesquisadora faz referência a este cripto-judeu em seu célebre livro por título Inquisição - Rol dos Culpados (1992).

 

Provavelmente a família desse judeu convertido forçadamente enfrentou de novo a perseguição implacável da inquisição, talvez no final do século XVIII. Registros familiares guardados pelos Cardosos radicados em Pombal, estado da Paraíba, apontam para a vinculação hebraica do patriarca João Ignácio Cardoso, casado com uma sertaneja de nome Catarina Moura Mariz, possivelmente aparentada com a família Seixas de Alencar, da localidade de Mari dos Seixas, município de São João do Rio do Peixe, estado da Paraíba, para onde, conforme a memória dos antigos, transmitida de geração a geração, se radicou inicialmente o referido cripto-judeu, provavelmente em razão de estar procurado pelo Tribunal do Santo Ofício.

 

Fixados em Pombal, diversos clãs sertanejos foram se incorporando à descendência do sofrido filho de Davi. Destacou-se, no entanto, o enlace matrimonial de um dos filhos deste, de nome Aarão Ignácio Cardoso, o qual veio a desposar sobrinha de nome Facunda Alencar, filha do segundo matrimônio de Félix Antônio Liberato de Alencar com Guilherma Ignácio Cardoso de Alencar.

 

O velho casarão onde residiu o casal Cardoso de Alencar, localizado na Rua Coronel João Leite, município de Pombal, trazia um segredo há pouco desvendado. Aarão Ignácio Cardoso, de forma ousada, adornou seu lar com um frontispício destacando uma rosa, a qual, na verdade, é a Estrela de Davi, símbolo máximo do povo judeu.

 

Descoberto ao acaso o genial artifício usado pelo cripto-judeu pombalense, a fim de referendar sua origem e, principalmente, a essência de sua fé, no entanto, angústia dilacerante se apossa de quem busca a preservação das raízes calcadas na antiga sefaradi.

 

O velho casarão que guarda prova inequívoca da presença judaica no semi-árido nordestino, paraibano em particular, se encontra ameaçado de ser demolido, de ser transformado em escombros de uma história de luta e perseverança, a qual objetivou sobreviver ao ódio ensandecido e inexplicável que ainda, infelizmente, é devotado a um povo inteligente, escolhido. Basta observarmos o total de ganhadores do Prêmio Nobel ao longo de sua instituição enquanto honra maior em áreas diversas em todo o planeta.

 

Para entendermos o sentido que embasa a formação de nossa identidade, precisamos, em primeiro lugar, tomarmos consciência do valor que a história assegura no que diz respeito à trajetória do povo judeu ao longo de sua imensa e intensa peregrinação pelo globo.  

 





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