Raul seixas - a saga de um roqueiro boêmio

 

 

 

 

 

Raul dos Santos Seixas degustava um copo de suco de laranja com vodka logo de manhã cedo, quando Marcelo Nova, seu parceiro então reclamava:

 

- pô, Raul, já tá bebendo uma hora dessa, cara.”

 

- pô, marceleza, é só um suquinho de laranja.”

 

Depois do café da manhã etílico, Raul descia do apartamento para um barzinho por perto, onde permanecia até a hora do almoço, quando beliscava alguma coisa e capotava, para acordar mais tarde e começar tudo de novo.

 

A rotina etílica de Raul Seixas o conduziu a várias internações por alcoolismo, e a atitudes insólitas, como descer do apartamento de um amigo depois de beber até as duas da madrugada, e por volta das cinco da manhã, sentar na calçada sem camisa com alguns bêbados noturnos e ficar bebendo cachaça e tocando no violão músicas do Elvis Presley até o dia amanhecer.

 

Ou então se dirigir ao estúdio para gravar e ficar pedindo ao motorista para parar de bar em bar, para chegar ao local de trabalho já bem “chumbado”.

 

Contudo, Raul Seixas além de brilhante, chegou a exercer o cargo de produtor da CBS, com bastante responsabilidade e competência.

 

Raulzito e os panteras

 

Através do cantor Jerry Adriani, Raul dos Santos Seixas foi nomeado produtor da todo poderosa gravadora CBS, chegando até a compor cerca de 80 músicas para abastecer os seus contratados.

 

O próprio Jerry Adriani foi brindado com músicas do Raul, como “tudo que é bom dura pouco,” e” doce, doce, amor”, grandes sucessos do Jerry.

 

Jerry Adriani inclusive conheceu Raul com a banda “Raulzito e os panteras” na Bahia, gostou do grupo, a ponto de contratá-los para uma turnê norte-nordeste, cultivando uma amizade bem estreita que perdurou até a morte do maluco beleza.

 

Criaram até um personagem o “queixada”, que servia para que fizessem brincadeiras íntimas juntos, botando o queixo pra frente e fazendo uma voz engraçada. Jerry relembra uma episódio no qual Raul puxou conversa com um mendigo na rua, e passou um tempão conversando com o cidadão um papo sem pé nem cabeça.

 

De produtor aplicado a gravar um LP com Raulzito e os panteras, foi um passo, só que o disco não emplacou. O destino tinha outros planos para o cantor e compositor baiano.

 

Sociedade alternativa

 

Raul dos Seixas nasceu na Bahia, no dia 28 de junho de 1945, e cedo desenvolveu uma imensa paixão pelo rock de primeira fase, o rockão dos anos 50 de Elvis Presley, Little Richard e Chuck Berry, para mais tarde nos anos 60, se apaixonar pelo rock mais melódico dos Beatles e das outras bandas inglesas da época.

 

Sonhador, visionário e desprendido, Raul chegou, contudo a dar aulas de inglês e violão para faturar uma pontinha, até se estabelecer no mundo do disco.

 

Com a música “Ouro de tolo” ele manifestou a sua insatisfação de ser um assalariado com rotina operária ganhando quatro mil cruzeiros por mês, que por sinal era justamente o seu salário como produtor da CBS.

 

Ao encontrar o poeta e posteriormente parceiro de Rita Lee, Paulo Coelho, Raul se envolveu com o projeto sociedade alternativa, título de uma de suas músicas e que era pautado no livro da lei do mago inglês Aleister Crowley o que posteriormente veio a criar uma série de problemas para Raul, pois o credo de Crowley rezava que não existe deus nenhum a não ser o homem, que deve ser livre para fazer o que quiser, já que “faz o que quiseres está tudo na lei,” segundo o próprio Crowley, frase repetida pelo próprio Raul na música” sociedade alternativa”.

 

Para completar o livro da lei de Crowley conclui seus mandamentos afirmando todo homem tem todo o direito de matar todo aquele que tentar impedi-lo de realizar seus intentos de ser livre. Uma doutrina bem perigosa nesse ponto, portanto.

 

Crowley ainda afirma que todo homem é uma estrela etc. Mas o certo é que a ditadura militar na época, isso na primeira metade dos anos 70, achou que tal sociedade alternativa era um grupo subversivo contra o governo, e não uma turma de sonhadores esotéricos em pleno experimentalismo filosófico, o que era justamente o caso.

 

Raul seixas acabou sendo preso e torturado para que entregasse o nome dos membros da tal sociedade alternativa, sendo expulso do país a seguir.

 

O artista revelaria mais tarde que preferiu dizer para os torturadores que tinha pacto com o diabo do que parte com o regime militar vigente, o que demonstra que o governo para ele era pior do que o próprio demo.

