
O ano de 1958 pode ser considerado um marco para a MPB pela eclosão de dois movimentos de suma importância - a bossa nova e o rock. No mesmo ano o cantor Carlos Gonzaga lançava a música “Diana” numa versão brasileira do original do cantor e compositor canadense Paul Anka.
Anka com 14 anos dedicou a sua composição de estréia e sucesso absoluto a uma mulher mais velha e a canção, não só marcou gerações, como serviu de referencial ao surgimento da primeira leva roqueira do Brasil, que foi batizada pelo cantor de rock Tony Campello de a primeira dentição do rock brasileiro.
No final dos anos 50, nomes como Celly Campello, Tony Campello e Sérgio Murilo visitavam com assiduidade as paradas de sucesso brasileiras. Geralmente os primeiros rocks nacionais eram versões de sucessos norte-americanos e um grande versionista desse período foi Fred Jorge que teve a mesma importância que Lillian Knapp, da dupla Leno e Lílian, e Rossini Pinto do período da Jovem Guarda na elaboração de versões.
A Jovem Guarda por sua vez já se assentou na sua segunda leva roqueira oriunda da Inglaterra, e já falamos a respeito nesse portal.
Acontece que no mesmo ano de 1958, o cantor e violonista baiano lançava a canção “Chega de Saudade” de Tom Jobim e Vinício de Moraes servindo de ponto de partida e referência para o movimento da Bossa Nova, assentado em um sambinha mais lento,mais elaborado com acordes dissonantes, e bem mais intimista, um tipo de música que poderia ser executada para uma namorada mantendo as suas peculiaridades.
Vale salientar que a Bossa Nova contava com uma vertente intelectualizada centrada na Zona Sul do Rio de Janeiro, e logo se nucleou no esquema de turminha se elitizando de imediato.
Uma postura voltada para a política e a preservação da música nacional e suas raízes, fez com que a turma da bossa implicasse com o pessoal do rock e da Jovem Guarda, influências estrangeiras, segundo eles, esquecendo ainfluência americana do jazz na Bossa Nova.
Nomes como Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Nara Leão e Ellis Regina compunham o lado “cabeça” da MPB, enquanto Roberto Carlos ,Wanderléa, Erasmo Carlos, Renato e seus Blue Caps, The Fevers e Incríveis, só para citar alguns, integravam otime da turma do rock, do namoro, e da vida despreocupada, sem querer mudar estrutura política nenhuma, mas mudando sem querer.
PASSEATA CONTRA A GUITARRA ELÉTRICA
De um lado uma esquerda que se manifestava na música, no teatro, na literatura e no cinema, e no outro uma galera que com seus cabelos longos, roupas diferentes, atitudes irreverentes e canções despretensiosas mais criativas, integrava um bloco de mudanças a nível internacional que iria gerar transformações sociais muito mais duradouras do que a sua contrapartida da Bossa Nova, e o que é mais interessante- Não estavam sequer preocupados com isso.
Como a Jovem Guarda faturava mais do que a Bossa Nova, os pares desse último movimento organizaram uma passeata contra a guitarra elétrica como “símbolo da invasão imperialista estrangeira na nossa música” e outras baboseiras do gênero. Caetano Veloso e Nara Leão foram dois nomes que desaprovaram a histórica asneira de se fazer uma manifestação contra um instrumento musical e uma evolução tecnológica natural da própria música.
A TROPICÁLIA ENTRA EM CENA
De besteira em besteira, a esquerda bossanovista acabou se diluindo no movimento da Tropicália, com Caetano Veloso, Gilberto Gil e a banda de rock paulista Mutantes, com Rita Lee, e os irmãos Arnaldo e Sérgio Batista, uma espécie de espaço de conciliação entre a Bossa Nova e a Jovem Guarda.
A Tropicália acabou se tornando uma síntese na medida em que elementos e posturas intelectualizadas da Bossa Nova se uniram á guitarra elétrica e aos procedimentos melódicos e harmônicos do pop rock de então.
Resumindo - uns ingredientes da Bossa Nova com outros da Jovem Guarda, e mais umas pitadas de outros estilos tanto brasileiros como estrangeiros, deram origem a uma terceira onda que acabou criando uma nova escola presente em trabalhos posteriores como o álbum duplo “O Clube da Esquina” de 1972, com Milton Nascimento, e os irmãos Márcio e Lô Borges, numa resposta mineira à universalização da música brasileira com a abertura total à incorporação de novas tendências e influências.
A reação cearense veio na presença do movimento “Pessoal do Ceará” com Ednardo, Fagner, Belchior, Roger Rogério, Téti, Cirino, Jorge Melo e Petrúcio Maia, só para citar alguns. A semente começava assim a gerar frutos saborosos e duradouros.
Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico e jornalista.