Uma comitiva de 30 brasileiros seguiu anteontem para Roma, onde vai entregar ao papa Bento 16, ainda no final deste mês, um documento com 350 páginas e um abaixo-assinado com cerca de 150 mil assinaturas, para tentar reabilitar o padre Cícero Romão Batista (1844-1934), o padre Cícero.
A reabilitação significará o retorno do padre Cícero à Igreja Católica. Em vida, o religioso teve suas ordens suspensas e foi impedido inclusive de rezar missas. Ainda assim, ele é hoje tido como santo por milhares de devotos em todo o Nordeste, que seguem em romaria a Juazeiro do Norte (a 570 km de Fortaleza), para venerá-lo.
A comitiva é liderada pelo bispo do Crato, cidade vizinha a Juazeiro do Norte, d. Fernando Panico. Outras 38 pessoas, entre elas empresários, religiosos e acadêmicos, deverão seguir ainda na próxima semana à Itália para completar o grupo.
Segundo d. Fernando, foi o próprio Joseph Ratzinger --o papa Bento 16-- que sugeriu, quando ainda era bispo e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em 2001, que fosse iniciado um estudo para o processo de reabilitação do padre Cícero.
A rejeição da cúpula da Igreja Católica ao padre Cícero começou depois que ele ganhou fama como milagreiro e passou a levar multidões de fiéis a Juazeiro do Norte.
Isso foi em 1889, quando uma hóstia entregue por ele à beata Maria de Araújo se transformou, na sua boca, em sangue, segundo relatos.
O mesmo fenômeno teria acontecido diversas vezes. Após várias verificações feitas por outros padres e bispos, a cúpula da Igreja decidiu rejeitar o milagre.
Ao insistir na veracidade do milagre, padre Cícero foi excomungado em 1917, mas em seguida foi perdoado. Três anos mais tarde, porém, teve suas ordens suspensas em definitivo.
A postura oficial da Igreja não afetou o culto ao padre. Estima-se que, anualmente, sigam a Juazeiro do Norte cerca de 2 milhões de fiéis, que rezam no túmulo do padre Cícero e na estátua construída no alto de um morro.
Além de religioso, padre Cícero teve forte atuação política. Foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte e chegou a ser vice-governador do Estado. Ele também mantinha fortes relações com o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
Com o retorno oficial à Igreja, será iniciado outro processo, para a beatificação do padre. Somente depois de passar por tudo isso é que ele poderá ser tido como santo.