Um passeio pela origem do rock
psicodélico e progressivo

De repente a partir de 1966, o rock saiu daquela fórmula inocente característica da primeira metade da década de 60, para um formato mais pesado, com guitarras distorcidas, pedais com efeitos especiais e amplificadores bem mais potentes. Tocar bem mais alto virou a regra, daí quanto mais watts em um amplificador, melhor.
Por outro lado, o quadro de influências se ampliou, criando assim um autêntico vale tudo roqueiro, desde o folk, o country, a música medieval e erudita, com um passeio pela música eletrônica, o blues, o jazz, o que rolasse. Essa mistura fina de técnicas e estilos passou a ser denominada som psicodélico, uma palavra que traduz assim toda uma exuberância de cores e sensações variadas.
Mudaram também as letras, abordando temas mais abrangentes como misticismo, questões sociais, protesto, magia, política e os efeitos das drogas, do LSD em particular, que se tornou moda na época, até a manifestação de seus efeitos devastadores em mentes brilhantes, dentro do próprio rock inclusive, por sinal o fundador do Pink Floyd, o guitarrista Syd Barrett, foi uma delas, mas isso já é outra estória.
O certo é que todo esse programa de mudanças estéticas e culturais em geral foi atrelado ao movimento hippie com sua filosofia de rompimento com a sociedade e o sistema, partindo para a criação de um estilo de vida mais alternativo, assentado em uma linha de comportamento mais libertária, pelo menos em tese.
No tocante ao rock, de repente haja pauleira, tanto no palco como no estúdio, levando-se em conta que as gravações que raramente ultrapassavam a faixa dos três minutos, de repente passaram a se estender por períodos mais extensos, até mesmo por conta dos prolongados solos de guitarra de preferência distorcida e com outros efeitos que começavam a surgir em meio a dinâmica inovadora do período .
Os shows por sua vez seguiram a mesma fórmula, saindo do habitual limite de cerca de meia hora até então, para uma duração bem maior com efeitos visuais e iluminação estilizada, tudo direcionado de modo a conduzir a um estado específico de êxtase sensorial induzido.
ALBUNS MARCANTES
Em Londres, que se tornou a Meca do rock nos anos 60, surgiu um grupo chamado Pink Floyd já em 1966 se apresentava em um local chamado UFO, uma clara referência a discos voadores. (UFO é uma sigla inglesa que quer dizer Unindentified Flying Object, ou seja, Objeto Voador Não Identificado).
O som do Floyd com alusões a viagens espaciais e outras incursões mentais aqui na terra mesmo, transformou-se em um disco chamado "The Piper at the Gates of Dawn" (O Gaiteiro nos Portões da Madrugada), lançado em 1967.
Os Beatles gravaram dois discos em 1966 e 1967, "Revolver" e "Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band" respectivamente. O primeiro disco, o "Revolver" no caso, contou com toda uma amostragem de novas possibilidades fonográficas, incluindo solos de guitarra gravados e reproduzidos ao contrário, bem como instrumentos indianos e sinfônicos,além de abordagens a nível de letra bastante fora do costumeiro padrão romântico do pop rock até então.
Nesse mesmo disco os Beatles tanto protestaram contra o imposto de renda inglês, como abordaram a temática das pessoas solitárias e do misticismo oriental com a mesma desenvoltura.
Já no Sargent Pepper's essa postura foi mais além, fazendo com que o disco se tornasse um marco do rock progressivo e psicodélico, reunindo toda uma variedade de tendências e instrumentos presentes na música universal, e gravado durante 800 horas de estúdio em apenas quatro canais.
Foi um autêntico trabalho de artesanato sonoro levando-se em conta as evidentes limitações técnicas da época.
Outras bandas começaram a se destacar como o Cream, (creme, nata) grupo inglês com Eric Clapton, guitarra, Jack Bruce, baixo, e Ginger Baker, bateria e seu álbum célebre Disraeli Gears, e o Jimi Hendrix Experience, com os seus célebres discos "Axis": Bold as Love" (Eixo:Ousado como o amor) e " Eletric Ladyland" (A Terra Elétrica das Damas) .
Jimi Hendrix, guitarrista norte-americano de nascimento, mas de formação musical inglesa, levou a guitarra e suas possibilidades até as últimas conseqüências, usando efeitos sonoros variados, tanto no estúdio como no palco, chegando até a tocar com a própria língua, fazendo da mesma uma palheta viva.
Logo a era dos festivais foi aberta com o Festival de Monterey de 1967, com destaque para o show de Jimi Hendrix, no qual ele simplesmente incendiou a própria guitarra, depois de simular um ato sexual com ela, roçando em um amplificador que urrava com tanta microfonia, como se estivesse sentindo algum tipo de excitação. Microfonia é um som agudo como um intenso piado, que via de regra acusa algum problema técnico na amplificação.
O ROCK PROGRESSIVO EM CENA
Como desdobramento do psicodelismo, surgiu o rock progressivo, representado por bandas bem significativas no estilo como Yes, King Crimson, Emerson Lake and Palmer, só para citar algumas, isso já no início da década de 70.
Elas já chegaram ao cenário apresentando um viés mais erudito e sinfônico, trazendo como inovação os sintetizadores eletrônicos, ancestrais dos teclados sofisticados tecnologicamente que vieram a seguir.
Esses grupos, contudo passaram a expandir as características mais ousadas e vanguardistas do psicodelismo, abrangendo desde baladas medievais e folclóricas das Inglaterra e Europa em geral, até toques de música eletrônica e jazz, e é claro, um forte tempero de música erudita.
Com tais bandas surgiu no panorama da música popular uma onda e uma tendência bem mais progressivas, oriundas por sua vez da própria filosofia musical do psicodelismo, criando assim uma escola bastante inovadora, exuberante e rica, no universo roqueiro.
Luiz Antônio Alencar - Peninha- Eterno Big Brasa, músico e jornalista.