 

De volta ao Brasil

 

Com o imenso sucesso da música “Gita”, Raul foi chamado de volta pelos militares, que na certa acabaram descobrindo que ele não passava de um poeta-filósofo, sonhador inofensivo, o seu reino não era desse mundo, afinal, derrubar governo pra quê? A mudança proposta por Raul, John Lennon e outros do mesmo naipe era uma mudança interior primeiro, para que a transformação social e política viesse.

 

De que adiantaria mudar as peças do tabuleiro, se o jogo continuava o mesmo? A canção Gita, uma alusão ao livro Bhagavad Gita, uma espécie de bíblia da seita Hare Krishna, se refere claramente a onipresença de deus em toda parte. A letra compõe assim um poema belíssimo.

 

Peregrinação boêmia

 

De novo na terrinha brasileira, e já meio afastado do ex-parceiro Paulo Coelho, Raul Seixas começou a sentir o gosto do sucesso e do reconhecimento do grande público, com gravações, shows e começa de uma longa escorregada para um desregramento progressivo de drogas e bebidas que acabou prejudicando-lhe a carreira e tirando-lhe a própria vida prematuramente.

 

A impossibilidade de cumprir compromissos de shows por estar embriagado ou drogado, foi corroendo aos poucos sua carreira e credibilidade.

 

Na cidade de caieiras, interior de São Paulo, Raul foi tido como um impostor de si mesmo, e por não portar documentos, acabou sendo preso e apanhando da polícia sentindo na pele as célebres arbitrariedades de praxe.

 

Aos poucos as portas se lhe foram fechando, apesar do talento continuar em alta e intacto. Nas maratonas de muita bebida e outros aditivos, Raul não parava de compor, segundo testemunhos de pessoas bem próximas. Ele se intoxicava para não perder o fio do delírio, pois a realidade parecia insuportável para ele.

 

A veia criativa de Raul Seixas era uma constante, um filão inesgotável. De repente a vida desregrada começou a pesar- com 44 anos de vida, o maluco beleza chegou a casar cinco vezes, o que demonstrava a sua inabilidade para manter uma união estável, por conta talvez de uma vida muito louca, apesar de se mostrar um ser humano pra lá de sensível.

 

A busca pela metamorfose ambulante através do uso desesperado de modificadores psíquicos artificiais o levou a várias e sucessivas internações por alcoolismo, a perda de parte do pâncreas em uma cirurgia, estragos na arcada dentária, incontinência urinária durante o sono, e um aspecto físico lastimável para uma figura pública.

 

O roqueiro Marcelo Nova, ex-integrante do grupo Camisa de Vênus tentou resgatá-lo, contudo, mesmo já em estado bem deprimente. A receita médica para escapar da bebida e das drogas foi justamente o trabalho e por conta disso, Raul Seixas e Marcelo Nova partiram para uma turnê de 50 shows Brasil afora.

 

Raul não podia tocar em nada tóxico durante a agenda de eventos, tendo que participar dos shows da temporada na base do refrigerante o que o levou até a fazer uma reclamaçãozinha para Marcelo Nova.

 

O certo é que havia até um esquema de segurança para protegê-lo de ofertas inoportunas de substâncias psicoativas por ocasião dos compromissos. Os membros da equipe evitavam até beber na frente de Raul Seixas nos camarins, e pessoas que chegavam aos quarto de hotel oferecendo sacos de cocaína, eram expulsas na pancadaria grossa mesmo.

 

O final

 

A gravação do álbum “A panela do diabo” juntamente com Marcelo Nova, foi o último trabalho de Raul Seixas em vida.

 

No dia 21 de agosto de 1989, a sua empregada Dalva, notou que o patrão estava dormindo além da conta. Ao tentar acordá-lo se apavorou com sua imobilidade e suspeitou que Raul estivesse morto. A presença do médico constatou sua suspeita sinistra. O maluco pegou o trem de que falara em sua música para não mais retornar.

 

O laudo médico diagnosticou uma crise de pancreatite aguda e fatal, mas há, contudo quem tenha uma versão diferente que levanta a suspeita de que Raul teria bebido cheirado e fumado todas na noite anterior a sua morte, escondido de todos e sozinho em seu apartamento, como um menino travesso comendo doce escondido. A travessura, se verdadeira, custou caro, privando a música brasileira de um de seus maiores talentos.

 

O funeral de Raul foi literalmente uma despedida, com fãs cantando as suas músicas numa homenagem triste, mas cheia de música, talvez do jeito que o maluco beleza gostaria que fosse. E foi.

 

 

Luiz Antônio Alencar - eterno Big Brasa, músico e jornalista





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