Keith Richards - o rock fora da lei

O recordista de longe em termos de excessos e problemas com a polícia no universo conturbado do rock é o guitarrista e compositor dos Rolling Stones, Keith Richards. Mesmo sendo responsável, nunca tendo faltado um compromisso sequer da banda, Keith aprontou todas ao longo da carreira da banda.
Um dado emblemático de tudo isso é o livro de Robert Greenfield “exile in main street: a season in hell with the rolling Stones" (exílio na rua principal: uma estação no inferno com os Rolling Stones), que narra a loucura que foi a gravação do álbum da banda " exile in main street", na mansão de Keith Richards no sul da frança em 1971.
Naquele ano, os Stones resolveram residir um tempo na frança para fugir dos vorazes impostos ingleses, e por conta disso Keith alugou uma mansão em villefranche-sur-mer, na costa sul francesa, um lugar suntuoso, mas com um histórico sinistro, já que fora um quartel-general nazista na segunda guerra mundial.
Com todos os Stones morando nas redondezas, se articulou que o próximo álbum do grupo seria gravado no porão da mansão, com o caminhão da unidade móvel de gravação instalado lá fora, e os músicos trabalhando no recinto sem as pressões de horários de uma gravadora convencional.
Em tese era para começar dando certo, mas de saída a coisa começou a dar pra trás.
Acontece que a casa se transformou em uma espécie de clube, com um entra e sai de gente, inclusive roqueiros famosos como John Lennon e Eric Clapton, visitantes pouco recomendáveis como traficantes de Marselha, bêbados, maluquetes e inclusive uma gangue de motoqueiros que ganhavam a vida vendendo drogas e praticando assaltos, cujo mérito era fornecer heroína para Keith e sua mulher a atriz ítala-alemã Anita Pallenberg. Essa turminha ilustre se hospedou na casa de um dos empregados e lá se instalou tranquilamente.
Por conta desse descontrole foi detectado o roubo de onze instrumentos entre guitarras, um baixo e um saxofone. Keith até chorou pela perda de uma de suas guitarras prediletas, acabou botando a gangue no olho da rua, mas o clima de loucura continuou com festinhas, refeições para até 25 pessoas providenciadas por Jacques, um cozinheiro francês bem chique, e subseqüentes atrasos nas gravações devido ao desregramento e falta de compromisso de advinhem quem- do dono da casa.
Keith embarcou em um consumo desenfreado de heroína que o fazia chegar atrasado aos ensaios e gravações dentro da própria casa. Nas sessões marcadas a partir de oito da noite se estendendo pela madrugada, Richards chegava horas depois completamente chapado, tocava durante uma hora mais ou menos, para sumir e voltar só deus sabe quando.
O engenheiro Andy juiz sofria horrores com Keith fazendo um solo de guitarra e cochilando a seguir viajando no embalo da droga. Johns chegou a ir para casa, e quando estava começando a dormir, o telefone tocava com Keith lhe chamando para trabalhar já quase de manhã, para repetir a mesma rotina de cochilo drogado e trabalho, ou seja solos esparsos,mas no final da parada, bem precisos.
Esse clima antiprofissional contaminou os Stones e os músicos convidados, de modo que o disco foi concluído milagrosamente, mas pontuado por eventos carregados como uma briga de Keith com um francês administrador de uma marina da região com direito a Keith empunhando uma faca e o francês um revolver, mas tudo ficou só felizmente no ate boca e com a presença da polícia em villa nellcôte, a mansão de Keith. para completar, um dos hóspedes chegou ao ponto de ter relações sexuais com a mulher de Keith, tamanha a alienação drogada do artista.
os advogados dos Stones interferiram, o delegado ganhou vários álbuns dos Stones autografados e um convite para jantar com Keith, mas a polícia sendo a polícia ,ficou de olho no local e na figura.
Para complicar, os policiais detectaram através de cerrada vigilância, a presença de pessoas ligadas ao tráfico internacional de drogas em villa nellcôte, o que valeu uma batida com a pergunta embaraçosa acerca da presença de traficantes da pesada na residência de Keith.
Quando a barra esquentou de vez, Keith, anita e a família tiveram que fugir para a suíça, e quando a polícia francesa chegou para mais uma vistoria encontrou uma vasta quantidade de heroína e cocaína na mansão e a presença ainda dos empregados, deixando a falsa impressão de que Keith e a família iriam voltar.
