O fim dos Beatles
No dia 20 de setembro de 1969, houve uma reunião na Apple, empresa que
administrava os negócios dos Beatles, para a assinatura de um documento que aumentava o percentual de royalties oriundos dos discos da banda distribuídos nos EUA pela gravadora Capitol. O tal acordo tornava o grupo mais rico, e tudo indicava que os Beatles estariam mais no auge do que nunca, a não ser por um detalhe. John Lennon, guitarrista base da banda aproveitou o encontro para anunciar que estava saindo da banda.
O clima ficou adverso na medida em que Lennon passou a discordar de tudo no decorrer da reunião, preparando já terreno para anunciar o seu desligamento definitivo. Todos os ficaram lívidos e surpresos, até porque a maré estava alta, já que o último disco lançado Abbey Road, estava bombando em vendas e nas paradas de sucesso.
A TRAJETÓRIA DO FINAL
A última reunião dos Beatles em estúdio foi no dia 20 de agosto de 1969, quando os quatro se encontraram para finalizar a última canção gravada do disco Abbey Road- “I want you” (She’s so Heavy). No dia 04 de janeiro de 1970, Paul McCartney, baixista, George Harrison, guitarra solo, e Ringo Starr, baterista, fizeram uma última reunião em estúdio para gravar “I Me Mine” uma composição de George. John como estava fora da banda, se fez ausente.
John Lennon sempre se mostrou descontente com as pressões do sucesso, com o fato de estar sempre representando o papel de um Beatle feliz, como se vivesse perpetuamente em um palco. A ausência de uma privacidade normal, bem como do direito de ser uma pessoa comum, expondo fragilidades e defeitos o incomodava bastante.
O fato de ser uma pessoa pública, o colocava em constante estado de preservação de imagem, o que gerava para ele uma tensão constante.
A canção “Help” (Socorro) é literalmente um pedido de socorro diante de toda essa situação. Nela ele fala de como era livre antes da fama, e que agora a sua independência “parecia desaparecer no nevoeiro” segundo suas próprias palavras na canção. É um apelo ironicamente paradoxal, tipo- socorro, me acudam que eu estou fazendo sucesso.
Esse tipo de coisa parece ter ficado guardado dentro de John ao longo de sua carreira como Beatle, de modo que mais tarde movido por uma série de fatores, ele decidiu deixar de ser um personagem criado pela mídia e mitificado pelos fãs, para ser simplesmente- John Lennon, um ser humano igual a qualquer um, apesar de se reconhecer como gênio e um artista bem dotado.
Essa postura de John, e mais a insatisfação de George pelo fato de ter dificuldade em simplesmente divulgar o próprio trabalho dentro da banda, já que John e Paul monopolizavam o espaço nos discos para suas composições, acelerou todo o processo de ocaso dos Beatles.
ESTILOS DIFERENTES
Em dezembro de 1965, os Beatles fizeram uma última turnê pela Grã-Bretanha, e ganharam três meses de folga depois de três anos de muita ralação na estrada, intermináveis e incansáveis seqüências de shows.
As excursões consistiam de apresentações de cerca de meia hora na qual tocavam doze músicas, geralmente começando com um trecho da música “Twist and Shout” a partir do solo do meio, que servia de prefixo, e em seguida tocavam um repertório de onze músicas, intercalando novos com velhos sucessos.
O equipamento era composto por três amplificadores Vox na seguinte disposição por cada ano de carreira:
1963 -
Amplificadores Vox de 30 watts para as guitarras e um amplificador de 60 watts para o contrabaixo.
Dezembro de 1963 e junho de 1964 -
Amplificadores Vox de 50 watts para as guitarras e um amplificador de 100 watts para o contrabaixo.
Julho de 1964 a junho de 1966 -
Amplificadores Vox de 100 watts para todo mundo.
Agosto de 1966- Amplificadores Vox de 120 watts para todo mundo.
Para o áudio de voz os Beatles usavam sistemas de som Davoli, italiano ou Echodelle, alemão de 200 watts. Esse mesmo equipamento adotava microfones direcionados para os amplificadores da guitarra e um para a bateria para efeito de realce. Nada de mixagem ou mesa de som, era só ligar tudo, mandar ver no som e seja o que Deus quiser.
A rotina das turnês consistia em um interminável confinamento nos quartos de hotel no intervalo dos shows, onde rolava de tudo segundo o próprio John Lennon em entrevista à revista americana Rolling Stone em 1971. Peter Brown no livro The Love you Make, assinala um consumo desenfreado de anfetaminas, estimulantes químicos durante a turnê norte-americana de agosto de 1964.
No dia 28 de agosto de 1964 o cantor e compositor americano Bob Dylan, visitou os Beatles no Hotel Delmonico em Nova Iorque e os introduziu na maconha, de modo que uma escalada nas drogas começava a pontuar toda a trajetória da Beatlemania.
O certo é que no início de 1966, os Beatles tiraram três meses de férias, e em abril voltaram aos estúdios para gravar “Revolver” seu sexto álbum, que já começava a revelar uma diversidade de estilos que demonstrava que cada Beatle seguia uma rumo musical diferente - John, adentrava o psicodelismo, Paul namorava a música erudita e George, a música indiana.
