Liverpool e o nascimento do
Pop Rock inglês
Quem conhece os Beatles e as bandas inglesas dos anos 60 que deram origem à Jovem Guarda no Brasil, deveria saber que tudo começou numa cidade portuária do norte da Inglaterra chamada Liverpool, que só se destacava pelo porto famoso, pelo time de futebol e só.
Como
se tratava de um porto de entrada para a Inglaterra, inclusive em termos de comércio exterior, muitos produtos americanos como discos, cigarros e revistas em quadrinhos, chegavam até os ingleses de Liverpool, que no período pós-guerra era uma cidade fria, cinzenta e cheia de prédios antigos.
Tendo sido duramente bombardeada pela aviação alemã na Segunda Guerra Mundial, por ser um porto estratégico, Liverpool ainda trazia as cicatrizes do conflito na sua arquitetura urbana no início dos anos
Enquanto as emissoras de rádio britânicas como a BBC por exemplo, davam pouco espaço para o rock, em Liverpool, a moçada ouvia com paixão os lançamentos do estilo, e muitos jovens começaram a comprar equipamento para formar bandas. Esse fato motivou um disco jockey local chamado Bob Wooler, a divulgar os conjuntos e artistas locais.
CAVERN CLUB - A CATEDRAL ROQUEIRA
Pois bem. Em 1961, Liverpool já contava com 273 band
as e mais de 300 clubes, e por conta disso surgiu até um jornal especializado nessa onda musical que tomava conta da cidade- o Mersey Beat. Para completar um antigo clubezinho de jazz muito simples chamado The Cavern Club, localizado na Mathew Street, passou a acolher as bandas de rock de Liverpool em apresentações e eventos que logo se tornaram célebres.
A Mathew Street era uma rua cheia de armazéns com odor de cereais no ar, e o Cavern era um porão com um lance de escada de dezessete degraus, apertado e com cheiro constante de fumaça de cigarro, suor humano e desinfetante de banheiro. Um palcozinho simples e com iluminação da mesma categoria com um par de spots fixos, recebia as bandas já com renome local, inclusive os Beatles que lá tocaram 275 vezes entre 9 de fevereiro de 1961 e 3 de agosto de 1963, em um exercício de palco de muita valia para sua carreira futura.
O disc jockey Bob Wooler era o mestre-de- cerimônias anunciando os músicos que subiam os três degraus que conduziam ao palco de madeira. O Cavern, apesar de muito freqüentado, era um local abafado, sem ventilação nenhuma, e com salas de três metros de largura que mais pareciam túneis, mas apesar das limitações, a história do rock inglês começou a ser escrita ali. Várias bandas de Liverpool passavam pelo Cavern de maneira quase obrigatória o que tornou o recinto uma autêntica catedral do rock inglês, apesar da infinidade de clubes que havia então na cidade. O Cavern foi demolido mais tarde e reconstruído em outro ponto da cidade, e em seu lugar foi aberto um estacionamento de veículos. Hoje em dia é um marco histórico com ampla afluência turística.
Com a cena aberta para o rock, era normal que aparecessem empresários ávidos de faturar em cima da nova onda, e um deles foi Brian Epstein que empresariou os Beatles e outros nomes que logo chegaram ao mundo do disco e a fama. Uma cidade cheia de clubes e bandas logo se tornou um celeiro de talentos e a capital do pop rock no mundo inteiro.
ROCK ENRIQUECIDO
Logo outras bandas e nomes surgiram no cenário de Liverpool, como Gerry and the Pacemakers, Billy J. Kramer e os Dakotas e Cilla Black só para citar alguns.
O que se convenciona chamar de Jovem Guarda no Brasil, surgiu no meu entender da fusão que os ingleses de Liverpool principalmente fizeram do rock tradicional americano com elementos musicais do folclore e das baladas britânicas, em suma-os ingleses conferiram maior riqueza harmônica e melódica ao rock quadrado americano, todo calcado no blues e no rhytmn and blues de origem negra.
O rock renasceu por mãos inglesas, e o som de Liverpool foi logo batizado de Mersey Sound, o Som do Mersey, uma referência ao rio do mesmo nome que cruza a cidade inglesa.
Outro fator interessante que deu ensejo a eclosão de tantas bandas inglesas, foi a extinção serviço militar obrigatório em novembro de 1960, o que fez com várias carreiras musicais não fossem interrompidas (a dos Beatles inclusive) pela convocação do exército, a exemplo do que ocorreu com Elvis Presley nos Estados Unidos.
O som de Liverpool ganhou adeptos em todo o planeta e entre 1962 e 1966 ele se manteve como padrão definitivo da música pop, até dar lugar ao psicodelismo e às guitarras distorcidas em 1967. Contudo, o estilo se consagrou de verdade se tornando um ícone da música popular até mesmo por conta de sua inocência e vitalidade, desaguando em frutos no mundo inteiro como é o caso da Jovem Guarda brasileira.
Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico, jornalista e colaborador do Portal Messejana.