Orgias e brigas em gravação
dos Rolling Stones
Foi lançado recentemente o livro "A Season in Hell with the Rolling Stones", (Uma Estação no Inferno com os Rolling Stones) de Robert Greenfield, narrando a permanência dos Rolling Stones na Riviera Francesa, Sul da França, para gravar o seu álbum duplo- "A Exile on Main Street", (Exílio na Rua Principal) no verão de 1971.
O álbum iria servir de reforço para a turnê americana de 1972, e como os Stones estavam com problemas financeiros e precisavam fugir dos vorazes impostos ingleses, resolveram dar um tempo pela França mesmo.

O local de gravação escolhido, foi o porão e adega de Villa Nellcôte, uma mansão alugada pelo guitarrista da banda Keith Richard, também compositor do grupo. A tal residência havia sido um quartel general nazista na Segunda Guerra Mundial.
Acontece que Nellcôte, apesar de suntuosa e aprazível, acabou se tornando de acordo com o livro de Greenfield, um ponto de encontro de traficantes, parasitas e bandidos de baixa categoria que forneciam heroína para o dono da casa e sua esposa a atriz Anita Pallenberg.
Logo esses elementos de reputação duvidosa acabaram se misturando com aristocratas amigos dos Stones, super astros drogados como Gram Parsons, e gente bem mais famosa como Eric Clapton, e John Lennon, que sempre que apareciam na região, davam uma passadinha em Nellcôte para visitar o decadente Keith Richard.
As sessões de gravação começaram com a montagem da unidade móvel dos Rolling Stones na adega, e foram agendadas no horário entre oito da noite e três da manhã diariamente, só que essa agenda vivia sendo descumprida por conta da irresponsabilidade do próprio dono da casa, que mesmo morando no local, chegava atrasado e às vezes demorava só uma hora gravando e se mandava para só voltar já no final da sessão quando já não havia quase ninguém disponível para trabalhar.
Esse comportamento logo foi atribuído ao vício da heroína, já que Keith estava recebendo remessas bem altas da droga e tanto consumindo em larga escala junto com a mulher Anita, como oferecendo para os músicos e quem estivesse na equipe, e aparecesse por lá.
Logo a ausência de profissionalismo se instaurou, com o próprio Keith cochilando drogado na hora de colocar um solo de guitarra numa música, por exemplo, e ficar inerte com os técnicos de gravação aguardando pacientemente que ele voltasse da viagem.
TRAIÇÃO E BRIGA
Com um clima desses pairando no ar, boa coisa não iria acabar acontecendo, como de fato aconteceu. Uma certa noite, Keith, sua mulher Anita, um convidado inglês Tommy Weber, duas garotas francesas e o traficante oficial e guarda costas de Keith, Tony Sanchez cismaram de tomar um barbitúrico fortíssimo Mandrax com conhaque Courvoisier após o jantar e dormir todo mundo amontoado na enorme cama do quarto de Sanchez.
Por volta da cinco da manhã, Sanchez acordou para flagrar Weber fazendo amor com Anita, enquanto Keith,o maridão roqueiro, dormia como um anjo drogado ao lado do casal.
Pela manhã Keith e Sanchez saíram em um carro Jaguar e mais alguns convidados em outro carro Dodge e foram olhar uma lancha para comprar, na marina de Beaulieu. No caminho Sanchez contou a Keith a cena que presenciara na madrugada anterior, no que este ouviu em silêncio, sem fazer nenhum comentário.
Ao chegar à marina, um carro com um casal de italianos idosos roçou de lado no Jaguar de Keith, que saltou do carro com uma faca alemã de caça que tirara da bolsa e começou a esbravejar com o casal de velhos que se desculpava inutilmente para o roqueiro enfurecido.
O diretor da marina Jacques Raymond veio em socorro dos velhos apavorados com aquele cabeludo drogado, armado de faca e possesso em sua fúria, e os fez entrar em seu escritório enquanto mandava Keith embora com gestos, o que o deixou mais enfurecido ainda, continuando brandindo ameaçadora a faca, agora em direção ao francês.
Após uma discussão em dois idiomas, inglês e francês, sem que ninguém entendesse os insultos do outro, Raymond, um gigante um metro e noventa de altura, aplicou um monumental murro na cara de Keith, que aterrissou no chão, como se pousasse de um vôo.
Sanchez retribuiu o soco, acertando Raymond que também foi ao chão, no que Keith correu para o Jaguar e pegou a pistola de brinquedo do filho Marlon que a tudo presenciava apavorado, e a apontou para Raymond que puxou um revolver de verdade, e só não matou Keith, porque Sanchez tirou a arma de brinquedo da mão do guitarrista a e jogou fora pedindo a Raymond pelo amor de Deus que não atirasse, pois Keith estava desarmado.
As sirenes da polícia acabaram dispersando o conflito, e os arruaceiros após uma fuga em altíssima velocidade, terminaram se trancando em Nellcôte, providenciando para que todo e qualquer flagrante de droga fosse posto fora de alcance, já que a polícia iria fatalmente aparecer, o que realmente aconteceu na tarde seguinte.
Com a presença dos advogados dos Rolling Stones, e Keith inventando que Raymond teria agredido seu filho ainda criança, a questão foi resolvida, com o delegado de polícia comparecendo a um jantar à noite em Nellcôte e ganhando alguns álbuns dos Stones autografados.
A POLÍCIA VOLTOU
A polícia, contudo marcou o incidente, a figura e local, e algum tempo depois deu outra batida para saber o que pessoas ligadas ao tráfico internacional de narcóticos vinham fazer em Nellcôte.
Se vendo encrencado pelos boatos de orgias regadas a drogas e sessões de magia negra promovida por Anita, além das suspeitas da polícia em cima da presença de elementos perigosos em sua casa, Keith resolveu fugir de Nellcôte para não acabar mofando em uma cadeia francesa qualquer, levando a família a tiracolo.
Afinal, por conta da presença de gente de origem duvidosa em sua casa, Keith já arcara com vários prejuízos de ordem moral e material, inclusive o furto de onze instrumentos musicais de dentro de sua própria casa, o que o fez chorar como uma criança abandonada.
A polícia deu mais uma batida em Nellcôte, mas encontrou apenas os empregados e uma boa quantidade de heroína e cocaína. Keith foi logo providenciando um tratamento na Suíça para se desintoxicar, e se livrar do vício da heroína, passando por um período de muito sofrimento e abstinência.
Não adiantou. Keith celebrou a "cura" com uma cafungada monumental de uma heroína puríssima encomendada às pressas da Inglaterra.
A traição de Anita acabou se diluindo em um bate boca com Keith alegando que sabia de tudo, mas acabou não dando em nada, já que não era a primeira vez que Anita o traía, pois ela chegou a ter um caso com nada mais nada menos do que Mick Jagger, vocalista da banda e parceiro de composição de Keith Richard.
Tommy Weber, o tal gostosão que fez amor com Anita, ainda demorou um tempo na mansão, segundo Greenfield, se retirando mais tarde. Resumindo, questões assim pareciam não ter muita influência na relação entre Keith e Anita.
Apesar de todo esse clima profissionalmente adverso, o tal álbum acabou contudo sendo concluído, sendo considerado um dos melhores da carreira dos Rolling Stones.
Luiz Antônio Alencar - Peninha- Eterno Big Brasa, músico e jornalista.