Os shows ao vivo por sua vez, não apresentavam a qualidade dos trabalhos de estúdio, já que a gritaria dos fãs e as condições técnicas precárias colocavam o trabalho no palco muito aquém do que era produzido no estúdio. Acresça-se a isso o tudo a falta de incentivo da banda em tocar em tais condições. Em um show no Japão em junho de 1966, John errou a letra de “I feel fine“ na hora do vocal, e trocou um Lá maior em “Day Tripper”, por um fá sustenido maior, o que demonstra uma certa falta de entusiasmo refletindo no compromisso estético.
Além disso, as ameaças de morte no Japão por parte de estudantes de extrema direita, as agressões nas Filipinas, e nos EUA, pesaram e fizeram a banda desistir de tocar ao vivo. No Japão tocaram sob proteção militar, pois radicais de direita os ameaçaram por acharem que ao tocarem no Budokan Hall, estariam profanando o santuário das artes marciais.
Nas Filipinas, o empresário do grupo Brian Epstein recusou um convite para um almoço com a Primeira Dama do país, Imelda Marcos o que provocou hostilidade pública, fazendo com que os Beatles fosse agredidos e vaiados na aeroporto na saída do país.
Nos EUA, a declaração de John de que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo, dentro do contexto de uma possível decadência do cristianismo, criou um clima tenso durante a turnê americana, com boicote de execuções de disco nas emissoras, queima de discos em fogueiras públicas e ingressos encalhados em alguns shows.
Por essas e outras a banda decidiu unanimemente para de excursionar, o que provocou um comentário de George Harrison no avião de volta a Inglaterra - “No que se refere a mim eu não sou mais um Beatle”, uma clara sinalização para um possível fim do grupo.
CAMINHOS DIVERSIFICADOS
Como se não bastasse a diversidade de interesses musicais e estilos, como já foi mencionado, se acentuava cada vez mais, e criou mais corpo ainda, com o fim das apresentações ao vivo, que sempre foram autênticos laboratórios de entrosamento.
Esse mesmo diferenciamento estilístico radicalizou-se bastante ao longo de 1967, justamente por ocasião da gravação de Sargent Pepper’s Lonely Heart’s Club Band, um trabalho que congregou um leque bem aberto de tendências e estilos. Gravado entre dezembro de 1966 e abril de 1967, o álbum se firmou como um marco não só na música pop, como também na música universal como um todo.
A verdade é que sem as apresentações ao vivo, os Beatles foram se aprofundando nas suas tendências individuais e afrouxando lentamente os seus vínculos como unidade integrada, ou seja, como banda mesmo. A morte do empresário dos Beatles Brian Epstein, de overdose de barbitúricos aos 32 anos em agosto de 1967, deixou a banda desorientada, fazendo-a derrapar em projetos como o filme Magical Mistery Tour para a TV inglesa que foi duramente criticado pela imprensa e recebido com reticência pelo grande público.
A experiência com o misticismo indiano através do guru Maharishi Mahesh, também se revelou um fiasco, mas um fato começava a acenar como um agente de diluição do grupo- o consumo desenfreado de LSD por parte de John Lennon, que chegou a reunir a banda e assessores para dizer que ele era.... Jesus Cristo, tamanho o seu estado de piração.
Ressalte-se o fato de que a onda de drogas na Inglaterra nos anos 60 foi também facilitada pelo fato da heroína, da cocaína e da morfina serem vendidas com receita médica na época, e fabricadas em laboratórios legais.
Em 1968 a gravação do Álbum Branco revelou uma banda em plena dissolução, como brigas constantes, e gravações nas quais apenas um Beatle participava, já um ensaio para carreiras individuais. O baterista Ringo Starr abandonou as gravações após uma discussão com Paul McCartney que o substituiu nas gravações de algumas músicas. Ringo retornou, mas o estrago do desgaste já estava implantado, até mesmo pela presença da artista plástica japonesa Yoko Ono namorada de John Lennon, que grudava nele no estúdio e segundo consta começava a dar palpites com total desconhecimento da natureza do trabalho dos Beatles, fato que constrangia o resto da banda.
A gravação e filmagem do próximo projeto que se tornaria o álbum e o filme “Let it Be,” revelam uma banda desagregada e sem entrosamento após dois anos e meio sem tocar ao vivo. Mesmo com momentos felizes e harmônicos o projeto mostra no geral uma banda em plena dissolução, em suma, o espírito de grupo fora irremediavelmente suplantado pela necessidade de cada um partir para projetos individuais. Paul McCartney ainda acalentou a idéia de manter o projeto Beatles, mas ele mesmo já desenvolvia a sua própria vertente estilística, a sua orientação musical bem própria e peculiar.
O disco Abbey Road de 1969 foi justamente o epitáfio dos Beatles, no qual se revela quatro músicos caminhando por trilhas diferentes, irmanados apenas pelo fato de estarem tocando juntos. Os Beatles finalmente cansaram de ser Beatles, e resolveram cada um desenvolver um estilo próprio. A marca de um trabalho inesquecível ficou, contudo registrada para sempre na memória musical da humanidade.
Luiz Antônio Alencar - Eterno Big Brasa, músico e jornalista