Uma vez na suíça, Keith embarcou em um tratamento em uma clínica para desintoxicar o organismo da presença devastadora da heroína. o roqueiro saiu do tratamento meio baqueado, mas em forma, o que por sinal de nada adiantou. ele celebrou a cura com uma cheirada olímpica de heroína trazida as pressas da Inglaterra.
BARRA PESADA
Keith é uma espécie de clínico geral em termos de infrações legais. Já foi preso por porte de armas de fogo, drogas pesadas, munição, faca, e chegou a acabar carros bem caros em acidentes provocados pelo hábito de cheirar cocaína antes de dirigir, cometer barbeiragens, jogar o carro contra uma árvore, e fugir deixando o veículo no local abandonado devido á quantidade de flagrante no interior do mesmo.
Em entrevista á revista norte-americana "Rolling Stone" no final da década de 90, o guitarrista Ron Wood, dos Stones, declarou que sofreu algumas tentativas de agressão por parte de Keith, em uma delas Richards empunhou um gargalo de garrafa quebrada contra a sua cara, e em outra ele voou na garganta de Wood tentando esganá-lo, só porque Wood atrasou um ensaio por conta de uma luta de boxe na tv.
Na mesma entrevista Keith afirmou chegar a ter passado nove noites sem dormir direto, chegando a desmaiar quebrando o nariz contra uma aparelho de som dizem alguns, ou um amplificador dizem outros. Nessa jornada insone, Keith ingeria o que estivesse na frente, bebia em excesso, fumava de tudo, fazia o que lhe desse na telha.
Geralmente nas turnês Keith sempre costumou ficar ouvindo música à toda altura nas suítes dos hotéis, sempre bebendo muito e outras coisinhas mais. Anda sempre armado com uma faca da qual só se separa para tocar, e entre muitas aprontações chegou a cheirar as cinzas do cadáver do pai cremado misturada com cocaína, e levou uma queda de uma árvore que lhe valeu uma cirurgia cerebral sobre a qual comentou que o cirurgião que abriu sua cabeça chegou a ver seus pensamentos fervilhando. foi proibido de usar drogas, mas admitiu a seguir que fumava maconha direto.
Um incidente que em muito demonstra o caráter imprevisível de Keith, aconteceu no início da década de setenta na boite the tramp
Só de pirraça os jovens se levantaram e dirigiram um galanteio para uma das acompanhantes de Keith, que virou a mesa, empunhou a inseparável faca, mas levou um chute nos testículos e uma cadeirada nas costas, arreando direto no chão. Os italianos foram expulsos da boate, e Keith chegou a pagar alguém para dar uma surra nos dois.
Acontece que os italianos eram mafiosos de verdade, e o contratado para dar a surra resolveu prudentemente dar a grana do serviço para os jovens italianos, pedindo que eles sumissem da boate por uns tempos. Caso eles fossem agredidos, Keith estaria correndo sério risco de vida, de modo que curiosamente o roqueiro acabou pagando por ter apanhado.
Em 1981, Keith e Ron Wood chegaram a passar dois dias e duas noites tocando, cheirando cocaína, bebendo vodka e tomando um estimulante poderosíssimo. Keith teve que tomar uma dose cavalar de calmantes para dormir, ministrada pelos atentos e por vezes apreensivos assessores.
No Canadá no início de 1977, Keith foi preso com altíssima quantidade de heroína e cocaína, pela polícia montada canadense. Ele havia se registrado em várias suítes diferentes do hotel no qual de hospedou e a polícia quase não o acorda. ao despertar com uma arma na cara e uma voz de prisão, Keith virou-se para a mulher e comentou tranquilamente: "é, querida, te vejo daqui a sete anos", uma clara alusão à pena que iria cumprir e não cumpriu.
É de tirar o fôlego o currículo de um dos ícones do rock, que nascido em 18 de junho de 1943, ainda comenta com muito mais de sessenta anos de idade que não toma mais drogas, porque elas hoje em dia não prestam, e que já enterrou uma ruma de médico que disse que ele não durar muito caso continuasse no seu ritmo desenfreado e desregrado de vida. Um belo exemplo como músico, mas como estilo de vida uma referência perigosa de como não se deve viver.
Luiz Antônio Alencar - eterno Big Brasa, músico e jornalista